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Em busca de emoções 

Andréia Moura 


A objetividade não traz glória. Também não é envolvente e quase nunca provoca reflexão. Então, por que essa insistência na extrema objetividade de um jornalista? Aquele que tem o dom de usar as palavras pode convencer o mundo do que quiser. Hitler foi uma prova histórica. 

O jornalismo enterra grande parte de seu potencial, de seu alcance em nome da objetividade. Deixou que essa visão obscurecida relegasse ao desperdício uma maneira poética e envolvente capaz de alcançar fundo o leitor: o jornalismo literário.

Esse "novo jornalismo", como foi chamado ao surgir em 1940 nos Estados Unidos, é a expressão pura do verdadeiro jornalismo. A profissão do jornalista é investigar para escancarar a verdade, para atender a necessidade - e o direito - da população em se inteirar dos fatos. Tal objetividade falha neste quesito. A febre de estar em todo lugar, de noticiar cada acontecimento do planeta, faz com que o jornalista sublime de si o prazer de se aprofundar na busca da informação. A notícia se tornou superficial.

O jornalismo de hoje se abastece de futilidades, principalmente no Brasil. O mundo-celebridade parece ser o que há de notícia. Há muito tempo o jornalismo literário perdeu seu espaço. Uma conseqüência de certo "atrofiamento" da profissão. Apurar a fundo um fato, fazer dezenas de entrevistas, pesquisar em arquivos, percorrer grandes distâncias, levantar dados, "imergir" na história e narrá-la com o uso de recursos e ferramentas da ficção parece distante demais da realidade de hoje.

O que não se nota é que o jornalismo literário é exatamente aquilo que as pessoas buscam. Elas folheiam os jornais e revistas atuais procurando algo que lhes prenda a atenção. A maioria não se detém mais que cinco ou dez minutos em uma reportagem, alegam falta de tempo, mas a verdade é que a notícia não conseguiu absorver seu interesse. A audiência de uma novela das oito, por exemplo, supera a do jornal nacional. E por quê? Porque uma novela mexe com a emoção das pessoas.

Jornalismo atraente

É isso o que o jornalismo deveria fazer. Mexer com emoções. Proporcionar reflexão, comoção, descontentamento, incitar a indignação, enfim, ser fator essencial à vida humana. Ser a arma, ser o meio. Segundo o teórico da comunicação, Adelmo Genro Filho, o jornalismo recorre à literatura para conseguir exprimir aquilo que as formas usuais não dizem, ou para dizer o que por tais formas seria impossível. Este jornalismo consegue transportar o leitor para a situação. Consegue fazer com que ele viva a notícia.

No Brasil, esse gênero limitou-se a livros-reportagem. Cada dia, menos repórteres estão dispostos a encarar o desafio de entrar de cabeça num só assunto, esquecer tudo o mais para, ao final, ter o prazer de contar uma boa história. Os escoceses costumam dizer que "nenhuma boa história se gasta, por mais vezes que se conte". Pesquisas mostram que a população está sedenta desse jornalismo. Consomem impulsivamente esse tipo de narrativa prazerosa. Um foco raramente presente nos jornais e nas revistas.

A repercussão do estilo é tão grande que muitas séries de reportagem já se transformaram em livros que, por sua vez, tornaram-se filmes. O Brasil foi pioneiro nessa empreitada. Em 1897, O Estado de S. Paulo publicou uma série de matérias sobre a Guerra de Canudos escrita por Euclides da Cunha. Mais tarde, essas reportagens resultaram no livro Os Sertões(1902), hoje um clássico literário. No entanto, o País se esqueceu que seu legado é prova do interesse populacional por esse tipo de jornalismo.

O espaço do repórter num periódico é cada vez menor, e os chefões pensam estar assim contribuindo para um maior aproveitamento do leitor. Isso não é verdade, o leitor lê qualquer coisa que goste e não importa se isso tem dois parágrafos ou duas páginas. Ainda mais se o periódico consegue fazer um jornalismo vivo, vibrante. O professor de Jornalismo Literário da USP, Edvaldo Pereira Lima, afirma que esse estilo mobiliza as pessoas porque "coloca em primeiro plano, novamente, as pessoas comuns, os heróis anônimos do dia-a-dia, ignorados pelo comodismo da grande imprensa em colocar sob as luzes dos holofotes, quase sempre, apenas as celebridades de justa ou inglória fama deste País e do mundo".

Falta a visão, o reconhecimento de que o jornalismo literário é uma necessidade num mundo cheio de superficialidades. Jornalistas como Caco Barcelos e Denis Russo têm consciência das reações despertadas por esse estilo. Já em 1970, Barcelos pesquisava a polêmica da violência policial que resultou em seu livro, recorde de vendas, Rota 66, A História da Polícia que Mata (2003). Russo, hoje editor da revista Superinteressante, publicou recentemente o livro Piratas no Fim do Mundo, sobre sua experiência de seis semanas na Antártida numa expedição para afundar baleeiros.

Russo ressalta a vantagem da narrativa no jornalismo. Segundo ele, a realidade pode ser vista por qualquer lente. Nesse aprendizado, as pessoas satisfazem a necessidade de viver emoções. Um bom texto é aquele capaz de mesclar números, dados, história e vida. Isso está em falta no mercado.

Jornalismo evolutivo

O impresso hoje deveria recorrer ao jornalismo literário. Seria uma maneira de recuperar o espaço perdido para as mídias eletrônicas. Mas seria também uma evolução: a retomada de um jornalismo que deve expandir em todas as direções e não atrofiar. Recentemente, a Editora Companhia das Letras tomou a iniciativa de publicar os clássicos do jornalismo literário. 

A revista Carta Capital criticou a iniciativa e classificou esse estilo como um "jornalismo em desuso". Surpreendente, vindo de uma família tradicional no jornalismo e que, não duvido, reconhece a importância da retomada do jornalismo literário. Para esses, fica a frase de Marcel Achard: "Um homem que nunca muda de opinião, em vez de demonstrar a qualidade da sua opinião demonstra a pouca qualidade da sua mente."

Espera-se que brevemente a imprensa perceba que um jornalismo profundo, tocante, que exprime a sensação da verdade deve ser o principal objetivo. Afinal, uma boa história é a arma mais eficaz para alcançar o povo. "Diz-me e eu esquecerei; ensina-me e eu lembrar-me-ei; envolve-me e eu absorverei."