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Católicos
versus evangélicos:
Ao vencedor, as ovelhas
Daniel Liidtke
A Bíblia, livro sagrado para os cristãos, traz em suas páginas a conhecida parábola do bom pastor. De acordo com ela, o pastor é capaz de deixar 99 ovelhas no curral e dar tudo de si para resgatar apenas uma que se perdeu. Agora, imagine se são cerca de um milhão de ovelhas que se extraviam ao ano.
Com razão, o pastoril da Igreja Católica está preocupado. Perdendo tantos fiéis para os pastos dos evangélicos, os católicos apostam em novas estratégias para recuperar os desgarrados. Dando uma olhada discreta nas táticas de seus adversários, iniciam um processo de reformulação de armas. E, pelo que consta, investem pesado nisso.
Durante toda a história do Brasil - e também de grande parte do mundo -, a Igreja Católica obteve a "hegemonia da fé". Todavia, isso gerou certa acomodação aos católicos, que acabaram dormindo ao fato de outros pastores estarem disputando terreno, e ainda com uma arma bem mais poderosa que seus ultrapassados cajados: a mídia.
De acordo com muitos, os católicos desenvolveram os primeiros meios de comunicação. Antonio Miguel Kater Filho, marqueteiro de instituições católicas, por exemplo, disse à revista
Veja (9/6/99) que "o primeiro veículo de comunicação de massa da História foi o sino", uma vez que "três badaladas rápidas significavam que o padre estava chamando para a missa, badaladas lentas avisavam as mortes". Na mesma entrevista, Kater Filho afirmou que os primeiros outdoors foram as torres das igrejas e as primeiras pesquisas de marketing as confissões aos padres.
É valido ainda salientar que a própria origem da palavra propaganda é católica. Do latim
propagare, trata-se de um termo usado pelo papa Clemente VII, em 1597, ao fundar a Congregação da Propaganda. Esta instituição procurava expandir a fé católica pelo mundo - ou
enterrar suas idéias na mente do povo, como quer dizer a palavra no original.
Avantajado rebanho evangélico
Entretanto, mesmo dispondo de alguns pioneirismos na comunicação de massa, a Igreja Católica estagnou-se nos processos evolutivos da mídia, relacionando-se anacronicamente com os mesmos. Enquanto isso, do outro lado da colina, pastores evangélicos valeram-se desse desenvolvimento, acompanhando-o, tornando seu rebanho cada vez maior. É então que começa a disputa.
As pesquisas são claras na contagem dos fiéis. Em 20 de dezembro de 1998,
O Estado de S. Paulo já manchetava: "Menos católicos e mais evangélicos". A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) encomendou à PUC-RJ um estudo que mostrasse o crescente abismo numérico entre os dois rebanhos. Em 1970, os católicos representavam quase 92% da população, enquanto que os evangélicos pentecostais praticamente nem existiam, sendo ainda calculados entre os protestantes tradicionais.
Em 2000, no entanto, os evangélicos já representavam quase 11% do total, enquanto os católicos abrangiam cerca de 74%. Se continuar assim, em 2010 as porcentagens aproximadas serão: católicos 59% e evangélicos 18% - isso além de 8% das igrejas protestantes.
Embora o catolicismo esteja bem à frente das igrejas evangélicas, a situação incomoda quem já teve o poder absoluto nas mãos. Mesmo que alguns, como Dom Aloísio Lorscheider, encontrem uma resposta fácil ao problema, dizendo que "a Igreja não está perdendo fiéis, mas infiéis", o caso é preocupante.
Nas últimas três décadas, o movimento evangélico triplicou, tomando forças no País. Recebeu auxílio para isso dos meios de comunicação. O maior investimento desta ala foi a compra da TV Record pela Igreja Universal do Reino de Deus, em 1990. Com esta, são quatro emissoras evangélicas no País, contra três católicas.
Além de crescer na área televisiva, os evangélicos se anabolizaram na produção de revistas, como a
Eclésia, por exemplo, e jornais, como a Folha Universal. Também já são 30 gravadoras evangélicas contra ínfimas quatro católicas. Isso, fora o mercado de livros que, em 2002, apresentou faturamento anual relativamente igual: 87 milhões das editoras evangélicas e 91 milhões das católicas.
A Igreja Católica permaneceu envolvida com o rádio por décadas. Enquanto isso, igrejas novas que nasciam se apoderavam da pluralidade disponível de meios de comunicação mais modernos e de maior impacto, alcançando as pessoas com mais eficiência. Contudo, até no rádio os evangélicos ultrapassaram os católicos: 470 emissoras contra 200 - sem falar da melhor qualidade de produção e programação.
Ataque ao pasto do vizinho
Assim, com a mídia empunhada, os evangélicos começaram uma grande investida em busca dos pastos mais verdejantes - há quem diga que este verde é nada mais que representação de abundantes cédulas de dinheiro; mas este é outro assunto. Essa luta, em determinados momentos, feriu a ética e envergonhou o País, que diz defender a liberdade de fé. Embora não seja ilícito alguma denominação religiosa possuir um meio de comunicação, muitos pecam ao ofender e difamar os pastos do rebanho vizinho.
