editorial | ombudsman | debate | imprensa
mídia | cultura | perfil | nostalgia | opinião
  em tempo | olho vivo | leitor | e-mail | expediente
anteriores | próximas edições | inicial

Calamidade salarial

Katianne Jouguet


Os dados não negam. A crise da imprensa reflete em demissões e em cortes salariais. Todos os setores de trabalho e profissionais liberais enfrentam instabilidade ocasionada pela situação econômica do País. Neste ínterim, incorpora-se essa explicação ao meio jornalístico. É questionável o fato de existirem tantos investimentos tecnológicos nesta área, geralmente milionários, e não haver condições para o pagamento do ônus salarial e melhoria nos setores de trabalho. 

Deocleriano Souza, presidente do Sindicato de Jornalistas do Amazonas (SJPAm) e vice-presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) disse em entrevista ao Canal que "a profissão passa por crises financeiras em função do colapso de um modelo de negócio. O negócio de comunicação plantado sobre a empresa familiar está condenado à extinção. A conseqüência é um jornalismo sem ética, correndo atrás de publicidade, em que as empresas ficam prevaricando com o poder público".

As demissões também estão acima da média. Até junho de 2003 o sindicato registrou inúmeras demissões em grandes empresas de comunicação. No Grupo Abril houve o maior número de homologações, 45; seguindo O Estado de São Paulo, 37; o Valor Econômico, 38; a Editora Globo, 35; o Grupo Folha, 31; e outros, 194. De lá para cá, os números não estacionaram, infelizmente.

A crise da imprensa é circundada por greves. Para se ter uma idéia, somente em agosto, no município de São Paulo e Rio de Janeiro, funcionários dos jornais Tribuna da Imprensa (RJ) e Folha Metropolitana (SP) e Metrô News (SP) saíram às ruas para reivindicar melhores condições de trabalho e pagamento de salários atrasados.

O relato do diretor dos Sindicatos dos Jornalistas do Rio de Janeiro, Alberto Jacob Filho foi que "o jornal [Tribuna da Imprensa] está constantemente em atraso". É importante ressaltar que São Paulo e Rio de Janeiro ocupam respectivamente 2.º e 3.º lugares no índice decrescente de salários do Brasil. O primeiro é o Distrito Federal, em que profissionais recebem 26 salários mínimos.

"Isso é uma vergonha!"

Baixos salários, paralisações, péssimas condições de trabalho... Essa é a vida do jornalista, que normalmente trabalha 42 horas semanais e ainda corre o risco de ser demitido e cobrir horários de quem já foi. Uma profissão que tem o intuito de reivindicar os direitos dos cidadãos, mas que não defende seus próprios direitos. Um trabalho subumano. Não é à toa que o jornalismo é considerado uma subprofissão. Boris Casoy não seria o jornalista correto para opinar sobre a situação do mesmo, mas "Isso é uma vergonha!".

Não há motivação para o referido trabalhador. Se tivermos como base o "alto" salário dos jornalistas de São Paulo, veremos quão penosa é a situação dos outros Estados. O piso salarial na capital paulista é de 964 reais (jornada de cinco horas) e 1.542,40 reais (jornada de sete horas). No Rio de Janeiro a média salarial é de 813,65 reais (cinco horas) e 1.302,29 reais (sete horas). Esse é o salário do redator na capital. Imagine, então, outras mídias, principalmente o rádio, primo pobre da profissão.

Para mesclar a baixa remuneração, existem alguns benefícios escritos nas cláusulas dos sindicatos: transporte gratuito (para exercer a função), vale-refeição ou cesta básica (esta, com desconto de 20% do empregado), auxílio-creche de 135 reais por filho de até seis anos de idade, auxílio viagem (se for a trabalho) e seguro de vida no valor mínimo de 15 mil reais.*

Que grandes "benefícios" motivam o jornalista e o futuro profissional da área! Principalmente os "altos" salários. Se pelo menos metade dessas cláusulas fosse colocada em prática... 

Aqui vai outra que existe apenas na teoria: "CLÁUSULA VIGÉSIMA NONA - As empresas oferecerão condições e ambiente adequado de trabalho aos jornalistas, principalmente quanto à iluminação, ao ruído, ao equipamento, ao espaço e à ventilação visando à preservação da saúde de seus empregados, conforme Normas Regulamentadoras (NRs) do Art.200 da CLT."

Mobilização

É por isso que dizem que o jornalista tem que amar a profissão. Se há insatisfação destes em locais que se ganha "bem", ainda mais nos outros. O Estado do Piauí tem fama dos menores salários do setor. E não é apenas fama. Respondendo ao Canal, a presidente do Sindicato dos Jornalistas do Piauí, Teresinha de Souza Val, disse que o piso da região é de 730 reais. Ela ainda ressaltou que a média salarial do jornalista no Brasil é de dois mil reais e apenas 10% destes ganham mais que cinco pisos salariais. 

De acordo com Deocleriano Souza, a culpa é dos próprios profissionais da área. "Se os jornalistas tivessem mobilização e não ficassem com medo de perder o emprego, hoje já estaríamos com uma faixa salarial bem melhor. Para sobreviver, o jornalista acaba caindo no duplo, e até no triplo emprego", lamenta.

O nível salarial dos jornalistas tupiniquins é inquestionavelmente baixo. Mas isso não se restringe apenas ao Brasil. Se a crise da imprensa é ocasionada principalmente pela situação econômica vigente, por que diversos paises de primeiro mundo enfrentam os mesmos problemas na área de jornalismo? Um jornalista francês, por exemplo, ganha 18.700 francos mensais (cerca de 2.600 dólares).

É preciso haver um remanejamento dos salários. Uma distribuição coerente e justa entre as diversas mídias e as regiões do País. Não é justo um radialista do Piauí ganhar um salário mínimo ao mesmo tempo em que uma pequena parcela ganha mais de cem mil reais. Mesmo que sejam proibidos de escancarar a difícil situação que os acoberta, os jornalistas devem reivindicar seus direitos. Ele é um cidadão e merece viver como tal.

*NR: No Paraná, o salário-base do repórter é de 1.299,23 e o do editor é de 1.688,99 (jornada de cinco horas). Em relação aos benefícios oferecidos aos sindicalizados, o seguro de vida alcança a cifra de 50 mil reais.

                                        

criação: lisandro staut