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A mídia discrimina os evangélicos? *

Allan Novaes


Quem se propõe a analisar as relações entre a mídia e os evangélicos há de concordar: as duas parecem água e óleo. Neste conflito, no qual nem sempre se define bem o mocinho e o bandido, uma pergunta permanece sem resposta: a mídia discrimina os crentes?

A minissérie Decadência (Globo, 1995), por exemplo, pode ser considerada um marco nas relações entre os meios de comunicação e os crentes. Na telinha, o ator Edson Celulari interpretava um líder evangélico corrupto e ambicioso - uma clara referência à Igreja Universal do Reino de Deus. Curiosamente, a Igreja Universal é a mantenedora da Rede Record, que embora não ameaçasse a hegemonia da Rede Globo, sempre abocanhava, um pouco aqui e ali, algumas fatias da audiência e do mercado publicitário. 

O "troco evangélico" não demorou. Em 12 de outubro do mesmo ano, Sérgio Von Helder, bispo da Igreja Universal, apareceu em cadeia nacional chutando a imagem de Nossa Senhora de Aparecida, justamente no dia em que essa santa católica era cultuada. Daí por diante, intensificou-se uma disputa de baixo nível entre as duas emissoras.

E quem pensa que a mídia impressa corre por fora na briga com os evangélicos, está muito equivocado. Um exemplo disso é a reportagem da revista Veja (9/4/97): "Rambo, o torturador - evangélico, pai de família, elogios na ficha policial, salário de 550 reais". Acusado de ser participante dos assassinatos na Favela Naval, em Diadema, SP, Otávio Lourenço Gambra viu seu crime e o credo religioso serem associados diretamente de uma hora para outra. E na capa da revista de maior circulação do País!

O mesmo pode se dizer da reportagem "Caloteiros da fé", publicada pela revista Época (20/5/02). A matéria, revelando supostos desmandos administrativos e financeiros praticados pelas organizações ligadas à Igreja Renascer, caiu como uma bomba sobre a opinião pública.

Por incrível que pareça, até aquilo que não é publicado ou veiculado acaba por revelar que a pendenga entre a mídia secular e os crentes não irá acabar tão cedo. É o caso de eventos como a Marcha para Jesus, que costuma levar mais de um milhão de pessoas às ruas de São Paulo, ou as reuniões do Ministério Diante do Trono, que já lotou estádios como o Mineirão e o Maracanã. A tímida cobertura dada a esses eventos, ou mesmo a clara omissão noticiosa, causa estranheza e desconfiança aos evangélicos. Seriam as notícias relacionadas aos crentes de menor valor noticioso?

O porquê da contenda

O ponto de partida para encontrar explicações para um comportamento discriminatório da mídia não poderia deixar de ser a notável influência católica na sociedade e na imprensa brasileira. Essa é uma das razões que levam os jornalistas a utilizarem a terminologia católica como padrão nas coberturas religiosas.

A imprensa secular, por exemplo, teima em trocar as bolas quando diz que um evangélico foi à "missa" ou foi "rezar", em vez de ir ao "culto" e foi "orar". Muitos jornais insistem em grafar o termo "bispo" entre aspas, ou em itálico, quando se refere a líderes evangélicos. Essa seria uma maneira das normas de redação do veículo sugerirem ao leitor que apenas os bispos católicos gozam de legitimidade social. Assim, a influência dos católicos agride muitos crentes, que vêem na cobertura jornalística secular a assimilação natural do catolicismo e a rejeição do protestantismo.

No entanto, os dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados no início de maio do ano passado, são exemplos de como a imprensa deve se adaptar à nova realidade do cenário sócio-religioso do País. Se em 1991 os crentes representavam 9% da população brasileira, atualmente eles correspondem a quase 16%. Em números, o crescimento é mais notável: os evangélicos saltaram de 16 para 26 milhões. O Brasil não é mais a mesma nação católica de décadas atrás.

Dessa forma, o viés católico da imprensa brasileira pode ser explicado, em grande parte, pela demora da mesma em acompanhar as mudanças da sociedade. Ironicamente, a assimilação das transformações sociais pelos jornalistas é uma das exigências básicas para a prática eficiente e ética da profissão. 

