|
|
|
editorial
| ombudsman | debate
| imprensa
mídia |
cultura | perfil |
nostalgia
| opinião
em
tempo | olho
vivo | leitor
| e-mail | expediente
anteriores
| próximas
edições | inicial
Babilônia
capitalista
Marcelo Viana
Já é sabido de todos que a mídia está longe de ser imparcial. Ao contrário, muitas vezes ela defende a idéia de seus mantenedores. Com a religião não poderia ser diferente. Temos presenciado cada vez com mais intensidade a pregação religiosa sob caráter ideológico, no intuito de "vender" os conceitos religiosos da classe dominante.
Sob essa ótica, a mídia secular não tem desempenhado seu papel, que é ser um meio pelo qual a população pode debater assuntos que interessam a sociedade como um todo. O que se presencia é uma capitalização da religião.
Historicamente podemos marcar o fim do uso da religião como meio legitimador de poder durante a época das reformas protestantes e renascentistas. Para Marx esta mudança de cenário foi positiva; a desmistificação fazia parte do processo de adoção do capitalismo. Assim, para substituir a Igreja surgem os meios de comunicação.
Uma vez separados, Estado e Igreja, a religião teria liberdade para se desenvolver de forma livre. Porém, a mídia não esqueceu o poder que a religião exerce sobre as pessoas. Com grande freqüência ela ainda se utiliza desta influência para vender idéias e produtos. A mídia tem transformado a religião no "ópio do povo". A liberdade religiosa é sutilmente destruída pela falta de pluralismo nas emissoras.
Em 1995, uma situação envolvendo duas igrejas foi destaque na mídia: um bispo evangélico chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida ao vivo na Rede Record de Televisão, mantida pela Igreja Universal do Reino de Deus. A Rede Globo, por sua vez, criticou severamente a atitude do bispo, por ser claramente a favor da Igreja Católica.
Não houve uma visão imparcial dos fatos. Cada emissora puxou o lado que lhe interessava. A sociedade, mais uma vez, debatia temas de pouca importância no contexto geral. Ninguém perguntou sobre a relevância deste assunto para muçulmanos, hinduístas, anglicanos, judeus, etc. Inclusive, quando se trata de falar de outras religiões, consideradas minorias, a mídia é extremamente tendenciosa e excludente.
Diversidade desrespeitada
A sociedade é composta de vários grupos étnicos e religiosos. Os grandes meios de comunicação deveriam respeitar esta diversidade, dando espaço para que todos participem. No Brasil, presenciamos a Globo vendendo o pacote: Igreja Católica amalgamada com misticismo e espiritismo e a Rede Record vendendo o pacote do: tudo isso é "coisa do diabo".
Outras emissoras também exibem o mesmo conteúdo tendencioso no que diz respeito à religião. O SBT, por exemplo, tem a política do "Maria vai com as outras": mostra aquilo que é destaque nas outras emissoras enquanto estiver garantindo Ibope.
O uso indiscriminado da religião não se restringe a TV. Meios impressos como revistas e jornais também apresentam as tendências de seus mantenedores.
Há desrespeito quando a mídia exalta o padre Marcelo e esquece de diversos pastores, oradores e líderes que têm realizado uma obra tão boa e significativa quanto à dele. Existe falta de visão quando o bispo Marcelo Crivela é colocado como único que realmente se importa com os pobres em detrimento de outros tantos que a mídia se esquece e que dão a vida em favor do semelhante. Quem vai mostrar a obra das diversas igrejas que compõem o que chamamos de religião?
A resolução deste problema está longe de sua realização. Enquanto existir esta Babilônia capitalista (leia-se confusão ideológica) e a religião for associada a números de audiências e zeros nas contas bancárias dos donos de conglomerados de comunicação, veremos este desrespeito à religião em si.
Poderia ficar a cargo da TV fechada e de impressos denominacionais a propagação das filosofias e religiões. Há liberdade para isso em mídias segmentadas. Os meios de comunicação abertos deveriam ser uma representação da sociedade como um todo e não apenas de uma parcela, quer seja grande ou não. Eles deviam se empenhar na imparcialidade e pluralidade buscando o bem comum da sociedade.
criação: lisandro staut |
|