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Fé
de cachorro grande
Victor Drummond
Os veículos de comunicação foram os escolhidos. Tornaram-se ringues para o acirrado duelo entre católicos e evangélicos. Eles são artistas, políticos, esportistas, enfim, que lutam pela atenção do público de todas as maneiras. E usam seus princípios religiosos e suas ideologias como um artifício para conquistar o maior número possível de adeptos.
Algumas das manifestações dessa "santa" disputa ocorrem nos canais oficiais de algumas denominações religiosas. Na Rede Vida, da Igreja Católica, a renovação carismática ganha cada vez mais força, transformando padres em estrelas e valendo-se de cantores e artistas para agradar os fiéis.
Os evangélicos não saem perdendo. Programas como de alguns bispos e bispas são verdadeiros espetáculos. E nada de gatos pingados na platéia. Eles querem é multidões. As ideologias mais transmitidas são as da "prosperidade" e a do "livramento" - talvez esse não seja o termo adequado, mas trata-se daquela idéia de se livrar do desemprego, da dívida, do casamento fracassado e da doença por meio de uma oferta voluntariosa ou do famoso copo com água em cima da TV.
Os artistas têm visto na religião uma forma de autopromoção. Como, para muitos, o talento ou as oportunidades - para não ser tão cruel - andam escassos, o jeito é se filiar a alguma igreja.
Mara Maravilha é um ícone deste tipo de comportamento. Monique Evans, apresentadora da Rede TV!, também. Na verdade, talvez nem se saiba mais o que ela é. Talvez ela pertença à "Religião da Fé do Corpo Glorioso". Com um programa erótico daquele, só pode ser.
Mara, por sua vez, dá mostras de que se converteu realmente. Deixou de lado seu programa infantil com baixa audiência e gravou um CD com música gospel. Passou a palestrar nas igrejas contando suas experiências e cobrando um cachê "básico" de alguns milhares de reais. É fácil ser crente assim, não?
Política divina
Segundo a revista Veja (3/7/02), "a cada eleição aumenta a representação política dos evangélicos. A 'bancada dos crentes' no Congresso Nacional cresceu quase na mesma proporção da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT)". Vemos que a política brasileira atual está cercada de fervorosos. Alguns partidos tomam a cara de mosteiros, conventos, seminários, ou o que for, para abrigar políticos que usam a religião como base para seus discursos.
O atual secretário de Segurança do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, e sua esposa Rosinha, governadora do Estado, sempre fizeram questão de "pregar a palavra" em seus comícios desde que se converteram. São divulgadas muitas críticas a respeito dos dois, condenando-os por terem utilizado a religião como uma maneira de conseguirem votos. Garotinho marcava presença nos cultos de diversas denominações e era proprietário de uma rede de rádios evangélicas.
Na programação, é claro, não poderiam faltar as "pregações discursadas" (ou "discursos pregados?") do político. Em outra edição, a
Veja (27/8/03) publicou o seguinte sobre Garotinho: "Numa reunião recente com evangélicos, Anthony Garotinho, ex-governador do Rio, comunicou sua disposição de filiar-se ao PMDB e ouviu um dos presentes, o pastor José Wellington da Costa, fazer uma comparação". Disse que Garotinho parecia o profeta Daniel, aquele que, em nome da crença em seu Deus, foi atirado numa cova de leões famintos e sobreviveu sem um único arranhão.
Conforme essa interpretação bíblica, Garotinho, convertido à religião evangélica há nove anos, acaba de trocar o PSB pela cova dos leões famintos do PMDB. Ninguém sabe se vai sobreviver, mas sua filiação é uma tentativa de salvar a administração de sua mulher, Rosinha Garotinho, governadora do Rio de Janeiro. Garotinho quer aproximar-se do governo federal para obter verbas que ajudem a esposa a escapar do "naufrágio no Rio". A religião, neste caso, serviu como um "instrumento de fé" para que o ex-governador tivesse coragem de arriscar.
Atletas de Cristo
O que há em comum entre Bebeto, Kaká, Müller e Marcelinho Carioca além de um campo e de uma bola de futebol? Resposta difícil, não? É claro que é o fato de todos serem evangélicos. Eles fazem parte do grupo intitulado "atletas de Cristo".
Certa vez, o Globo Esporte exibiu uma matéria que mostrava Müller fora dos campos. Nas horas vagas, ele é pastor, mas daqueles bem fervorosos, que sabe até falar língua estranha. Imagina só se na decisão de um campeonato, ao invés de gritar "cruza a bola para o atacante", ele dissesse "achilamalacai eshylonoiden!" (não me perguntem o significado. É um neologismo religioso). Seria cômico. Marcelinho Carioca, além de jogador é cantor - mas de "pagode para Cristo" (Querendo concorrer com o Neguinho da Beija-Flor, pode uma coisa dessas?).
Na verdade, não estamos aqui para julgar os motivos pelos quais os artistas, políticos e esportistas valem-se das filosofias religiosas como uma ferramenta de trabalho. E com certeza essa maneira de trabalhar tem repercussão social. De um lado, o catolicismo vem se tornando cada vez mais carismático para tentar segurar os fiéis. De outro, a multiplicação dos evangélicos, cujo número aumentou 15% no ano de 2000 sobre o total da população.
O que se percebe no fundo, é que todas essas pessoas, independente da categoria a que pertençam, têm sentido uma necessidade de se afiliar a uma religião. Talvez para preencher algum tipo de vazio, ou para transmitir a imagem de indivíduo responsável e comprometido com certos princípios de moral. Bem, paremos por aqui. Pois como dizem as Escrituras, "não julgueis para que não sejais julgados".
criação: lisandro staut |
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