Misticismo e espiritualismo

Outra justificativa para o "olhar torto" da mídia sobre os crentes tem como base as análises de jornalistas e críticos de TV sobre a onda de misticismo que invadira as telenovelas da Globo na última década. Eugênio Bucci, na matéria "Espíritos tomaram o poder na Globo", para O Estado de S.Paulo (28/5/94), é um desses. Ele analisa a adesão da mídia à temática espiritualista.

O jornalista Elizeu Lira vai mais longe do que Bucci em seu livro Uma Nova Ordem Mundial - O Governo da Nova Era, indicado para o prêmio Jabuti em 2000. Lira acredita que o misticismo e o espiritualismo, símbolos da chamada Nova Era, dominam a televisão nacional. Ele defende a idéia de que após a pressão de entidades que desaprovavam a freqüência com que cenas de violência e sexo eram exibidas nas telenovelas, a Globo, no início da década de 90, começou a privilegiar a visão espírita e mística em seus enredos.

As estatísticas abalizam a tese de Lira. Se na década de 90, o espiritualismo invadiu a Globo, na década seguinte a coisa degringolou. De 2000 até 2003, seis das dezoito novelas da Globo abordaram temas como o hinduísmo, panteísmo, estilo hippie, reencarnação, candomblé, angeologia, entre outros.

Segundo Lira, isso seria uma das mais fortes razões para explicar a criação de rótulos e a marginalização dos evangélicos pela mídia brasileira. Ele afirma que "os indivíduos ligados ao espiritismo e à Nova Era são mostrados pela TV como 'gente fina' - pessoas capazes, cultas e iluminadas -, ao passo que os evangélicos são, via de regra, retratados como lunáticos e ignorantes".

Nem tudo é culpa da mídia

É preciso reconhecer, obviamente, que nem tudo é culpa da mídia. Na verdade, a imagem negativa dos crentes é formada, em grande parte, pelas falcatruas e escândalos financeiros das denominações e de seus pastores. De fato, os meios de comunicação reproduzem a aversão de intelectuais, e mesmo de cidadãos comuns, pela teologia da prosperidade, isto é, a expressão religiosa da fantasia popular de ganhar na loteria.

André Corten, cientista político e membro do grupo de Pesquisa sobre o Imaginário Político na América Latina (Gripal), no artigo "Ópio do povo ou cultura popular", no Correio Braziliense (30/12/01), define a teologia da prosperidade como uma face religiosa da globalização neoliberal. Assim fica fácil saber o porquê da mídia manter muitas vezes uma disposição combativa e o porquê de rotular os fiéis como massa de manobra nas mãos de pastores astutos e gananciosos: o neoliberalismo, para muitos, é sinônimo de exploração. A teologia da prosperidade é encarada como o símbolo da submissão da religião ao capitalismo selvagem.

Além disso, não se pode deixar de admitir que os evangélicos sofrem devido ao seu próprio crescimento. Mais do que visibilidade social, a classe evangélica representa uma nova força política e econômica - com incursões muito bem-sucedidas nos meios de comunicação. Os crentes fazem parte do segmento que mais se destaca e cresce na mídia nos últimos anos.

Carlos Costa, professor de pós-graduação na Faculdade Cásper Líbero, SP, em sua disciplina "Crítica da mídia", afirma que nos últimos 20 anos havia cerca de 50 grandes grupos de comunicação em todo o mundo. No começo deste ano eram apenas dez, e estima-se que logo esse número se reduzirá a seis. Esse fenômeno da mídia também acontece no Brasil e o crescimento da mídia evangélica pode provocar reações desses grandes grupos.

O que está em jogo, portanto, também é dinheiro e poder, duas das mais antigas fontes de guerra de todos os tipos. Enquanto isso ocorrer, a mídia secular não terá "bons pensamentos" a respeito dos evangélicos.

* Texto baseado na reportagem "Fora de foco" (Eclésia, julho/03), de Allan Novaes e Carlos Fernandes

                                        

criação: lisandro staut