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Dízimo
em forma de indulgência
Fernando Torres
A imprensa sempre se portou mal no quesito religião. Contudo, o problema da óbvia parcialidade beira o superficial quando se analisam os reais motivos e pressupostos da subserviência jornalística às instituições religiosas, não necessariamente a católica. Este pecado, capital, finca raiz na incessante busca dos barões da imprensa pelo poder capitalista, paradoxalmente patrocinado pela religião.
Que a mídia secular divulgue e aja de acordo com ideais religiosos em virtude da sincera crença de seu mantenedor, compreensível e - por que não? - aceitável; que este o faça apenas para consolidar os laços amigáveis com o clero, inadmissível. Há tirania, opressão, despotismo em tal atitude.
É interessante observar que grande parte dos afagos às denominações religiosas não se dá à vista de todos - na verdade, o público nem fica sabendo. Ocorre no âmago das redações, por meio de acordos, concessões, matérias pagas, omissões e até demissões injustificadas daqueles que não concordam com a ideologia do patrão. Pura política.
Apesar de quase centenários, dois notáveis episódios de proselitismo religioso protagonizados por Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados, atendem por inadmissíveis. Ambos sacramentaram a submissão de seu império ao clero. Correspondem, porém, à realidade subserviente das redações de jornal, rádio e TV da atualidade.
Um dos casos remete à compra do primeiro veículo de Chatô. Ao adquirir do jornalista baiano Renato Toledo Lopes a folha carioca
O Jornal, em 1924, Chatô já almejava criar uma cadeia de jornais por todo o Brasil. Para tal feito, relações com o poder vigente deveriam ser urgentemente fidelizadas. No caso do Executivo, então na pessoa do ditador Artur Bernardes, isso era impossível. Cabia ao jornalista amalgamar-se ao coração da Igreja Católica.
Depressa, Chatô bateu à porta de dom Sebastião Leme, arcebispo coadjutor do Rio de Janeiro. Este, antevendo a influência de
O Jornal, requeriu a criação de uma coluna católica. Aquele, ciente da autoridade da Igreja, não só atendeu ao pedido, criando a célebre "Coluna do Centro", como varreu todo o conteúdo calvinista e luterano do jornal, inclusive uma coluna protestante publicada diariamente há muitos anos.
O segundo, mas não menos notável, episódio de servilismo deu-se em meados dos anos 30. Desta vez, Chatô viu sua beatificação desmoronar diante de crônica do jornalista Rubem Braga no
Diário da Noite, folha também do Rio de Janeiro e pertencente aos Diários Associados. Tratava-se de uma referência à Igreja espanhola e sua posição a favor do voto feminino. Coisa de somenos.
Alceu Amoroso Lima, conhecido como Tristão de Ataíde, intelectual católico da direita cristã e responsável pela "Coluna do Centro", ameaçou retirar o espaço de
O Jornal - e, conseqüentemente, sua benção -, a menos que Rubem Braga fosse despedido. Tal chantagem não chegou às vias de fato, pois o cronista,
prevendo para qual lado a corda iria arrebentar, demitiu-se antecipadamente. Ademais, que é um suposto e razoável blefe diante das contundentes intimidações da Igreja-mãe?
Censura eclesiástica
Nestes e em outros episódios, a instituição religiosa comporta-se como lhe cabe: doadora de graças. Afinal, pertencia à religião a aura mágica e transcendental hoje nas mãos dos
mass media. Suas razões, exceções descontadas, também são das mais nobres: a divulgação da mensagem de salvação.
A imprensa, por sua vez, não se comporta de forma vexatória gratuitamente. As atitudes de proselitismo ocorrem por causa da necessidade de negociar com o poder milenar. Compra-se a indulgência em troca da benção, da autorização de instituir novo paraíso.
Explicável, mas não justificável. A dobradinha entre mídia e religião aproxima-se da censura. A imprensa exerce o poder, é verdade, mas um poder de coalizão - com, pelo menos, 10% de participação da fé. Ao receber apoio da instituição religiosa, os meios de comunicação tornam-se reféns: são obrigados a agir, em determinadas situações, conforme a ideologia desta ou daquela denominação. Ora,
doutrinas e princípios religiosos não podem ser divulgados sob à
lógica do mercado.
Dentro de um contexto democrático, essa permuta é absurda. O proselitismo religioso por parte da mídia secular fortifica o domínio dos fortes sobre os fracos. Os lisonjeios são feitos apenas para as denominações religiosas predominantes; às nanicas, cabe à menção de exótico, quando não o mero desprezo.
Isso não ocorre de hoje. Em 1487, pouco depois da invenção da imprensa de Gutenberg, o papa Inocêncio VIII exigia censura prévia dos livros. Em seu primeiro documento sobre comunicação, a Igreja alegava que o prelo divulgaria idéias contrárias à fé e aos bons costumes. Nada que um bom acordo não pudesse resolver. O Brasil,
sempre ele, criou a imprensa já sob a tutela do clero. Não é à toa que os primeiros redatores eram padres e freis.
[Em tempo. Ressalte-se que a Igreja Católica não é e nunca foi a única a abusar de seu poder. O crescimento dos grupos evangélicos no Brasil impulsionou peculiar proselitismo por parte da mídia secular.]
É verdade que hoje o posicionamento dos veículos seculares tornou-se mais sutil. Rezas, vigílias, missas, terços e exorcismos surtiram efeitos democráticos (leia-se ecumênicos). Curiosamente, vive-se uma época em que nenhuma ramificação religiosa cobra indulgências de seu rebanho. Não comemore. Por sorte, das igrejas, os dízimos continuam em voga.
* Os episódios protagonizados por Assis
Chateaubriand se embasaram no livro Chatô, o Rei do Brasil, de
Fernando Morais
criação: lisandro staut |
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