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A nobreza do jornalismo 

Fábio Borba 


O jornalismo praticado nos dias atuais é uma mistura de informações e entretenimento. Num geral, são mais objetivos e pouco reflexivos. A informação é curta, descontextualizada e reduzida, seguindo um padrão que teve início com o jornal USA Today, que se auto-intitula a "TV impressa", reservando assim pouco espaço para as reportagens com conteúdo mais elaborado. Essa degeneração é conseqüência das censuras nos meios de comunicação ocorridas nas décadas de 1960 e 1970, principalmente com o AI-5 promulgado em dezembro de 1968.

Nesse período, os jornalistas brasileiros travavam contato com o jornalismo literário norte-americano, que continuou a progredir e, atualmente, possui um avançado patamar de temas diversificados de livros-reportagem. E a nova geração de jornalistas aprendeu a profissão já dentro de um formato mais esquemático de jornalismo, o lead e a pirâmide invertida. 

Há mais ou menos uma década, muitos profissionais, preocupados com superficialidade da cobertura dos veículos periódicos, migraram para o livro-reportagem. Ele tem sido, na verdade, um refúgio para o jornalismo literário no Brasil. O conteúdo tem um foco mais contextualizado e a narrativa é mais profunda, o que não tem espaço nas redações de jornais e revistas.

Algumas faculdades de Jornalismo dedicam um espaço cada vez maior para essa modalidade de produção jornalística como pesquisa experimental. Destacam-se entre elas, pelo volume de qualidade de produção de seus alunos, a USP, a PUC/Campinas, a Cásper Líbero, a Universidade de Taubaté e a Universidade de Uberlândia. Alguns jovens futuros jornalistas conseguiram, inclusive, publicar seus livros por editoras de renome. O livro Caso Escola Base (1995), de Alex Ribeiro (USP), é um excelente exemplo.

Estatísticas da Expocom, Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação - evento que a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) realiza junto ao seu congresso anual -, afirmam que os estudantes de Jornalismo de várias faculdades brasileiras estão sendo preparados para esse tipo de jornalismo.

"Gostaria de realizar um trabalho que marcasse minha graduação. Um professor sugeriu produzir um livro-reportagem, porque poderia publicá-lo posteriormente. Aceitei a idéia, passei um ano entre pesquisas, viagens, entrevistas, visitas a bibliotecas e centros culturais. Está sendo uma experiência ótima, principalmente pelo fato de que no mercado haverá pouco espaço para que eu possa desenvolver textos tão completos, longos e recheados de elementos literários como os que pude escrever em meu livro", conta Victor Drummond, graduando em Jornalismo, que está produzindo um livro-reportagem sobre a história da família Drummond.

"Mesmo quando não há a disciplina dentro do currículo oficial, um professor ou outro conhecem, gostam da modalidade e introduzem a prática do jornalismo literário. Um número pequeno, porém significativo, de alunos está cada vez mais travando contato", é o que menciona o professor Edvaldo Pereira Lima, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, e autor do livro Páginas Ampliadas: o Livro-Reportagem Como Extensão do Jornalismo e da Literatura (2003). 

Realidade mais a fundo

"O jornalismo se resume ao jornalismo informativo. Ele é importante e desempenha uma função relevante, porém, não cumpre todas as necessidades e todas as funções do jornalismo", alerta Lima. 

Lima também ressalta que "para haver uma função de aprofundamento da realidade, precisa-se do jornalismo de reportagem. E um dos caminhos é o jornalismo literário. E que não há porque brigar e querer imaginar uma oposição entre eles, pois cada modalidade cumpre seu papel e no conjunto se complementam trazendo o enriquecimento da prática jornalística". 

Os estudos teóricos dos fundamentos dos livros-reportagem devem ser cada vez mais explorados, tanto por profissionais como, principalmente, pelos alunos de Jornalismo. Estes têm grandes oportunidades de pesquisas e chances de publicá-los. O jornalismo brasileiro vive num território-limite, em que poucos lêem notícias. É um povo, na maioria, pobre de conteúdo e literatura. 

Quanto mais livros-reportagem forem produzidos, mais força o jornalismo receberá para se manter como um espaço nobre da reportagem.