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Falem
bem, e falem de mim
Sandro Heringer
"Levante a vela, o barco está navegando. É o Brasil melhorando pra nossa vida mudar". Palavras positivas e cheias de motivação embalaram o
jingle da propaganda do governo federal exibida há algumas semanas, adentrando nos lares brasileiros com um único intuito: comunicar que a promessa do tão sonhado "milagre do crescimento" havia finalmente iniciado.
O publicitário marqueteiro, e bom de "briga", Duda Mendonça pilotou a embarcação exibindo por meio de uma bela fotografia os dados afirmativos alcançados, como o aumento das exportações, sobretudo pelo agronegócio, e a queda do desemprego em todo o País.
No mesmo momento, propagavam-se acusações de irregularidades fiscais envolvendo partes integrantes da cúpula governamental e outros resultados não atingidos. Mas o que não é bom para ser mostrado, é varrido para baixo do tapete, ou melhor, é lançado para o fundo do mar, longe dos olhos de quem vê.
Semelhante a isso é o que ocorre com os jornais e revistas que circulam dentro de médias e grandes empresas ou entidades, os chamados house
organs. A postura assumida por esse tipo de veículo, é de difundir um número de informações escolhidas a dedo para causar vaidade na classe operária, funcionários ou associados perante o local de trabalho.
Obviamente, mostrando a positividade que permeia os setores trabalhistas se consegue otimizar mantendo um clima favorável de estabilidade ou crescimento. Por meio dele, o funcionário do mês é evidenciado; a festa dos funcionários é registrada; o aumento no balanço da produção é exibido; a nova filial ganha destaque. Tudo isso a cargo de um departamento de comunicação da empresa ou entidade, que em grande parte tem um jornalista responsável.
Neste caso, o comunicador exerce sua profissão com o freio de mão engatado. Primeiramente por escrever justamente sobre o seu empregador, o que acarreta cumprir temas estabelecidos, na maioria das vezes, pelo patrão. A expressão "falem mal, mas falem de mim" não deve ser exprimida nem por mímica. Tornando os
house organs uma espécie de relações públicas intra-empresarial.
A pertinente crise financeira que ameaça fechar uma das filiais; o processo de sonegação fiscal que responde um dos sócios; os salários atrasados; o funcionário que aumentou o número de acidentes de trabalho. São pautas que se tornam evidentemente inadmissíveis e inviáveis para o profissional encarregado do periódico.
Assim como nas propagandas políticas, o foco luminoso do farol se direciona somente para o lado do mar tranqüilo, no qual se encontra a fartura de peixes, onde o que se vê, é o que é posto para ser visto. Um mar de rosas pode até existir dentro de uma empresa, mas se as águas se agitarem e o barco naufragar... certamente não ganhará as páginas do veículo em questão.
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