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Além das mil palavras
Ana Paula Ramos
"Grande como uma casa, com quatro patas semelhantes a quatro colunas, com chifres ao lado do nariz, orelhas grandes como pás de moinho, rabo semelhante ao de uma vaca, porém curto e mais assombroso. O nariz grande e delgado como um tubo, grosso numa extremidade perto da cara e fino e semelhante ao de um porco na outra ponta." É quase impossível imaginar ser um elefante o animal descrito acima.
Esta descrição foi feita na época em que este animal tão conhecido na África era novidade para os europeus e americanos. Ninguém conseguiu chegar tão próximo da realidade como, hoje, uma simples foto faz. Talvez realmente fossem necessárias mil palavras para descrever o mamífero perfeitamente.
Quem não conhece a expressão - uma imagem vale mais que mil palavras? Realmente, ela tem a capacidade assustadora de criar e recriar a realidade. Com o controle dela é possível transpor o tempo e o espaço.
Desta maneira, a TV é vista como formadora de opinião, costumes e valores, muitas vezes passando por cima dos já existentes na família e na sociedade. Talvez não houvesse problema se a imagem fosse usada para reforçar bons valores e transmitir ideologias construtivas em favor da sociedade. Vemos que o jornalismo brasileiro tem usado e abusado deste poder.
Assim como um texto, as figuras apresentadas devem ser analisadas e vistas de forma crítica. Ter uma imagem acompanhada dos fatos e textos jornalísticos era algo há muito tempo pensado pela imprensa. Foi o
New York Daily Graphic, em 4 de março de 1880, que utilizou pela primeira vez uma fotografia. Mas a maioria dos profissionais da área, à época, acreditavam que as palavras poderiam levar toda a informação para seus leitores.
Somente em 1904 vemos um periódico ainda com resistências lançar uma edição totalmente ilustrada, o
Daily Mirror de Londres. Lógico que não estamos levando em consideração revistas de moda, que eram bastante difundidas na época, compostas basicamente de fotos.
Com o passar do tempo, a imagem adquiriu mais espaço. Em 1913, a era da reportagem fotográfica começa. Surgem os repórteres fotográficos, que invadem as redações dos jornais. O sucesso da utilização da imagem nos veículos jornalísticos é indiscutível.
O mundo por meio da imagem pôde ver com outros olhos a guerra, a fome, as maiores realizações e desastres do mundo. O fascínio produzido chama a atenção, prende o público-alvo e desperta interesse. No entanto, este uso também produz outros efeitos. Não é mais tão fácil prender a atenção de alguém, pelo menos depois do bombardeio de imagens usado por todas as mídias.
Distração imagética
Com a banalização do uso da imagem a sensibilidade é diretamente afetada e se torna cada vez mais difícil chamar a atenção do público. A saída é estimular os telespectadores ou leitores por meio da imagem. Para alcançar este objetivo, os veículos apelam para a emoção com cenas fortes, sensuais e chocantes. Novamente a briga de audiência e aumentos de venda.
Veja o que aconteceu esta semana. Um boato acusou o príncipe Charles de ter relações homossexuais. Pronto. Estouro na mídia. Fotos gigantes do príncipe em todos os jornais, reportagens e mais reportagens. As melhores fotos de capa renderam aos impressos um bom faturamento. Mesmo depois de ter desmentido o boato o príncipe Charles continuou sendo alvo das lentes.
Uma pesquisa realizada constatou que o adolescente médio é exposto a cerca de 14 mil referências ligadas ao sexo durante o ano. Em cenas raramente entre cônjuges ou demonstrando abstinência, em sua maioria degradante, subversiva e de exploração. Mas as cenas de violência causam maior efeito nas pessoas. Telejornais têm substituído o fato, as palavras de alerta, a conscientização por imagens chocantes e sangrentas. As imagens têm tamanho poder que dois pesquisadores de mídia, Comstock e Paik, relataram que há uma clara relação de causa e efeito entre a exposição à violência da mídia e as atitudes e o comportamento agressivos.
Deve-se admitir que a imagem é ótima para chamar a atenção. Ela ainda pode ser usada para dizer tudo e mais um pouco, sem substituir o trabalho jornalístico. É um deles. E sendo tão poderosa pode ser usada para produzir reações positivas.
Certamente as pessoas no mundo são muito mais informadas sobre os acontecimentos que envolvem a sociedade e a cultura. A imagem pode ser usada em benefício das pessoas. O mesmo poder que ela tem de despertar o interesse, prender o leitor, fixar um acontecimento e influenciar o comportamento, por meio da violência, apelo sexual e outros aspectos negativos, pode ser usado para a formação de consciência, para educar e realmente informar.
criação: lisandro staut |
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