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Ecumenismo
da sensação,
economia da razão
Wendel Lima
Sem dúvida, o pensamento pós-moderno trouxe profundas transformações sociais. As relações de trabalho, o conceito e o papel do Estado, os valores éticos, a estrutura familiar, bem como todos os setores da sociedade sofrem mutações ou, no mínimo, questionamentos. No campo religioso não é diferente. As peculiaridades que distinguiram os católicos dos protestantes ao longo dos séculos vêm sendo ofuscadas pelas semelhanças entre os mesmos, ressaltadas pelo movimento ecumênico.
Nas últimas décadas, o diálogo ecumênico intensificou. Aliás, ambos os lados mostram interesse. Do lado de Roma, o então papa João XXIII deu um grande passo nos anos 60, com o Concílio Vaticano II. A
Igreja-mãe assumiu uma postura mais simpática e reconciliadora com suas "filhas rebeldes". O Vaticano, embora reconhecendo as grandes dificuldades, pretende diluir os mal-entendidos doutrinários e agregar todos os cristãos sob a fé católica.
O protestantismo contemporâneo, por sua vez, não é o mesmo do medieval. Estudos sociológicos mostram que os movimentos religiosos tendem a perder a sua identidade ao longo do tempo. Após a terceira geração de fiéis, a cultura secular infiltra-se no grupo, descaracterizando-o. Outro fenômeno favorável ao ecumenismo protestante é o crescimento da ala liberal dentro das denominações ditas tradicionais. Este grupo se identifica mais com os liberais das outras igrejas do que com os conservadores do seu movimento de origem.
O protestantismo do século XX viu-se, também, ameaçado com a concorrência do suposto reavivamento pentecostal. O
boom do pentecostalismo, e, sobretudo, do neopentecostalismo, reconfigurou o cenário cristão não-católico com milhares de igrejas. Na busca por expressividade e viabilidade do movimento ecumênico, foi criado em 1948, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), cuja representatividade se dá em mais de cem países, com suas 342 igrejas. O objetivo do CMI não é promover a união das denominações cristãs no que tange à doutrina, mas à missão, ao papel social.
Ecumenismo na mídia
É fato que o ecumenismo rompe as barreiras dos templos e dos concílios e ganha voz na mídia de massa. Os meios de comunicação, em especial a TV, são ferramentas poderosas no discurso religioso. Mas a pergunta que fica é até que ponto prevalecerá o ecumenismo? Ele se dará somente nas ações sociais ou abarcará os dogmas e as igrejas como instituições?
É difícil analisar o passado recente, compreender o presente e antever o futuro, sem considerar como pano de fundo a filosofia pós-moderna. Diga-se de passagem, que o ecumenismo se vale desta filosofia como palco. Portanto, quanto ao uso da mídia, as igrejas seguirão um rumo mais ou menos previsível.
Ao que tudo indica, o ecumenismo caminha mais para o lado da ação social do que para o dogmático ou institucional. A tônica é de união nos propósitos, mas divisão na fé. As decisões não apontam para uma fusão de todas as denominações cristãs numa única instituição ecumênica, com personalidade jurídica. Porém, apontam para entidades autônomas, distintas, que estão unidas sob seus pontos comuns, sob uma bandeira.
Portanto, a possibilidade de surgir uma mídia ecumênica é improvável. Até porque o contexto atual apresenta dois grupos de cristãos bem-definidos e rivais, os católicos e os neopentecostais. São eles que possuem expressividade hoje. Integrar o patrimônio certamente não está nos planos deles.
O mesmo fator que os separa, une: a conquista de novos fiéis. Separa como instituição; une no discurso. Do lado evangélico, vê-se o alavancamento da mídia neopentecostal, em especial da Igreja Universal do Reino de Deus, a Apostólica Renascer em Cristo e a Internacional da Graça. O investimento delas na mídia é justificado por um crescimento mundial. Nos anos 70, apenas 5,8% dos cristãos no mundo declaravam-se pentecostais. Em 2000, os números saltaram para 26,2%.
Os católicos carismáticos, porém, não deixaram por menos. Por volta de 1967 o movimento carismático já dava as caras. Mas foi em 1993, com um discurso de reavivamento espiritual, sem heresias ou dissidências, que o Vaticano reconheceu o Serviço Carismático Católico Internacional (SCCI). Na América do Norte, cerca de dez milhões de católicos (14%) professam pertencer ao movimento carismático. O grupo é ainda mais significativo na América Latina, com 73 milhões (16%) de carismáticos.
Ambos se identificam num discurso voltado para o social. Seja na ala mais tradicional católica, com o belo trabalho assistencial das pastorais, ou com a mais liberal, caracterizada pelas "showmissas" do padre Marcelo Rossi e companhia. Os neopentecostais não ficam atrás. Basta lembrar do Projeto Canaã do bispo Crivella ou da campanha antidrogas da Renascer em Cristo.
Espetáculo e sensação
Outro fator de união, este mais forte, é o discurso sensacionalista. Ambos os grupos são caracterizados pelo espetacular, pelo sobrenatural. Seguem a linha pós-moderna do descrédito na razão em detrimento à idolatria da sensação. As missas e cultos, geralmente transmitidas ao vivo, são marcados pela glossolalia, pelas curas e exorcismo.
Nos encontros, o ensino dos dogmas e a reflexão dão espaço para as danças, a euforia e transes místicos. O foco está na experiência e não no conhecimento da divindade. A transcendência abre alas para a imanência. Puro pós-modernismo.
Criou-se uma sociedade religiosa do espetáculo. Onde os sacerdotes assumem o papel de atores que proporcionam entretenimento às massas. A tendência secular confirma-se no religioso. Os dogmas não são enfatizados, pois são absolutos. Os valores absolutos são impopulares numa sociedade permeada pelo relativismo moral. Portanto, somente o passar pela experiência é absoluto, mas a sua forma é relativa. O que vincula os fiéis não é a aceitação de um credo, uma ideologia, mas a experiência sobrenatural em comum.
Parece que o velho estereótipo de manipulação atribuído à religião medieval se consolidará na atual sociedade. Se a dos idos tempos não permitia a reflexão, o questionamento, a de hoje não o estimula, o banaliza. Talvez, mais alienado do que aquele que não tem acesso à informação é o que tem, mas não reflete sobre ela. Vive-se um ecumenismo da sensação e uma economia da razão.
criação: lisandro staut |
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