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Quem disse que imagem não é tudo?

Daniel Liidtke

Muitos jornalistas a temem. Sociólogos dizem ser ela reflexo da decadência da sociedade. Psicólogos a apontam como a rainha do império narcisista. Teóricos da comunicação argumentam ser ela a responsável pelo óbito do texto. Filósofos juram estar nela a semente do fim da intelectualidade humana. Mas, afinal, quem é esta criatura macabra?

A imagem.

Nas atuais discussões sobre mídia, todos estão falando sobre o domínio da imagem em detrimento do texto. Estas últimas palavras já viraram quase um slogan para as diversas campanhas "no image" pelo mundo acadêmico afora. É até possível que qualquer dia desse você ligue a TV e encontre a tela toda preta. Achando que é um mau contato, tenta mexer no fio; mas em vão. Na verdade, trata-se de um comercial contra a imagem. Ridículo.

Quem pegou uma revista Seleções de 1970, por exemplo, para ler no último feriado - situação, inclusive, bem "comum" - notou a falta que a imagem faz numa revista; até os mais intelectuais são obrigados a concordar. A imagem é uma ponte entre o veículo e o receptor. Ela que chama a atenção para determinada matéria ou artigo. Sem imagem não há motivação para a leitura. Não há refresco para os olhos exaustos depois de tantas letras. Só existe uma coisa capaz de captar tão bem nossos olhares.

A imagem.

Por maior que seja a versatilidade do escritor, as palavras jamais conseguirão expressar o que uma imagem descreve. Dizer que ela vale mais que mil palavras, não é ditado. É realidade.

A imagem é o fato. Palavras são apenas lembranças e reflexões sobre ele. A imagem é o momento registrado para a posteridade. O melhor texto jamais reproduzirá a cena como uma imagem. A imagem constrói alegria, dor no peito, preocupação, solidariedade, espanto, prazer. O texto, por sua vez, constrói uma imagem.

Imagens científicas

Como argumenta Arlindo Machado, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Semiótica da PUC-SP, em entrevista ao Jornal da USP, "as imagens podem ser muito mais precisas, complexas, exatas, densas e por isso mesmo 'científicas' que o discurso verbal".

Outro aspecto é que a mídia despeja muita informação - o que gera o chamado "jornalismo e desinformação", como defende Leão Serva. Na imagem, o leitor tem um quadro geral, sem se aprofundar naquilo que talvez, se parasse realmente para ler, seria apenas mais um dado armazenado no DIIC - Departamento de Informações Inúteis do Cérebro. A imagem, então, permite que o indivíduo, apressado, seja informado no mínimo tempo - o chamado tempo-buzina: a menor unidade cronológica da atualidade, pois compreende o intervalo entre um semáforo abrir e alguém começar a buzinar.

É neste ritmo hilário que vive hoje a sociedade. E a mídia deve dançar conforme a música. Deve dançar com a imagem. E esta, além da rapidez em apresentar os fatos, permite a seleção dos mesmos. É inegável. Isso não ocorreria tão facilmente sem a existência dessa peça fundamental da comunicação.

A imagem.

Na mesma entrevista, citada anteriormente, Machado propõe: "Não há nem mais nem menos 'manipulação' numa foto (e, por extensão, num documentário, numa imagem de telejornal) do que num texto jornalístico, numa pesquisa de sociologia ou num tratado de filosofia. Isso não quer dizer que não exista uma 'verdade', um 'fato' do qual buscamos nos aproximar, seja fotografando, seja verbalizando, mas essa aproximação só pode ser uma construção, necessariamente coletiva, que se dá num amplo processo de negociação entre os sujeitos sociais".

Hoje, tem-se falado excessivamente em "sociedade do espetáculo", "era do simulacro" e outros afins. Alguns, ditos comunicólogos, saem das carteiras das faculdades falando somente nisso. Quem suporta?! A tendência é massacrar a imagem, mostrá-la como a vilã da história, que rouba cada vez mais o espaço do texto. Lero-lero.

A discutida inversão entre 70% de texto e 30% de imagem há algumas décadas para 70% de imagem e 30% de texto reflete tendência enraizada na própria espécime terráquea. Civilizações mais remotas se valiam da imagem para sua comunicação. A escrita foi uma invenção posterior, talvez realizada por algum teórico iconoclasta - já naquela época.

Estarmos voltando à era primitiva, já é outra história. Todavia, essa imagem de "manipuladora" está acabando com a imagem da "imagem". Enquanto isso, o texto, o mocinho loiro da história, ganha vantagem. A imagem é condenada e o texto exaltado. Os que são do bando/partido do texto, talvez acreditem que este nunca contenha manipulação, sensacionalismo ou outra forma errônea de se fazer jornalismo; como acontece com a imagem.

O predomínio das imagens não consiste na perda de cultura ou intelecto. É apenas uma das formas de se expressar isso. A imagem é um conglomerado de atributos que tornam a comunicação mais versátil. A publicidade descobriu isso há muito tempo. A imagem atrai, fixa, tem mais impacto, fala por si mesma, é ágil, tem mais emoção, tem clareza, tem tudo. Mas então, quem foi que disse que imagem não é tudo?

O texto.

                                        

criação: lisandro staut