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Nas
asas da publicidade
Andréia Moura
Desde
seu nascimento, a publicidade insiste em se infiltrar no jornalismo. O
relacionamento entre jornalismo e publicidade é complexo e muito
discutido. Até que ponto jornalismo é só jornalismo e publicidade só
publicidade? Os dois estão tão afinados que, apesar de distintos, se
tornaram inseparáveis? Quem domina esta relação, jornalismo ou
publicidade? A verdade pode ser esclarecedora, mas de maneira indiscutível
e surpreendente.
A sociedade vive um momento extremamente sensorial. Suas reações são,
com uma freqüência inacreditável, resultado de estímulos visuais.
Portanto, é natural que o jornalismo utilize, mais profundamente, imagens
para transmitir suas mensagens. No entanto, "fazer uso" e
"ser usado" são coisas completamente diferentes que, ao que
parece, o jornalismo finge não notar. Ao passo que, a publicidade faz uso
dessa "necessidade" de maneira admirável.
A publicidade no Brasil, a princípio, lançou-se nos impressos do final
do século retrasado. Eram anúncios simples, bem mais jornalísticos que
propriamente publicitários. O uso de imagens e o poder de persuasão eram
praticamente nulos. Em janeiro de 1875, a primeira edição do jornal A
Província de S. Paulo - hoje O Estado de S. Paulo - já
continha algumas inserções. Elas ocupavam apenas a última página e,
como não tinham imagens, pareciam pequenas notícias. Os anúncios eram
sobre alfaiatarias, colégios internos, fábricas de tecidos, etc.
Com o decorrer do tempo a publicidade passou de "coadjuvante à
protagonista da novela das oito". O que colaborou para isso foi uma
mudança do pensamento ocidental, com a sociedade e sua organização na
essência. A publicidade foi conquistando espaço com a ascendência da
sociedade pós-moderna. Em 1930 se apropriou do rádio e, deve a ele,
principalmente, grande parte do crescimento. Foi nessa época que o
governo finalmente permitiu à publicidade exercer o papel de
patrocinadora das emissoras. Uma mão na roda para o crescimento das rádios
e para o desenvolvimento da publicidade.
Os jingles e spots deram nova forma à propaganda e
ampliaram os espaços de atuação. Finalmente, a publicidade conseguiu
chamar a atenção do público. O povo ligava o rádio não apenas para
ouvir a novela, mas para ouvir e se divertir com as propagandas. O advento
da televisão tornou o território publicidade ainda maior. O uso de
imagens nas propagandas passou a ser primordial, decisivo.
Publicidade organizada
A publicidade nas revistas também cresceu com o tempo. Um exemplo disto
era a revista O Cruzeiro (1928-75). Assis Chateaubriand, dono dos Diários
Associados, percebeu muito cedo a importância da publicidade nas
vendas. A revista anunciava cosméticos, roupas, automóveis e a
publicidade era organizada de acordo com as respectivas editorias. Cosméticos
eram anunciados na parte da revista direcionada para mulheres; os automóveis
com as matérias lidas pelos homens, e assim por diante. Chateaubriand
conhecia o poder sensacionalista da junção da imagem com a notícia.
De maneira lenta e sutil a publicidade se apropriou do espaço reservado
ao jornalismo. O jornalista e professor universitário Vanderlei Dorneles
explica em sua dissertação a evolução da imagem nas revistas semanais
a partir de 1960. No início da década de 1960 os textos ocupavam cerca
de 70% do espaço e 30% de imagem. Hoje as imagens ocupam 70% - geralmente
publicidades - e 30% de texto.
As pessoas respondem mais a imagens do que palavras. Por isso,
profissionais capazes de trabalhar uma imagem, e com a imagem, recebem
grande importância no mercado de trabalho. E o jornalismo se utiliza
destes profissionais em grande escala.
Mais que palavras
Uma imagem fala muito mais que mil palavras e os jornalistas já
aprenderam a fazer uso deste recurso. Cada foto, cada imagem, encerra em
si mesma um discurso. A imagem é prova, a palavra não. Muito mais que
confirmação de um texto, a imagem tem poder persuasivo. Tal idéia
fascina o jornalismo que transforma um recurso visual em técnica de
vendagem, publicidade. Aprisionado nessa rede, ele nada pode fazer senão
encenar o jogo publicitário. Isso causa, simplesmente, o comprometimento
da idoneidade de um veículo de comunicação. Quando a publicidade toma o
lugar de importância que deveria ser dado à notícia, o jornalismo deixa
de exercer a função para qual foi designado.
Esse jogo publicitário causa indignação em muitos profissionais
comprometidos com a profissão. Roberto Gazzi, editor da primeira página
de O Estado de S. Paulo, acredita ser isso o fim do jornalismo.
"Jornalismo é jornalismo, publicidade é publicidade",
enfatiza. Gazzi insiste em conceder à publicidade apenas 1/4 de página,
que é o usual, e nada mais. Ele afirma que isso deve ocorrer em toda a
extensão do periódico, sendo questão de honestidade jornalística.
A imagem é uma maneira de falar e depois afirmar que não disse. Uma
frase escrita tem peso irreversível. De fato, o jornalismo gosta dessa
flexibilidade. Isto é útil a seus propósitos. De 1980 pra cá, as
editorias perderam sua importância para a estética. Uma imagem
bem-escolhida e manipulada é o melhor vendedor que existe.
O jornalismo parece que foi vendido. A quantidade de matérias manipuladas
para benefício de alguns poucos empresários surpreende. Em uma das edições
da Veja, em 2002, foi escrita uma matéria sobre a possibilidade da
batata-frita causar câncer. Depois de expor uma longa "tese",
cheia de comprovações científicas, a revista fechou a reportagem com
uma frase inacreditável: "Mas isso é apenas uma tese".
Realmente inimaginável que depois de tanto "blábláblá" a
revista desminta o que disse. Principalmente, quando um de seus maiores
anunciantes era a rede de lanchonetes McDonald's, que comprara um anúncio
de sete páginas da revista.
Outro exemplo bem-recente se deu com a edição da IstoÉ (23/7/04)
a respeito do Rio de Janeiro. A matéria enalteceu tanto a cidade que a
parte da violência parecia conto da carochinha, e o governo atual virou
lenda urbana.
A publicidade cada vez mais condiciona comportamentos e cria necessidades.
Que resta dizer? Nada. Tudo é claro como água. Estamos vendidos, por
vontade própria, "ao primo rico" da família da comunicação.
Dá até para criar um slogan - leia-se clichê - como tantos já
imortalizados pela publicidade: "Notícia não é nada, dinheiro é
tudo."
criação: lisandro staut |
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