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Bom para uns, ruins para outros

Neanis Lutzer


Um dos fatores que motiva a escolha de uma profissão é o salário alto. No entanto, com o mercado saturado de profissionais, fica difícil escolher. É necessário mais do que nunca gostar do que faz.

Nas empresas jornalísticas, a realidade é a mesma. Assim como um enfermeiro que preza pela saúde da sociedade e um professor que quer garantir o futuro do País ensinando à população, os jornalistas que trazem diariamente notícias do Brasil e do mundo discutem seus salários. Nunca muda. Afinal, neste mundo moderno e absurdo, as pessoas nunca estão satisfeitas com nada. Não seria diferente com o dinheiro que recebem.

Dizer que jornalista ganha pouco, pode ser; mas seria o mesmo que discutir que um prefeito ganha pouco, um gari, uma secretária bilíngüe, um artista... depende do ponto de vista. Até o presidente Luís Inácio Lula da Silva poderia reclamar de seu salário. Afinal, ele é o responsável (ou pelo menos deveria ser) por esta nação inteira! Se formos avaliar, todo mundo ganha pouco...

Entende-se que a preocupação dos jornalistas é o fato de alguns ganharem pouco trabalhando muito, enquanto outros ganham absurdos para apresentarem telejornais. Certamente isso é uma grande discordância, mas acontece em todos os ramos empregatícios. Não há como mudar. A mudança deveria ser feita nos primórdios da natureza tupiniquim, quando o Brasil era apenas um pedaço de terra.

A exemplo dos jornalistas que ganham muito, podemos citar Glória Maria, apresentadora e repórter do Fantástico. Ela, além de enfrentar o racismo, é uma das jornalistas mais populares do telejornalismo. 

Glória trabalha fazendo o que mais gosta: reportagens. Viaja na segunda, para qualquer lugar do mundo, e volta na sexta ou sábado, para trabalhar no domingo. Começando sua carreira como telefonista da Embratel, hoje, com o jornalismo na veia, tem seu salário na Globo estimado em mais de 20 mil reais.

A faixa salarial dos jornalistas em empresas de grande porte como em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília contam com uma média de 900 reais e, dependendo do tamanho da mesma, o cargo de editoria recebe de três mil a trinta mil reais (no caso de editor-chefe). 

Bolso cheio

Outro exemplo de salário gordo é o de Jô Soares, que ganha uma média de 500 mil reais mensais. Boris Casoy é um outro grande astro do bolso cheio. O jornalista fazia plantão esportivo na antiga Rádio Piratininga aos 15 anos. Hoje, pode-se dizer que ele é o melhor âncora do telejornalismo brasileiro. 

Sua carreira se consolidou no SBT por nove anos à frente do TJ Brasil, e logo depois passou a ser âncora do Jornal da Record. Com essa troca, estima-se que o apresentador passou a receber um salário de cem mil reais. Boris nega, dizendo que ganha menos que Ney Gonçalves Dias, ex-apresentador do Cidade Alerta. Estes dois apresentadores são os que têm a maior remuneração do telejornalismo brasileiro.

Outros apresentadores de telejornais, como Lillian Witte Fibe e William Bonner recebem em média 35 mil reais por mês. E para os que querem conciliar jornalismo com algum outro dom, temos o exemplo de Cid Moreira, que por leituras casuais no Fantástico e Jornal Nacional recebe cerca de 50 mil reais mensais.

"Na Globo, o crachá vale mais que o salário", diz o diretor geral de programação e operações da Rede Record, Eduardo Lafon. Ele menciona que o retorno do dinheiro gasto para os salários vem de renda publicitária e audiência. "O nome Boris Casoy já está pago", complementa, "pois valeu o investimento para contratá-lo, que atrai o anunciante e o público".

Grandes exemplos podem ser lembrados, até mesmo de pessoas não tão conhecidas quanto os apresentadores citados acima. Paulo Henrique Amorim ainda não se firmou na audiência no telejornal da Band, mas seu salário não passa de 40 mil reais. No entanto, está no contrato que para cada ponto que ele conseguir no Ibope, estabilizado acima dos cinco pontos, ganhará um acréscimo de cinco mil reais. Infelizmente para ele, o Jornal da Band está na média de dois pontos.

Outros veículos

Para se ter uma idéia de outros veículos de comunicação, tome-se por exemplo o salário médio nas emissoras de rádio. Este, na base de 13 salários mínimos em Brasília, nove no Rio de Janeiro e São Paulo, de acordo com dados de 2001. No entanto, os reajustes não passam de 14% até 2003. Já em revistas, o piso sobe para 41 salários mínimos em Brasília, 20 em são Paulo e treze no Rio.

Um grande exemplo de salários bem estruturados está centralizado na Radiobrás, Empresa Brasileira de Comunicações S.A. Ela é responsável pela distribuição de informações governamentais para a população.

Com mudanças ocorrendo neste ano, como a idéia de organizar uma rede de televisão que inclua as Américas numa transmissão bilíngüe, a empresa oferece acesso ao público a tudo o que o governo faz, apresentando todas as informações numa linguagem sem termos técnicos, para que o cidadão possa entender.

Hoje, a Radiobrás conta com 220 jornalistas com salários entre dois mil e quinhentos e quatro mil reais. Com essas mudanças e com demissões, os jornalistas contratados são colocados em funções de confiança com salários que chegam de seis a oito mil reais. Não é pouco.

O bom salário depende muito do ponto de vista. Existem jornalistas que ganham cerca de 30 mil reais por mês e acham que é pouco só para aparecer na televisão e noticiar acontecimentos importantes para a sociedade. Muitos trocariam qualquer emprego para ganhar este dinheiro - talvez fazendo muito melhor.

O salário será uma discussão eterna. Com um País de desigualdade social muito grande, a diferença salarial não deve ser medida simplesmente pelo nome no crachá, como disse Lafon a respeito dos funcionários da TV Globo. Se o profissional tem conteúdo, seu trabalho é merecedor de tais mordomias.

Enfermeiros, garis, professores e jornalistas. Todos prezam pelo bem estar social. Todos têm salários altos e baixos. Mas nestes e outros ramos, não são todos que têm a capacidade apropriada para a profissão. Não basta ser somente jornalista com um diploma. É necessário ter ousadia. É necessário ter conteúdo. Estes são dois dos variados fatores que tornam o profissional de jornalismo valorizado. Daí vem a diferença salarial, num mercado onde poucos ganham muito e muitos ganham pouco.

                                        

criação: lisandro staut