editorial | ombudsman | debate | imprensa
mídia | cultura | perfil | nostalgia | opinião
  em tempo | olho vivo | leitor | e-mail | expediente
anteriores | próximas edições | inicial

Sexo, mulher e mídia na pós-modernidade

Fabiana Siqueira


É fato que a sociedade está passando por um momento de profunda modificação estrutural. Este século traz, atrelado ao caos da vida chamada moderna, a desmaterialização do androcentrismo, embora as conseqüências de tamanha mudança ainda estejam aparecendo de forma paulatina.

A descentralização da figura masculina nas práticas sociais é percebida de maneira concreta. Mudou o código civil, assegurando direitos e deveres muito semelhantes a ambos os sexos. Mudou o mercado de trabalho, que admite muito mais mulheres em detrimento de anos passados para cargos que antes eram ocupados por homens. Mudou a estrutura familiar que era essencialmente patriarcal. Mudou a forma de pensar a educação infantil, uma vez que as mulheres não precisam mais ficar restritas ao cuidado da casa e dos filhos. E, por fim, mudou o comportamento sexual feminino, que está bem mais liberal em relação há pelo menos duas décadas.

A preocupação excessiva com a estética e a supervalorização do corpo são marcas profundas da pós-modernidade. Por um ditame capitalista, o corpo tornou-se produto comercializável e fonte de renda, altamente explorável enquanto imagem e mensagem lucrativa.

O tema da sexualidade feminina é bastante discutido pela sociedade. Esta, porém, ainda não se posicionou em relação ao papel da mídia e as transformações sexuais da mulher.

Assim como a maioria das transformações da sociedade, a mudança no comportamento sexual da mulher ocorreu por um fator externo, como uma espécie de fenômeno social. Esta mudança está inserida no contexto da pós-modernidade, que traz à tona o clímax do capitalismo e da globalização. Na sociedade do consumo, o corpo é também mercadoria, logo, percebe-se acentuado redirecionamento de valores morais.

O corpo como mercadoria

O corpo, desta forma, é reificado e despojado, portanto, de sentido e de sentimento e, como coisa, não possui em si valor algum além daquele que sobre si lhe foi atribuído, tal qual uma mercadoria. Desta forma, no mundo contemporâneo, do modo de produção neoliberal, o corpo está sujeito às leis do mercado, da concorrência, da propriedade e da oferta e da procura, conforme Hélio Sales Rios, teórico da comunicação.

A "coisificação" do corpo como uma característica da pós-modernidade não representa, portanto, uma atitude natural para este. Esta condição que se impõe sobre o corpo é de ordem cultural-econômica, ou seja, não é da natureza do corpo ser produto ou meio da sua produção. "Pode-se afirmar que um corpo é um corpo, somente em certas condições ele se torna um meio de produção ou produto de consumo", estabelece Rios.

Para o teórico, o que transforma o corpo em mercadoria é a necessidade do ser humano de ser absorvido pelo mercado de trabalho, que não consegue atender à demanda de pessoal, já que a produção moderna é muito mais tecnológica do que manual. O fascínio, presente nas motivações do consumo das mercadorias, se transfere para as pessoas que absorvem os atributos que são próprios do mercado e, neste sentido, o valor destas é equivalente aos critérios do valor da mercadoria. "O corpo, torna-se resultado das expectativas do mercado, nega-se enquanto ser autônomo e afirma-se enquanto ser dependente dos mesmos critérios das exigências do mercado", afirma ele.

Rios também destaca em suas considerações a desestruturação psicológica causada em indivíduos de uma sociedade excludente, que mede sua importância por sua utilidade e tempo de produção. Soma-se à questão social-econômica o fator psicossocial, sobretudo a auto-estima, considerando que o indivíduo não produtivo e que, por este motivo, é caracterizado como inútil, carrega sobre si o signo de derrotado no jogo competitivo do mercado. "Não pode digladiar com os mais fortes e mais capacitados do que ele, condenado a carregar um corpo não compatível com as exigências do jogo da concorrência", constata Rios.

Imposição do comportamento

A mulher insere-se de forma contundente justamente neste mercado, com estas características próprias do capitalismo. A mudança seria, portanto, além de uma imposição, uma necessidade.

Os consumidores da mídia não possuem clara noção sobre o impacto que ela exerce sobre eles. Não há suficiente esclarecimento acerca da influência da mídia, o que dificulta a seleção da informação. A maioria dos consumidores acredita que está adquirindo informação, quando na verdade está comprando ideologia. Isto porque, não existe educação para a crítica à mídia, o que facilitaria o processo individual de seleção.

As revistas femininas selecionam as mulheres que desejam citar em suas reportagens. Estas mulheres são uma minoria julgada moderna pelas revistas e colocada como modelo para as leitoras. As leitoras encontram nas revistas um espaço para definição de sua própria maneira de encarar o sexo e o casamento. É nesse sentido que as revistas femininas modelam comportamentos, utilizando mulheres reais como modelos para outras. 

De uma forma muito rápida e sem critérios rigorosos e pré-estabelecidos de julgamento, a mulher passou de escrava do lar para escrava de um papel que ainda não está preparada para desempenhar. O sexo livre ainda traz conseqüências maiores para a mulher, levando em consideração que a cultura androcêntrica ainda é muito forte na sociedade.

Sem considerar questões religiosas ou exceções, é possível afirmar que a mulher sofreu um aviltamento sexual nos últimos tempos. É indiscutível que suas conquistas são válidas e meritórias e que mesmo no campo sexual ela fez descobertas e progressos indispensáveis ao seu desenvolvimento. Porém, se esta mudança para o outro extremo da questão representasse garantia de felicidade total, a mulher não estaria ainda em busca de satisfação em um relacionamento convencional.

A psicóloga Pâmela Regan constatou essa realidade: "As mulheres, sempre que praticam sexo sem compromisso têm, no fundo a esperança de que o parceiro irá querer um relacionamento duradouro."

* Texto extraído e adaptado do
Trabalho de Conclusão de Curso do curso de Jornalismo do Unasp, com o título "A Mudança do Comportamento Sexual Feminino na Pós-Modernidade e a Influência da Mídia"

                                        

criação: lisandro staut