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Texto
fala melhor e ponto
Fabiana Amaral
A briga pelo pedestal da melhor comunicação travada há anos por imagem e texto está realmente longe de acabar. Não é difícil imaginar o porquê. Teóricos e práticos se juntam nessa hora, sem se opor, para brigarem nessa trincheira da guerra pela supremacia na comunicação visual e textual - ou ambas juntas.
Muitos afirmam - com muita razão, aliás - que a era da imagem chegou para ficar, governar e continuar reinando até chegar algo mais impactante, o que é inimaginável. Isso porque, segundo esses, "a imagem vale mais que mil palavras". Chavão, né? Mas é assim mesmo que argumentam.
Nos idos tempos do jornalismo romântico, eram as palavras que importavam. Ferrenhas, descritivas, destruidoras ou burilantes, elas reinavam nas rodas dos intelectuais da chamada classe pensante. As imagens, quando existiam, eram apenas um adendo, sem muita importância para o que o texto, as palavras, já tinham feito. Uma caricatura ali, um enfeite acolá, e assim iam.
O tempo foi passando e as imagens começaram a chamar mais a atenção. Na verdade, o pontapé certeiro do início dessa nova era foi a revolucionária máquina fotográfica, no final do século XIX. E, cá pra nós, que atração não era poder ver você dentro de um papelzinho, ou estampado num jornal. É, você mesmo. Não pinturas, nem caricaturas deformantes. Você e tudo o que fazia no momento, as pessoas em volta, as caretas e poses da novidade. Era o máximo. E continua sendo.
Todavia, a revolução da imagem não se deu sem alaridos indignados da turma dos tipos, do texto, das palavras. E nem foi tão rápido. A televisão foi a maior precursora e ainda o é. Mas vamos nos delimitar nos impressos que já dá trabalho demais.
Imagem dúbia
Mão à palmatória seja dada pelos defensores do texto. Afinal de contas é inegável o poder de fogo, ou de impacto, para ser menos enfática, que a fotografia ou qualquer imagem tem numa publicação. Tanto é, que nos últimos anos houve um aumento significativo do espaço dado às imagens em detrimento do texto.
Segundo uma pesquisa de Vanderlei Dorneles, professor do Unasp e mestrando em Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), o número de ilustrações diminuiu nas últimas três décadas, em semanais feito
Veja e IstoÉ. O relevante, no entanto, é que o tamanho das imagens teve sensível ampliação. Basta olhar.
Supondo que a matéria fosse sobre sexo ou problemas sexuais dos brasileiros - só para apelar - temos uma situação peculiar. Numa página em que, há algum tempo se veria uma pequena foto ilustrando a situação, talvez com um infográfico ou a foto de médicos e especialistas no assunto, ou ainda um casal com dificuldades, é vista hoje uma baita de uma dona pelada ou quase, empurrando o texto para fora da página.
A imagem, talvez na maioria dos casos, chama mais a atenção do que o próprio título da matéria que ela ilustra e fica registrada na memória com muito mais eficácia. José Arbex Jr. afirma em seu livro
Showrnalismo que existem fatos históricos, como a queda do muro de Berlim, ou outras revoluções, que são lembradas pela imagem. Até aí tudo bem. O problema é que o receptor acaba por não se lembrar de mais nada, nem mesmo data, pessoas e fatos envolvidos no acontecimento. A imagem marcou, mas não acrescentou os aspectos úteis daquela informação.
Vale lembrar que é muito mais fácil, em tempos de pressa, olhar a foto no jornal seguida pela leitura da legenda e do título da matéria. Pronto! Estamos informados. A imagem é a facilidade da comunicação, é a papinha com açúcar. Sabe aquela coisa leve que mal precisa mastigar? Pois bem, mal comparando, é assim.
Nas entrelinhas...
A questão a ser entendida, ou discutida pelo menos, é a validade dessa facilidade toda. Ou, mais ainda, a veracidade e a nitidez, em se tratando de jornalismo, da imagem para ilustrar um fato. O absolutismo de que "vale mais que mil..." não é tão absoluto assim. Ao contrário, pode facilmente vir por terra. Isso porque, por mais que a imagem simplifique as coisas, ela não pode contextualizar totalmente o fato e nem tão pouco falar tudo e ser absolutamente clara.
Ok, ok, o texto não é o mocinho da história. Contudo é muito mais crível, pelas inúmeras possibilidades de explicação e descrição que uma imagem estática, que pode parecer uma coisa e ser o contrário. É nesta hora que o texto, com sua gama de palavras para exemplificar, contextualizar e explicar novamente entra em cena como um estandarte da clareza. Ou algo que se aproxime.
Lembra-se da imagem ilustrativa (aquela da dona da matéria sobre sexo) usada ali em cima? Pois bem. Ela pode significar muitas coisas. Tente pensar num título para a matéria: "Brasileiros com o sexo na cabeça", ou ainda, "Problemas sexuais mexem com médicos". O que você pensaria associando o título com a dona pelada? Alguns poderiam pensar em impotência, outros em preferências sexuais (analisando a dona), outros, que os médicos não estão fazendo sexo, outro ainda que o problema é tal da dona.
Parece confuso e talvez muitos nem conseguiriam pensar, só ficariam "viajando" na dona. Mas o fato é que lendo o texto - entenda-se, claro e bem escrito, assim como uma boa fotografia - as dúvidas e ambigüidades seriam dissipadas para dar lugar à informação. Utópico talvez, mas perfeitamente plausível.
É claro que soa apelativo usar somente exemplos de sexo. Mas as últimas "guerrilhas americanas" em
Veja, estão aí para tirar as dúvidas. Enquanto as imagens estouradas, mais assimiladas que o texto, eram consumidas e delineavam o pensamento pró-estadunidense, os fatos, contados mais claramente no texto, eram passados por alto. Está aí para quem quiser ver.
A imagem fala sim mais que o texto. Chega mais rápido e até permanece, em alguns casos, por mais tempo. Mas assim como quem fala primeiro e mais rápido deixa mais lacunas e comete mais erros. O texto pode não ser tão impactante, mas um bom texto... ou melhor, para contrapor ao dito lá em cima, "uma palavra pode valer por um milhão de imagens". E ponto final.
criação: lisandro staut |
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