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Imputações exorbitantes

Fernando Torres


Muito se especulou a respeito das mensagens subliminares nos últimos anos. Delas foram ditos cobras e lagartos. Elas estariam em toda parte: publicidades, camisetas, cartões, etc. Como as crianças seriam seu alvo principal, os desenhos se destacariam como o forte do subliminar. Verdade? Exagero? Sensacionalismo.

Tudo começou em 1956, quando surgiu a informação de que uma audiência de cinema em Nova Jersey havia sido influenciada a consumir Coca-Cola e pipoca devido a mensagens projetadas no filme de forma imperceptível. O frame, inserido no filme Férias de Amor, dizia "Beba Coca-Cola" e "Coma Pipoca".

Tal boato serviu apenas para alarmar a população sobre os efeitos da mídia sobre seu inconsciente. Provavelmente, o fenômeno não chegou mesmo a ocorrer. A explicação mais racional é que um certo James Vicary, pesquisador de marketing então desempregado, teria ludibriado repórteres de jornais e emissoras de rádio e donos de agências de publicidade. Depois de ajuntar uma boa soma de dinheiro, desapareceu.

Evidência de que tudo não passou de uma farsa foi o experimento realizado pela rede de TV Canadian Broadcasting Corporation, em 1958. A emissora projetou a mensagem "Telefone Agora" 352 vezes em um programa dominical e informou seus telespectadores que estavam sendo expostos a algo subliminar. Ao serem indagados sobre os efeitos após a transmissão, surpresa: fome e sede. Nenhum dos 500 espectadores experimentais descobriu a mensagem ou demonstrou qualquer reação a ela.

Mensagens imperceptíveis

Seria ingênuo afirmar que as mensagens subliminares não existem. Elas estão por aí, sim e podem ser sentidas por quem se expõe a elas. Os espectadores, porém, não podem ser persuadidos por elas. Segundo o psicólogo David Myers, em Introdução à Psicologia Geral, "a pesquisa de laboratório revela um efeito sutil e fugaz sobre o pensamento, mas os promotores das fitas subliminares alegam um efeito poderoso e duradouro sobre o comportamento".

Na mídia infantil, os mais atacados são com certeza os desenhos da Disney. Quase todos teriam alguma mensagem subliminarmente inserida, na maioria delas, voltadas à sexualidade. A figura de um pênis esculpida em uma das torres do castelo na capa do vídeo de A Pequena Sereia, a palavra "sexy" formada entre as estrelas do céu de O Rei Leão, cenas de topless em Fantasia; a silhueta de uma mulher nua em uma janela em Bernardo e Bianca são algumas delas.

Destas, a Disney assumiu apenas uma como subliminar: a silhueta feminina de Bernardo e Bianca, em janeiro de 1999. Em todo caso, recolheu a capa de A Pequena Sereia e corrigiu a notável semelhança. Vale ressaltar que os casos restantes realmente podem se caracterizar como coincidência.

Propositais ou não, o importante é saber até que ponto essas mensagens afetam as mentes infantis. A obra já citada de Myers diz que o termo significa, literalmente "abaixo do limiar". Assim, conforme o consenso dos psicólogos, todos os estímulos que passaram do limiar não são detectados pelo receptor; se porventura isso ocorrer, seus efeitos serão mínimos.

"É evidente que um estímulo breve e, portanto, imperceptível desencadeia uma reação fraca que evoca um sentimento, embora não um conhecimento consciente do estímulo. Mas o que a mente consciente não pode reconhecer, o coração pode saber", estabelece Myers.

Ideologia

O verdadeiro perigo não está nas mensagens escondidas, mas sim naquilo que todos podem ver sutilmente. Para que procurar inserções subliminares satânicas no desenho Hércules, quando grande parte deste se passa explicitamente no inferno? Que lógica há em procurar bruxaria no subliminar quando ela se escancara em vários personagens?

Exemplo típico de mensagem sutil ocorre em Aladdin. Logo no início, o protagonista aparece roubando comida. Ele justifica o ato delinqüente com o fato de ser pobre e faminto; assim, nessas condições, não é errado roubar. Mensagens ocultas para as crianças vêm embutidas assim: sutilmente impõem uma ideologia contra os padrões morais da sociedade. 

Isso não é sublimar. É sutil, mas perceptível e seus efeitos podem ser mais longos. Em casos assim, pais devem evitar que seus filhos assistam ao desenho não por causa do subliminar, mas do visível.

Não se pode, porém, ver maldade em tudo. Os alarmistas das mensagens subliminares chegaram a acusar os produtores de O Rei Leão de incitar o homossexualismo apenas porque o personagem principal, Simba, rebola ao caminhar. Basta observar qualquer felino para verificar que esta é uma característica intrínseca da espécie.

Como se viu, às vezes o mal está na cabeça das pessoas, já mergulhadas em uma visão imoral de mundo. Ademais, qualquer cacófago pode produzir palavras subliminares. Como a deste título, por exemplo. E nem por isso você ficou com vontade de fazer sexo. Ficou?

                                        

criação: lisandro staut