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Mundo de ilusões

Katianne Jouguet


O fantástico mundo da imaginação. Não é o mundo da imaginação de Bob; mas sim, o mundo da sociedade midiática. Não se sabe mais até que ponto o que a mídia exibe é verdade ou ficção. Conseqüentemente, a criança é a maior vítima dos conteúdos transmitidos. Se até mesmo um adulto é ludibriado pela mídia, quanto mais um ser ainda sem discernimento.

Os meios de comunicação se tornaram os formadores da identidade infantil. Paralelamente, os pais perdem a função primordial de educadores. Logo, os "novos educadores" eliminam diversos valores morais para serem "obedecidos". A criança é induzida para uma realidade não existente.

A vida de ilusões provém da criação de estereótipos e da divulgação inconseqüente de imagens e publicidades, ao mesmo tempo em que os meios de comunicação não poupam a criança de cenas de violência e sexo explícito. Todo esse lixo é embutido num único pacote de conteúdos destinados ao público infanto-juvenil. Essa é a educação que a mídia proporciona, principalmente por meio da televisão, mais acessível a todos.

"Ao lado dessa construção informacional, a mídia opera uma desconstrução/ reconstrução cultural que, gradativamente, substitui identidades e ideologias por estereótipos e padrões impostos, quase sempre regidos pela lógica do mercado econômico e pelas manipulações políticas", escreve a educadora Márcia Leite, em artigo para a revista Mídia e Educação (dezembro/2000).

Na verdade, os mass media não estão interessados em fornecer informações ou criar programas de qualidade. A criança precisa consumir; os atrativos são os desenhos e as histórias em quadrinhos de super-heróis, filmes com crianças ricas e famílias felizes, aqueles brinquedos divulgados pela publicidade, etc. Enfim, tudo o que a mídia produz é pura ilusão. No entanto, a criança tenta copiar os padrões impostos e acaba se frustrando quando consegue atingi-los.

Desestruturação social

Em seu costumeiro ensaio na Veja (15/8/99), Roberto Pompeu de Toledo analisa a qualidade na TV. "O contexto é uma televisão sem freios, só comércio e busca de audiência, mais voltada para a formação de consumidores que de seres humanos", critica.

Ele ressalva que a mídia não é a responsável pelas grandes tragédias infantis, como a prostituição. "O que a mídia faz - e não é pouco - é ampliá-las, ao propagar comportamentos e valores para os quais crianças e jovens não estão amadurecidos e tratá-los não só como naturais, mas mitificá-los como próprios de uma vida solta, prazerosa e 'moderna'".

Logo se conclui que a mídia não é a geradora de violência. Porém, como Toledo mencionou, ela proporciona o aumento da criminalidade e da desestruturação social. Os meios de comunicação expurgam a capacidade de senso crítico das pessoas. Neste ínterim, crianças e adolescentes são os mais prejudicados. Ao tentarem se desvencilhar das dificuldades reais e aparentes, passam a viver num mundo de ilusões. O que acontece, porém, é que este não é duradouro.

Em entrevista ao caderno Mais!, da Folha de S. Paulo (6/11/94), o fotógrafo e publicitário Oliviero Toscani faz a seguinte ilustração: "Senhores, sou um garoto de 14 anos que não tem uma família feliz, que na escola está sendo excluído porque não teve a sorte de encontrar um professor inteligente. O único lugar de onde quem fala comigo parece me falar de maneira democrática é a televisão. Olho para a televisão e vejo que as mães são todas felizes, que os carros viajam em paisagens fantásticas, que tudo é limpo, ordenado e digno e digo para mim mesmo: 'eu sou realmente um desgraçado...' Senhores, o mínimo que eu posso fazer é destruir automóveis, arrancar telefones públicos e jogar pedras no carros".

A influência da mídia na formação social é muito visível. Por outro lado, é invisível aos olhos de quem incorpora os seus padrões. Se um adulto não consegue enxergar algo relevante da imensa gama de informações lançadas, muito menos conseguirá uma criança ou adolescente.

                                        

criação: lisandro staut