editorial | ombudsman | debate | imprensa
mídia | cultura | perfil | nostalgia | opinião
  em tempo | olho vivo | leitor | e-mail | expediente
anteriores | próximas edições | inicial

Inocência perdida

Isadora Schmitt

Crianças. Seres adoráveis. Criaturinhas incapazes de fazer o mal. Inocentes, os mirins são vítimas dos adultos que só sabem fazer besteiras. Coitados! Estão completamente perdidos, pois os meios de comunicação manipulam completamente a mente pura e imaculada dos pequenos. 

Exagero? Com certeza. Analisar os efeitos da mídia sobre as crianças é extremamente válido. O problema é a generalização e a queda para os extremos.

Sexualidade. Assunto incontestavelmente batido. Dizer que as publicidades, as novelas e os programas em geral estão repletos de pornografia já virou lugar-comum. É óbvio que existem porcarias em veiculação. Elas sempre existiram e sempre existirão. Só que, além de apenas criticar, a sociedade deve propor critérios para que haja uma comunicação de qualidade.

Mesmo assim, por mais que a mídia não fale de sexo de forma repressora - o que é válido - a maneira como o assunto é tratado extrapola os limites da vulgaridade. Pelo fato de serem fantasiosas por natureza, as crianças acabam encarando a sexualidade de forma totalmente desvirtuada.

Mas quem é o principal responsável pela banalização da sexualidade infantil, os pais ou os veículos? Digamos que os dois. Os pais pela falta de controle. Os veículos pela falta de ética e compromisso com os padrões morais que supostamente deveriam ter.

Se usada para o bem, a televisão pode trazer resultados benéficos para os juvenis. Programas educativos como Vila Sésamo - produto norte-americano que já teve uma versão brasileira nos anos 70 -, segundo pesquisadores da Universidade do Texas, estimulam a capacidade intelectual das crianças. Diferente do que acontece com aquelas que assistem somente desenhos animados e programas de entretenimento em geral.

Brutalidade antropológica

Violência. Outro assunto polêmico... Diante de um arsenal de filmes, desenhos, revistas e seriados brutais, as crianças são levadas inconscientemente a mudarem seu comportamento. Porém, desligar o aparelho da sala de estar nem sempre é a melhor saída para acalmar os baixinhos.

A análise com certeza é muito mais ampla. Até antropológica, por assim dizer. O artigo "A violência e suas formas", da antropóloga Ondina Fachel Leal, no livro A Televisão e a Violência, esclarece que o conceito de violência varia de acordo com a cultura.

A autora afirma que países narcisistas e individualistas acabam sendo caracterizados como violentos por terem uma cultura egocêntrica e de guerra. "Uma sociedade individualizada ao extremo, como é o caso da sociedade norte-americana, com opções de sociabilidade muito diferenciadas da sociedade brasileira, por exemplo, no caso, relacional e hierárquica, a televisão e determinadas mensagens têm uma dimensão que não tem aqui", declara ela.

Ondina ressalta que, de um modo geral, a programação estadunidense assemelha-se à brasileira. No entanto, o contexto cultural faz com que os resultados se distingam. "Os efeitos são diversos e o lugar que a televisão ocupa na vida das pessoas lá e aqui é muito diferenciado", constata a antropóloga.

Realmente. Não se ouve falar muito no Brasil de crianças que matam seus colegas e professores na escola. Na terra do Tio Sam isso é muito mais comum. Porém, os casos de crianças brasileiras que matam para comer e para usar drogas são inúmeros e incontáveis. O flagelo oscila de acordo com a realidade de cada país. Mesmo assim, os casos que ocorrem na alta sociedade verde-amarela são abafados pela imprensa. O que é uma violência à veracidade e ao bom senso.

Desempenho escolar prejudicado e obesidade são outros problemas que atingem as crianças de hoje. Pudera! Com a globalização e com a crise econômica que a sociedade enfrenta, os pais trabalham o dia inteiro e nem sabem se os filhos estudam. O resultado é que a maioria dos pimpolhos passa a maior parte do tempo no ócio, com televisão e guloseimas como principais acompanhantes.

Muitos falam que as crianças de hoje não são mais como as de antigamente. Que bom! Nem sempre o mais antigo é o mais válido e o mais correto. Mesmo com tantos problemas que a geração enfrenta, a mídia - querendo ou não - acabou criando a necessidade de informação nos pequenos. Se antes eles aceitavam qualquer coisa, hoje estão muito mais exigentes em relação à programação.

Mesmo assim, aquela inocência primordial nos primeiros anos está sendo paulatinamente perdida. E, talvez, sem chances de ser encontrada.

                   

criação: lisandro staut