Cabe aqui lembrar da minissérie Decadência (Globo, setembro/95). Foi claro o ataque. A transmissão mostrava a trajetória de um pastor evangélico charlatão que utilizava os fiéis para conseguir dinheiro. Tratou-se de um ataque bem direto à Universal.
E com razão se falou em briga de emissoras. Em 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, um dos bispos da Universal, Sergio von Helder, dá um chute na santa católica. Detalhe: ao vivo, na Rede Record.
A Folha Universal, por sua vez, periódico da Universal, acusou a Globo de ter alardeado o caso "chute na santa" e ter provocado assim a guerra. Não querendo se pronunciar oficialmente sobre o ocorrido, Maria Alba Vargas, porta-voz da CNBB, declarou: "Este assunto toma proporções descabidas. Todos sabemos que, antes de tudo, se trata de uma briga de emissoras. Por isso não vamos mais aceitar provocações."
O Brasil passou, então, a viver uma espécie de Guerra Fria, em que, felizmente, as disputas permaneceram no campo ideológico - diferentemente de países como na Irlanda e Irlanda do Norte, onde as mortes são comuns nas guerras entre católicos e protestantes. Neste período, a Igreja Católica pareceu ter deixado a defensiva e partido para o ataque. Mostraram que estão dispostos a ficar com os campos mais verdes.
Em 1997, por ocasião da 35ª Assembléia Geral da CNBB, decidiu-se uma estratégia para "virar o jogo". Sob o tema "Igreja e Comunidade Rumo ao Novo Milênio", os católicos estudaram maneiras de reverter o domínio dos evangélicos na televisão brasileira. Eles tinham consciência de que eram bastante desenvolvidos no rádio - com cerca de 181 emissoras na época, sendo 27 só em São Paulo. Entretanto, só no rádio. Pretendem então atuar com maior destaque em outras mídias já utilizadas maciçamente pelos evangélicos.
Acordada de um sono profundo, a Igreja Católica parece perceber que se não usar as mesmas armas dos evangélicos perderá mais ovelhas. Afirmou Gabriel Chalita, ex-seminarista e secretário de Educação de São Paulo: "Ou a Igreja investe em comunicação de massa, ou não conseguirá conquistar mais gente".
Dom Fernando Antônio Figueiredo, por sua vez, declarou: "Não podemos desconhecer meios de comunicação como a TV e a imprensa escrita para divulgar a mensagem de Deus". O bispo argumenta que os meio de comunicação fazem parte de uma das estratégias escolhidas pela Igreja Católica para "aumentar seu rebanho".
Táticas para virar o jogo
Desde 1998 existe oficialmente o Instituto Brasileiro de Marketing Católico (IBMC). Sem fins lucrativos, o IBMC tem o objetivo de difundir e incentivar o uso de técnicas modernas de marketing e comunicação nas instituições católicas. Publica, por exemplo, a revista
Marketing Católico.
A Igreja Católica também está trabalhando para modernizar as programações de suas emissoras de TV: Rede Vida, TV Canção Nova e TV Século XXI - salientando-se esta última, que possui o terceiro melhor centro de produção do Brasil, perdendo apenas para Globo e SBT. Além disso, está em andamento a TV Aparecida, que entrará no ar em 2004.
O clímax dessa santa concorrência de rebanhos ocorreu há pouco tempo, com o lançamento da película
Maria, Mãe do Filho de Deus. Com o custo de cerca de sete milhões de reais, este filme pode ser considerado como o divisor de águas na luta entre católicos e evangélicos.
Maria destaca-se pelo teor estritamente católico, pois, como o próprio nome diz, exalta a Virgem Maria, uma crença defendida apenas pela Igreja Católica
(leia
resenha).
Mesmo com atores brasileiros de renome, como Giovanna Antonelli (Maria), o maior astro do filme é o padre Marcelo Rossi (em dois papéis: anjo Gabriel e ele mesmo). Este quase dispensa apresentações. O fenômeno é ligado à renovação carismática da Igreja Católica, que usou a mídia para propagar o "vira de Jesus". Com sete milhões de CDs vendidos, quatro atrações na TV, três programas de rádio e constantes aparições nos mais diversos meios de comunicação, Rossi é um revolucionário nas colinas católicas.
Ferramentas vistas antes como diabólicas pela Igreja Católica, como, por exemplo, o cinema, hoje são cada vez mais utilizadas. Tudo para recuperar suas ovelhas e conseguir outras tantas. E esta é uma preocupação de ambos os lados. Talvez alguns pastores ao dormir cheguem a ponto de, literalmente, contar carneirinhos.
Embora o motivo dessa disputa ovina seja questionável em muitos casos, prefere-se acreditar que se trata realmente da salvação da alma, como pregam. No caso de um acordo de paz entre os dois rebanhos, só o futuro dirá. Enquanto ele não chega, só resta parafrasear o célebre Quincas Borba, personagem de Machado de Assis: Ao vencedor, as ovelhas.
criação: lisandro staut |
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