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Ética moral versus audiência

Neanis Lutzer


Desde que a imprensa começou a tomar lugar no mercado, a preocupação de retratar o real se tornou algo exagerado. Atualmente, isto é posto em prática por meio de figuras e imagens que atraiam o público. Na verdade, o problema nem seria tanto o abuso de figuras postas em periódicos ou canais de televisão, mas a qualidade do que é transmitido ao público - praticamente nula.

Há reclamações até da própria ética jornalística sobre as imagens impactantes que provocam reações nas pessoas. Como por exemplo, fotos de corpos queimados, partes do corpo humano espalhadas, crianças em fase terminal da vida, entre outras.

Tudo o que é posto nas páginas de uma revista, jornal ou nas redes de televisão tem algum motivo para estar lá, seja para retratar a realidade ou alcançar a audiência máxima. Mas o problema é até que ponto estas imagens refletem realidade ou exibicionismo dos meios de comunicação.

Uma cena que dure somente alguns segundos, pode perdurar no subconsciente humano por muito tempo, e às vezes até a vida toda, dependendo do grau de impacto sobre a pessoa. Não existe mais a possibilidade de escolher desligar o monitor no momento em que aparecem certas representações; está tudo contaminado.

Como funciona

Com relação aos desenhos animados, pode-se achar que a violência passada até em Tom & Jerry são inofensivas. Mas infelizmente afeta seu público com o tempo. O subconsciente das crianças é muito maleável, sendo fácil influenciá-las. Aos 6 anos, aproximadamente 90% das crianças já são assíduas da televisão. 

Desenhos "inofensivos" como esse são codificados de maneira que a criança possa entender o que se passa, com efeitos sonoros e visuais criados para captar sua atenção. Além de muito movimento, que é outro fator que atinge não só elas, mas pessoas de qualquer idade. Assim, estas mesmas crianças tendem a ser mais agressivas, como comprovam diversos estudos.

Pode-se notar que a televisão produz um efeito hipnótico na pessoa. Os produtores de propagandas sabem disso, pois não estariam gastando milhões de reais na compra de 30 segundos na tela, o suficiente para deixar a marca de seu produto na mente do público.

Ou seja, se uma propaganda de 30 segundos consegue mobilizar alguém no inconsciente para adquirir um produto, mesmo que seja preciso passar diversas vezes, o que se dirá então de programas feitos especialmente para atrair com suas imagens impactantes?

Alguns exemplos


Também na medicina ocorre muito a exposição de fotos que podem levar as pessoas a se impressionarem. Mas o Código de Ética Médica (Art. 104), é bem claro ao citar que "é antiética a transmissão de cirurgias, em tempo real ou não, em sites dirigidos ao público leigo, com a intenção de promover o sensacionalismo e aumentar a audiência". Aplica-se o mesmo princípio a revistas e jornais.

Os periódicos muitas vezes produzem artigos e fotos para realmente atrair o leitor a um tipo de sensacionalismo fotográfico. As imagens e fotos são grosseiras em diversos momentos.

Isto não ocorre somente em artigos. Há muito nas propagandas e publicidades. Há o caso da Benetton, uma fábrica italiana de roupas, que adotou a estratégia de produção de fotos polêmicas e algumas de muito mau gosto. Fotografias de órgãos sexuais e até de corpos arrasados faziam parte de algumas campanhas.

Com o intuito de provocar reações fortes nas pessoas, estas fotos são apresentadas com impacto. Por exemplo, o que aconteceu há seis anos, uma foto que retratava a morte de um aidético nos braços de sua família. Esta imagem chegou a ser proibida pela Justiça em São Paulo.

Outro caso mais recente foi o Jornal Comunidade, de Viçosa. Este foi condenado pelo Tribunal de Alçada de Minas Gerais por publicar fotos dos corpos da esposa e dos filhos do próprio fotógrafo. Isto, de acordo com o Tribunal, causa "danos morais, favorecendo o escândalo e o sensacionalismo, não condizendo com um órgão de informação".

O debate sobre o uso de imagens polêmicas em qualquer veículo de informação é extenso. Difícil é conscientizar as pessoas de que o objetivo não é chamar a atenção a uma notícia de importância, e sim aumentar as vendas e o Ibope. Infelizmente a informação se confunde com o sensacionalismo. E, infelizmente, o público também se parece com uma máquina de produzir audiência.

                                        

criação: lisandro staut