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Proibição da competência

Alex Gonsalves


É interessante perceber que, na medida em que aumenta a procura pelo curso de Jornalismo nas inscrições para o vestibular em todo o País, proporcionalmente aumentam também as polêmicas. Dentre elas, destaca-se a discussão a respeito da validade do diploma e a legalização do estágio. A respeito desta última, uma espada de dois gumes é o objeto que melhor representa a problemática.

Por um lado está a expectativa dos alunos em aliar a teoria que aprendem com a prática do mercado. Do outro, o receio dos jornalistas em atividade, a respeito do fato de muitas empresas adotarem o sistema de "sai fora competência, chega mais custos baixos".

A aliança teoria e prática está em crescente evidência nos cursos de Jornalismo. Uma sem a outra é apenas fragmento de um processo. Não se pode ter idéia do todo sem conhecer as suas partes. Uma concepção teórica só é pertinente se partir de uma reflexão da realidade, e só pode ser considerada efetiva quando sua aplicação no contexto em que se insere traz resultados positivos. Da mesma forma, práticas de sucesso são somente pelo fundamento teórico da qual fazem uso.

Assim, não é preciso nenhuma análise profunda para perceber esse processo. Então, por que tanta resistência em relação ao estágio para estudantes de Jornalismo? Porque os que são contra não se opõem por discordar da importância da relação teoria-prática. Eles se opõem pelo fato de que o estágio tem sido usado como instrumento da mão empresarial para diminuir custos.

Várias empresas jornalísticas se aproveitam da situação, demitem seus profissionais e colocam estagiários para substituí-los. Não seria de todo mal se, quando estes estagiários obtivessem o diploma, fossem efetivados na empresa em que trabalham. Mas não é isso o que ocorre.

Quando o estagiário está para se formar, na doce esperança de ser contratado, por causa da dedicação apresentada durante o processo de estágio, inclusive nada recebendo, ou quase nada por isso, obtém como recompensa a dispensa, e, às vezes, um muito obrigado. Para quê? Para dar lugar a outro estagiário. Desvirtua-se assim a intenção do estágio. Ele existe para tornar competente o aluno, possibilitando a ele sair gabaritado para o mercado. Mas ele é efetivado para burlar custos.

É preciso questionar, também, essa relação jornalismo-lucro, evidenciada cada vez mais nas redações. A função do jornalismo é servir a sociedade, prezar pelo interesse público, defender a verdade. Mas o que percebemos é a busca do lucro, defesa de interesses empresariais, materialização das notícias como objetos de venda.

Diante dessa situação, ainda assim, acabar com o estágio não é o melhor caminho, aliás, não é o caminho. É como dizer que se o problema do Brasil é a fome, então a solução é eliminar os famintos. O caminho deve ser trilhado rumo à revisão da legislação dos estágios, a fim de "acabar com esta vergonha", como diz um pensador ilustre de nosso País - que, aliás, não possui diploma.

                                        

criação: lisandro staut