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Publicidades deturpadas

Kenízzia Rodrigues

Toda imagem é manipulada para gerar emoções, despertar o desejo pelo produto serviço ou ideologia e provocar sensações nos receptores. Em cada área da comunicação, podemos ver as inúmeras formas, cada uma com suas peculiaridades e se encaixando com o contexto da mesma. No campo publicitário a imagem distorcida - mas com harmonia - está ligada ao produto.

Onde está o problema disso tudo? Há milhões de pessoas condicionadas a um mundo visual. Este mundo substituído pela imagem pronta não dá muita importância ao texto, deixando os indivíduos inertes quanto a usarem sua criatividade para imaginarem sua própria figura.

Os publicitários manipulam a imagem para o foco principal. Até aí, tal atitude é necessária para se falar num código em que haja compreensão. O erro é a forma desta manipulação, gerando uma queda nos valores da sociedade. Preconceito ou não, o que de fato acontece é uma deturpação do poder da imagem.

Algumas delas parecem ser automáticas quando associados aos produtos. Grande exemplo é o segmento de bebidas alcoólicas, como a cerveja, que sempre se relaciona com mulheres seminuas, jovens e belas com um apelo sexual explícito. Mas e o produto? O produto, que deveria ter seus pontos fortes destacados, é deixado de lado.

Tal situação levou o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar), a partir deste mês de outubro, proibir imagens eróticas, de jovens aparentando ter menos de 25 anos e bichinhos humanizados, já que o público-alvo se compõe de adultos. Segundo o presidente do Conar, Gilbert Leifert, "desejamos ampliar a proteção dos menores e despertar os governantes da existência de leis do excesso publicitário ao usarem essas imagens". Para estas mudanças foram efetuados manuais e prazos de modificação.

As proibições são plausíveis, já que este segmento usa a imagem para vender o seu produto indo contra a realidade do mesmo. A indignação é que essas proibições se restringem a algumas mídias, enquanto outros produtos anunciam sem restrições de mídia e conteúdo.

A marca de óculos Chilli Beans tem escandalizado a cidade de São Paulo, com temas sensacionalistas como lesbianismo e sadomasoquismo, em outdoors espalhados pelas principais vias públicas. Uma das imagens mostram duas mulheres nuas, apenas com os óculos da marca, sentadas em uma lambreta. Em outro momento da campanha, "Fetiches" (nome dado à mesma), mulheres amarradas com o corpo à mostra e os tais óculos. Todas estas imagens estão expostas para todos os targets e em qualquer horário, já que os outdoors foram colocados em grandes avenidas.

Imagem perde personalidade

Ao mesmo tempo em que as proibições do Conar podem ser aplaudidas causam enjôos. As várias associações entre imagem e produto, criadas no século XIX, eram voltados para que os anúncios publicitários ganhassem personalidade e independência em relação às suas formas de origem. Em conseqüência, transformaram-se em ícones culturais da sociedade moderna e da comunicação de massa. Hoje em dia, o respeito e o senso moral foram perdidos.

O que as empresas sonham para os seus produtos é uma aproximação dos seus consumidores por paixão aos mesmos. Ao invés disso, a imagem é deturpada. Elas chamam a atenção utilizando banalidades e banindo valores; ignoram o conceito de qualidade e priorizam o sensacional. Enfim, a marca é levada para casa porque o indivíduo está alienado com tanta informação e atraído pela falta de valores.

Na verdade, estas marcas estão construindo uma abertura para a "traição" ocorrer até nos produtos. Quem utilizar armas mais chamativas será trocado por outra. O amor mercadológico, a fidelização está deixando de acontecer. Neste mundo de espertos, quem fica é quem entra na auto-regulamentação por consciência própria, sendo que o mercado publicitário não deveria necessitar e nem merecer proibições.

"A auto-regulamentação eficaz pode refrear os ímpetos dos legisladores e até esclarecê-los sobre outras formas lícitas de melhorar as relações de consumo sem vulnerar as liberdades de criação e de expressão", opina Gilberto Leifert.

De imoralidades o mundo está repleto, todo dia e toda hora. Quem optar pelo bom e se restringir ao seu produto, conceito ou ideologia de forma criativa sem "apelos", sobreviverá no mercado competitivo. Contribuirá, assim, positivamente para este velho e deturpado mundo.

                    

criação: lisandro staut