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Mundo
em crise, jornalismo em
crise, mundo em crise...
Alex Gonsalves
Demissões e remanejamentos administrativos são fatos corriqueiros no quadro econômico mundial, relatados pela mídia. No entanto, isso vem acontecendo com mais intensidade dentro das próprias empresas de comunicação. Diante da crise econômica, a imprensa tem se abalado profundamente, deixando afetar a qualidade das produções.
Há muito já se sabe que a "globalização" não é redentora, mas defensora dos interesses dos países dominantes. A transformação global trazida de fato é a da economia, caracterizada pelas dívidas insustentáveis, nas quais o setor financeiro tem um papel dominante.
De acordo com Ann Pettifor, economista britânica, em material distribuído pela Agência Envolverde, em janeiro de 2003, as atuais dívidas pendentes de pagamento são estimadas em cem bilhões de dólares. Ainda segundo ela, "a dívida externa acumulada dos Estados Unidos é de mais de dois trilhões de dólares e pode ser mantida somente por meio da mobilização em cada dia do ano de quatro bilhões de poupança estrangeira".
Diante de um quadro tão alarmante, a imprensa, ícone social inter-relacionado com todas as áreas, inclusive a econômica, também se afeta. Demissões em massa, fechamento de empresas, corte nos gastos, crise, crise, crise... As redações de jornalismo se percebem como relatoras da crise, mas ao mesmo tempo participantes dela. Afinal, são empresas que também se movem com dinheiro.
Remanejamentos e demissões
Isso se faz notar a partir dos remanejamentos das emissoras, começando por outros programas, chegando até as redações jornalísticas. O SBT resolveu este ano extinguir seus programas jornalísticos.
Ao todo, foram demitidos 350 funcionários, entre eles, 28 jornalistas.
Só se salvou o Jornal do SBT, ainda que com um enxugamento. Na Rede Record, houve 15 demissões só de jornalistas. Na Rádio e TV Cultura, 256 demissões foram anunciadas, incluindo 61 jornalistas.
Nos impressos, a situação não é nada melhor. Onze funcionários do Diário de S. Paulo foram demitidos em julho de 2002. Os trabalhadores da Gazeta Mercantil têm seus salários atrasados por meses.
O jornal demitiu 15 jornalistas este ano, entre eles, integrantes da chefias e editores.
Época exonerou 13 funcionários com a troca de diretor de redação. O Grupo Folha demitiu 19, entre a própria
Folha, Folha Online e Agora SP.
Em todos esses casos, o Sindicato dos Jornalistas tentou impedir as demissões, mas não obteve resultado. Aliás, nem o diretor do sindicato foi poupado. A direção da TV Ômega/Rede TV! desrespeitou a Constituição Federal e a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), por meio de telegrama datado de 6 de fevereiro, demitindo o diretor do Sindicato, Eureni Pereira. A emissora tem centenas de processos trabalhistas tramitando contra ela.
Além da redução do quadro de funcionários nas empresas, os jornalistas presenciam o enfraquecimento da categoria. Os acordos coletivos de trabalho estão cada vez beneficiando menos os trabalhadores. Embora a voz inativa seja fato presente na grande maioria dos sindicatos, isso assusta ao chegar na categoria dos comunicadores. Afinal, são eles que devem fazer ouvir a voz dos oprimidos.
Como se não bastasse a crise econômica, ainda há os problemas de remanejamento administrativo, por vezes gerado pela crise, por outras não. É o caso da Rede Globo, que perdeu Roberto Marinho. "A morte do jornalista Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, é mais um motivo para as empresas de comunicação repensarem o seu futuro", afirma Alberto Dines, em declaração ao site
Último Segundo (7/8/03).
Além das demissões, mais de cem, o Grupo Estado ficou marcado por ser a primeira empresa jornalística a se reestruturar no próprio clã. Em meados de junho, a família Mesquita deixou os cargos de chefia do grupo, com exceção de três componentes: Ruy Mesquita, diretor editorial do
Estadão, Francisco Mesquita Neto, diretor interino, e Cecília Mesquita, diretora do
Suplemento Feminino. O restante passou a ocupar apenas o Conselho Administrativo.
É preocupante analisar o contraste entre o poder da informação da mídia brasileira e quem controla este poder. Quando se troca a diretoria de uma empresa de comunicação, todos ficam atônitos a perceber que novos rumos podem tomar as formas de lidar com as informações. Isso não poderia ser assim tão vulnerável, mas é.
Superando a crise
Torna-se necessidade de primeira grandeza superar a crise econômica que chega à imprensa. Os meios de comunicação de massa são muito mais que empresas - caso contrário devem mudar até de nome -, mas não podem escapar da realidade. Por vezes, terão de acontecer remanejamentos, mas sempre primando pela proteção aos profissionais. O exemplo está no exterior.
No caso da Rádio Advertising Bureau (RAB), dos Estados Unidos, a saída foi remanejar negociando com os anunciantes, priorizando a qualidade profissional. O prestígio do RAB era baixo, mas atualmente a receita anual é de seis milhões de dólares. Segundo nota divulgada por Arnaldo Galvão no
Estadão (27/9/99), "a RAB tem um programa de treinamento e qualificação em marketing e vendas que se tornou referência para a contratação de profissionais no mercado".
Depois de quase fechar suas portas em 2000, o jornal francês Le Monde aumentou sua circulação de 330 mil exemplares para 395 mil, algo em torno de 0,5% em relação a 2001. O jornal apostou na reforma editorial, que inclui reportagens voltadas ao cotidiano popular. Não se trata exatamente de um pulo, mas contrastando-se ao restante da imprensa européia, desvairada e desequilibrada, o
Monde não até que está se saindo bem.
Outro ponto de destaque é que os jornalistas do Monde também são seus principais acionistas. No Brasil, a Constituição aprovou a mesma lei, permitindo que os jornalistas também sejam acionistas dos jornais. Em terra tupiniquim, porém, a lei ainda não está sendo praticada.
Anos rebeldes
A demissão de jornalistas experientes, o corte dos privilégios conquistados ao longo da carreira e a conseqüente queda na qualidade das notícias são os caminhos utilizados pelas empresas de comunicação brasileiras para sobreviver em curto prazo.
No entanto, a imprensa mina seu próprio território. A saída é justamente do lado oposto: priorizar a qualidade, para isso preservando a satisfação da sua matéria prima principal, seu pessoal.
Mais do que nunca é preciso refletir sobre a situação financeira e sua relação com a imprensa. Não é só o fato de haver demissões que preocupa, mas a espécie demissões. Em geral, elas levam os profissionais mais competentes. Para os cortes, não se leva em conta o nível, a experiência, mas quanto ganha. É claro que com isso o padrão de jornalismo vai piorando, piorando...
O capitalismo aparece na frente da imprensa como a mais forte e controladora ditadura que já existiu. Enquanto se fala com orgulho dos desafios à ditadura militar por parte dos jornalistas de então, desfoca-se o controle quase inquestionável do atual poder dominante. São poucos os jornalistas corajosos que se levantam contra o poder instituído que pode tirar-lhe o emprego. Muito menos que formador de opinião, o jornalista se torna defensor dos anunciantes e empresários do lado de seu patrão.
Mais do que nunca, nosso tempo é que deve ser considerado, de fato, como os anos rebeldes. Muito mais que os dias dos avós saudosos.
criação: lisandro staut |
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