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Apocalípticos
e integrados,
os pedagogos da mídia
Rômulo Gomes
Quando se trata da relação entre a mídia e o homem no meio social, em qualquer um de seus contextos, a discussão se torna polêmica. Um agravante é adicionado quando o foco reside na influência exercida sobre as crianças.
Neste ínterim, o debate a respeito da manipulação ideológica adquire duas vertentes no embate. Parafraseando Umberto Eco, pode-se dividir os grupos entre os apocalípticos (que desconsideram qualquer aspecto positivo na manipulação da informação) e integrados (aqueles que estabelecem aspectos positivos).
De fato, após a criação da indústria cultural, termo cunhado pelos frankfurtianos Theodor Adorno e Max Horkheimer nos anos 40, muito negativismo surgiu na atual sociedade conflitiva. Esta discussão adentra propostas pedagógicas preocupadas no melhor desenvolvimento das crianças. Walter Benjamim, por sua vez, também teórico da Escola de Frankfurt, adota uma posição integralista, em que o conteúdo exposto pela mídia pode e é bem aproveitado.
O discurso iniciado por Adorno e Horkheimer demonstra como o uso indiscriminado e impensado da mídia pelas elites pode comprometer a sociabilização do homem. Em relação às crianças, a passividade à crítica deve ser ainda maior. Milhares delas consomem, diariamente, uma carga ideológica tão grande que impede a formação reflexiva. As crianças que demonstram comportamento agressivo cultivam uma relação supranecessária com a televisão; aquelas que têm um rendimento escolar abaixo do ideal geralmente apresentam o mesmo vínculo.
Em contrapartida, a percepção das mensagens pelas crianças, quando é efetivada, gera uma infinidade de associações cognitivas. Surgem soluções criativas e uma boa adaptação de elementos díspares, que podem trazer resultados fundamentais para o aprendizado e concentração no estudo. Ecletismo. Muito do material consumido pelas crianças - livros, filmes, programas infantis, desenhos - pode trazer informação positiva, que posteriormente será representada pelas mesmas.
Representações
O francês Henri Lefébvre diz que as representações "se originam no vivido, são fatos da palavra, atravessam a linguagem". Assim, as manifestações da criança têm como fundo sua vivência intelectual no período em que ela forma a mente, nos sete primeiros anos, e sua formação ideológica.
Provém daí, segundo o psicólogo Augusto César Maia, em Relacionamento Familiar, a formação da mente. Os valores agregados nesta idade são demonstrados em toda a vida do indivíduo, quer sejam bons ou ruins. Somente com ajuda de um psicólogo os traumas adquiridos podem ser transformados.
Ainda sobre a reflexão de Lefébvre, o termo "palavra" sugere uma gama de significados. Entres esse, pode-se relacionar o de Mikhail Bakhtin, em
Marxismo ao Fundamentalismo, que induz o pensamento da seguinte forma: "A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial."
Dessa forma, as representações, frutos da palavra, devem ser constantemente analisadas pelo seu teor ideológico. Boas ou ruins, serão a base da criança em seu relacionamento com as pessoas.
Mídia e educação
Atualmente, inúmeras parcerias têm sido feitas para o aproveitamento da mídia pelas crianças, como a Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes. Organizado pela
World Summit on Media for Children Foundation, é uma iniciativa que, desde 1995, estuda propostas mais eficazes do uso da mídia para crianças. Voltado a produtores e outros profissionais da "indústria cultural", a Cúpula discute e procura chegar a um consenso para que os meios de comunicação sejam aproveitados da melhor forma.
Além de fóruns e outros debates, pesquisas revelam que a criança tem uma afinidade muito natural com a televisão. Na sala de aula, as várias mídias têm contribuído para facilitar esta autonomia, de forma que se tornem mais seletivas.
Segundo o sociólogo Émile Durkheim, em As Regras do Método Sociológico, a educação é um dos principais agentes coercitivos, responsável por moldar as crianças à sociedade. Durkheim também afirma que a sociedade detém um caráter de exterioridade aos indivíduos. Estes, ao não se adequarem, sofrem sanções psicológicas.
Em geral, a televisão é o primeiro educandário infantil a promover a inclusão de jovens pensantes ao mundo. Desta forma, é fundamental que a veiculação de valores inerentes a sociabilização e boa conduta seja preponderante na mídia. O caráter coercitivo, garantido na escola, deve ser explorado pelos mass
media, já que ele é muito mais impactante.
Este pensamento é análogo à acadêmica Teoria dos Freios e Contrapesos. Esta propunha a diminuição do poder do rei e tentava desvincular o seu absolutismo. No caso da mídia, os freios e contrapesos seriam o repensamento do conteúdo emitido pela televisão ou outra mídia. Aqui, não mais existiriam apocalípticos ou integrados, já que a intenção é selecionar o que pode ser aproveitado, fazer uma coleta seletiva de material relevante para as crianças - algo que elas mesmas estão começando a fazer por si só.
Aos lixeiros, paciência. Aos produtores, sabedoria. Enfim, tudo dá mídia, mas da mídia não vem tudo.
criação: lisandro staut |
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