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Objetivando o óbvio

Sandro Heringer

A Rua do Ouvidor estava quase deserta e um sol radiante acabava de nascer. Ao longe se ouvia o desespero de uma vida implorando, à sua maneira, para os poucos que ali passavam, uma ajuda libertadora, uma chance de recomeçar. O transeunte João da Silva avista o incidente e um súbito intuito o fez exercer seu heroísmo desconhecido. Mas o local onde a vítima se encontrava era demasiadamente elevado e íngreme, dificultando o seu resgate. 

Depois de várias tentativas frustradas, João é ovacionado pela multidão curiosa que se aglomerou abaixo de seus pés aguardando ansiosa por um desfecho positivo. Em terra firme, o trabalhador orgulhoso pelo ato de coragem erguia carinhosamente o felino assustado como um troféu, depois de salvá-lo do alto de um jatobá centenário. Notícia: gato preso em árvore é resgatado por pedestre.

"Literalmente falando", o texto acima atravessou a rua para não esbarrar na objetividade. Ilustrando a forma inviável de redigir uma notícia atualmente em grande parte da imprensa no País. 

O jornalismo literário no Brasil, comum em 1960, com suas minúcias e uma porção de romantismo aos fatos narrados não se aplica em um jornal diário, por exemplo. Demanda-se tempo e espaço para tal prática textual. Ficou restrito a livros-reportagem, em que o estilo consagrou escritores como Truman Capote, de A Sangue Frio (1966), e Gay Talese, de Aos Olhos da Multidão (reeditado em 2004 como Fama e Anonimato) e O Reino e o Poder (2000). No Brasil, autores como Euclides da Cunha, com Os Sertões (1902), no passado. Atualmente, Fernando de Morais, com Chatô, o Rei do Brasil (2001), A Ilha (2001), Olga (1994) e outros. 

Criado nos Estados Unidos, a cultura original do jornalismo objetivo foi absorvida em parte pela nação tupiniquim, que utiliza a denominação para esconder uma certa subjetividade que todo mundo conhece, mas faz vista grossa. O velho circo de pulgas. 

Sem a objetividade uma reportagem pode, às vezes, permear por um caminho muito pessoal do jornalista, beirando a parcialidade e difundindo por meio de um texto literato, doses diluídas de um sensacionalismo latente. O Manual de Redação do jornal O Estado de S. Paulo orienta o profissional: "Faça textos imparciais e objetivos. Não exponha opiniões, mas fatos, para que o leitor tire deles as próprias conclusões."

Segundo o pesquisador de jornalismo Michael Kunczik, "a reportagem objetiva é entendida como desapaixonada, sem preconceitos, imparcial, isenta de sentimentalismo e conforme a realidade". Outro fato decorrente para a implantação do modelo americano, é o inevitável corre-corre nas redações. Ser objetivo é andar casado com a rapidez da cobrança editorial, de cumprir os deadlines de um jornalismo dinâmico. 

Para uma sociedade que vive a era do "vc ké tc?", revela-se a pressa com que a sociedade absorve as informações, aliada ao histórico de que a maioria dos leitores não se interessa por textos vastos. Optando por uma leitura mais enxuta, clara, enfim: objetiva. Essa é a realidade dos "joões brasileiros".

Para se resgatar a prática do jornalismo literário do alto do "jatobá centenário", como alguns profissionais o querem, e trazer para uma multidão de leitores acondicionada ao estilo tradicional, é preciso, primeiramente, uma melhor preparação acadêmica dos futuros "heróis da comunicação". Uma reestruturação das rotinas das redações e, é claro, difundir o gosto por uma leitura distanciada por décadas. O percurso é dificultoso e íngreme para aqueles que querem ser ovacionados ao final.