editorial | ombudsman | debate | imprensa
mídia | cultura | perfil | nostalgia | opinião
  em tempo | olho vivo | leitor | e-mail | expediente
anteriores | próximas edições | inicial

Gente inocente?

Elisama Gama


Há muito tempo a sexualidade era um assunto discutido a sete chaves e considerado um tabu. Hoje o sexo é falado, discutido e mostrado de forma banal e "picante" nos momentos em que a família se reúne à frente da televisão, como na hora do almoço, causando "indigestão" aos pais e curiosidade às crianças.

Em casa ou na escola, a televisão e outros meios de comunicação se tornaram a fonte principal de educação. Algo triste, considerando que a mídia aborda esse tema sugestiva e irresponsavelmente.

É assim que a criança, por meio da mídia, é educada. Aprende que o sexo pode ser feito sem princípios morais e sem conseqüências, pois mesmo sendo baseado na realidade, é retratado de forma ilusória e com desfechos diferentes dos vividos pelas pessoas comuns.

Neste contexto, os pais tendem a proibir seus filhos de entrarem em contato com esse tema. No entanto, proibir é pior, pois estimula a curiosidade. De acordo com a psicopedagoga, Orly Zucatto, "enquanto não houver uma sociedade que exige que a mídia colabore com a moralidade, os pais precisam chamar para si a responsabilidade. É fundamental que a família se responsabilize em selecionar os programas que as crianças assistem".

E além desse ponto, cabe aos pais assistirem, discutirem e conversarem sobre os programas que seus filhos têm curiosidade de ver. Devem limitar o tempo de uso, conhecer o programa e estimular o senso crítico da criança. Só assim ela terá condições de formar seu caráter num alicerce baseado em contrapor o que é passado pela mídia e os princípios morais.

Violência inofensiva


Num grau exacerbado, a mídia transmite a violência em diversos tipos de programas, como filmes, telejornais e diversos desenhos animados e programas infantis. Infelizmente, a brutalidade atinge de maneira direta o público infantil.

A criança em sua fase de formação tende a imitar seus pais, professores ou "heróis" que estão próximos. Se a maior parte do tempo ela passa em contato com a televisão, conseqüentemente se identifica com o que é apresentado e aceita as informações como verdadeiras. No processo de aprendizagem, a criança ainda não consegue discernir entre o certo e o errado. Acaba por apresentar em seus comportamentos o que aprendeu por meio das identificações.

Assim, a violência pode facilitar o comportamento agressivo e anti-social na criança. Pode se agravar na juventude e, por fim, na vida adulta, atingindo o psicossocial do indivíduo.

Albert Bandura, um famoso pesquisador de TV que fez diversas experiências com crianças testando seus comportamentos agressivos, declarou certa vez:

"Se os pais pudessem empacotar as influências psicológicas para administrá-las em doses regulares a seus filhos, duvido que muitos selecionassem deliberadamente os atiradores, psicopatas alucinados, loucos sádicos ou palhaços ridículos da sociedade ocidental, a menos que estivessem com ambições bastante peculiares para seus filhos em crescimento. Contudo, esses exemplos de comportamento são enviados em abundância, sem uma cobrança direta, para milhões de lares diariamente. Pais ocupados podem facilmente desligar os filhos exigentes ligando o aparelho de TV; como resultado disso, a juventude atual está sendo criada com uma dose pesada de agressão e violência televisionadas".

Uma pesquisa feita pelo Ibope apresentou estratégias para evitar a relevância da televisão para as crianças. Entre elas, estabelecer horário para dormir, ter alternativas de programação (TV a cabo), atividades extras (esportes, informática, línguas), deveres escolares, etc.

Com essas estratégias, a criança terá pouco tempo para interar-se com a mídia. Diminui, assim, a possibilidade de influência e, conseqüentemente, de ter filhos e alunos agressivos e com dificuldade de discernir o que é real e o que é irreal, em saber até que ponto a violência é sadia e quando é passada com sensacionalismo.

Mas o ponto principal dessa temática é considerar que a mídia dá o que o público gosta e aceita. "Exibindo sexo e violência com intensidade e freqüência, a televisão se transformou em algo que já não pode ser ignorado", denuncia Maria Lucrécia Zavaschi, em artigo do livro A Televisão e a Violência.

Cabe à sociedade e à mídia estabelecerem critérios e melhorar o nível dos conteúdos que são transmitidos diariamente. Só assim poderemos pensar em uma sociedade resgatada.

                                        

criação: lisandro staut