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Filhos da mídia

Leilaini Holdorf

Entre os grandes alvos publicitários, encontram-se as crianças. Apesar deste "pequenino" público não ter domínio aquisitivo, seu poder de convencimento à compra é fenomenal. Se a mídia tem uma capacidade incrível de manipular opiniões de adultos, quanto mais de crianças. Ela os envolve por todos os lados, no que vêem, escutam, lêem, usam e precisam, já que a TV e a indústria cultural sobrevivem do comércio da imaginação.

O uso da publicidade, de natureza lúdica e fantasiosa, é certeira na manipulação infantil. Isso ocorre de tal forma que o que mais há neste mercado são produtos referentes aos desenhos animados. As crianças se identificam com os personagens e aprendem, inconscientemente, a desejar serem iguais a eles.

Um exemplo, bem comum, é uma criança querer ter o corpo parecido com o de seus heróis. A psicanalista infantil Lúcia Baraúna, da Associação Brasileira de Psicanálise, explica que essa é apenas uma parte das influências que a criança absorve: "Hoje em dia, até os pais e mães são sarados e buscam corpos perfeitos."

Antes das publicidades serem veiculadas, são feitos estudos e pesquisas, elaborados a partir de uma lógica de mercado, que garante uma margem maior de sucesso nas vendas. "Existe um estudo para viabilizar o licenciamento de bonecas copos, pratos e fantasias, que são idealizados antes mesmo da produção final do roteiro", descreve Cláudia Bolshaw, professora de Animação do Departamento de Artes e Design da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

O uso de crianças é a melhor forma de vender para elas mesmas. Quando a criança vê outra, na televisão, num outdoor, ou ouve cantando um jingle, sempre muito sorridente e passando felicidade, automaticamente ela quer de imediato o produto associado àquela mensagem "feliz".

Por não ter ampla capacidade de assimilar o que pode ser real ou imaginário, a criança é manipulada facilmente. O que faz muitas empresas de comunicação girarem em torno delas. Cláudia Bolshaw conta: "Quem determina o design do corpo dos personagens de desenho é a produtora, visando o mercado."

Valores pós-modernos

A forma como as crianças vêm sendo tratadas pela mídia, juntamente com o acesso livre a informações, moldou as crianças contemporâneas. Elas não aceitam mais a representação do mundo distante da realidade como um mundo idealizado. A fantasia as atrai, sem dúvida. Contudo, essa exposição à informação do mundo real e adulto fez com que elas não aceitem mais serem isoladas no ambiente infantil.

Hoje, a criança é retratada na publicidade de forma bem diferente que pouco tempo atrás. Suas roupas são iguais às dos adultos; a forma de falar é como a de um adolescente e não mais como de uma criança. O fato é que o lúdico é a grande saída da criança, pois é a área onde ela consegue exercitar suas fantasias, como forma de representar o impacto produzido pela realidade à sua volta.

A mídia revela ao mundo infantil o que antes era revelado ao universo adulto. E mais: as crianças aprendem na mídia o que antigamente era passado pelos pais, na hora certa. A mídia, televisiva principalmente, está tomando o lugar que antes era da família. Por conseqüência, as conversas em casa acontecem casa vez mais raramente. Segundo o psicanalista Carlos Mattos, os pais "estão perdidos nas mudanças rápidas desta época pós-moderna, sentindo dúvida sobre que valores passar para seus filhos".

Esse pensamento esclarece o motivo pelo qual as crianças são tratadas e retratadas pela mídia atual. Fica aqui um alerta de cuidado aos pais certos dos valores a passar aos seus filhos. A publicidade está competindo acirradamente para "educar" suas crianças.

                    

criação: lisandro staut