editorial | ombudsman | debate | imprensa
mídia | cultura | perfil | nostalgia | opinião
  em tempo | olho vivo | leitor | e-mail | expediente
anteriores | próximas edições | inicial

Lula no tribunal da imprensa

Katianne Jouguet

A história política do Brasil comporta presidentes de todas as espécies. Dentre elas, militares, ditadores, caçadores de marajás, democratas, populistas, diplomatas, etc. Ao todo, 29 presidentes fizeram parte da história, cada um tendo pelo menos uma destas características. A imprensa, por sua vez, esteve sempre presente, divulgando notícias sobre os diversos governos.

Dia 27 de outubro de 2002. Esta data ocasionou uma profunda mudança na política brasileira, tendo repercussão na sociedade midiada. Luiz Inácio Lula da Silva é eleito o novo presidente do Brasil. Cinqüenta e três milhões de votos. Um antigo operário e sindicalista, sem formação universitária e do partido de esquerda, assume o mais alto posto - o de governar uma nação. 

Este artigo não busca fazer apologia política ao presidente, nem questionar a validade de suas ações políticas e econômicas. Deixemos isso para os comentaristas diários. Porém, é válido analisar como os meios de comunicação se portaram durante este primeiro ano de governo.

Como era de se esperar, a imprensa não ficou imparcial quanto à abordagem desse fato. Nota-se que a informação transmitida ao público brasileiro apresenta determinado caráter opinativo. O companheiro do povo nem sempre é o companheiro da mídia. Noutras vezes, a mesma mídia quer forçar o "companheirismo" entre povo e presidente. Isso se evidencia nos momentos anteriores à ascensão de Lula e posteriores.

A revista Carta Capital, às vésperas das votações do segundo turno, deixou sua posição bem clara ao mencionar em editorial: "Não faltarão vozes isoladas a favor de Lula. Entre elas, Carta Capital. A escolha é coerente: Lula é a chance de mudança. Reconhecemos em José Serra qualidades, mas excluímos a possibilidade de que possa desvencilhar-se das demandas e expectativas de quem está com ele." ("Escolhemos Lula há muito tempo", Carta Capital, 2/10/02). Pelas edições posteriores, pode-se perceber que a Carta "fechou" com Lula e "não abre".

Contrárias e favoráveis

Outro impresso com essa mesma visão apoiou Lula antes, durante e após as eleições. De forma menos escancarada, a revista IstoÉ parece estar ao lado do presidente. Mesmo com entraves políticos, mantém-se otimista quanto à nova administração do Brasil. Seguem abaixo alguns trechos do veículo que corroboram esta tendência.

"Entra a prioridade para a área social e sai o receituário neoliberal criado 13 anos atrás, exatamente quando Lula se arrojava em sua primeira candidatura à Presidência da República (...), não houve nenhuma menção direta aos acordos com o FMI, às metas fiscais e inflacionárias. Lula foi mais eloqüente exatamente quando deixou de dizer." ("Uma outra história" - reportagem de capa, IstoÉ, 8/1/03).

Com relação aos cem dias do governo Lula, o veículo mantém a sua posição: "Comemorar os cem dias de governo, com direito a champanhe, é luxo para poucos. (...) Os primeiros cem dias do petista foram intensos e mostraram o estilo do treinador: carismático, com seu jeitão informal e caloroso, ele continua recebendo aplausos, apesar dos erros cometidos por seus jogadores." ("Só Bush e Beira-mar atrapalham", IstoÉ, 9/4/03).

Realmente, a IstoÉ embarcou com Lula. "Em apenas duas semanas, o barco do capitão Lula atingiu dois portos que a nau do comandante FHC não alcançou em oito anos de uma viagem arrastada: a aprovação, na Câmara, das reformas da Previdência e tributária." ("Com a mão no leme", IstoÉ, 10/9/03).

A Veja, no entanto, não adquire o mesmo caráter otimista. Antes mesmo de Lula se eleger, a revista já demonstrava incertezas quanto ao futuro político brasileiro. Em 25 de setembro de 2002, sua manchete de capa prontamente apontava tais dúvidas: "O PT está preparado para a Presidência?". Fica óbvio o que diz a matéria principal.

E sua opinião não se alterou no decorrer do ano de 2003. A Veja não perdoou nem os primeiros dias do mandato do presidente. "A semana de estréia de Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência da República foi um sucesso no atacado. (...) No varejo, porém a estréia foi calamitosa, produzindo um espetáculo em que se misturaram um toque de comédia, altas doses de amadorismo, muita afoiteza nos ministros novatos e vários factóides. (...) Até o projeto Fome Zero, apresentado pelo presidente com a grande prioridade de sua gestão, até agora não passou de um factóide." ("Trapalhadas na decolagem" - matéria de capa, Veja, 15/1).

Alguns meses depois, a revista fez menção às visitas de Lula à Europa. "Não passa um mês sem que Lula queira criar um fórum, um congresso, um organismo qualquer. Desde que se trate de algum lugar onde as pessoas passam fazer vibrar sua retórica por um mundo melhor, Lula acha que vale a pena. (...) Com um pouco mais de pesquisa sobre o que ocorre no mundo, a assessoria de Lula poderia alertar o presidente para o arcaísmo dessas idéias." ("Clube dos esfarrapados", Veja, 23/7).

O Jornal do Brasil também não fica sem sua cota de partidarismo. Em um artigo de 9/12, "Corrupção mais visível", as notícias sobre a chegada do PT em Brasília se mostram muito otimistas.

Como mais de um quarto dos entrevistados pelo JB acha que a corrupção aumentou após a tomada da Presidência, o jornal explica logo no início que o PT é "um partido que sempre se pautou por uma vigilância severa no trato da coisa pública". Ao final, justifica o "suposto" aumento da corrupção denotando que estes tipos de mudanças não produzem resultados imediatos.

Indecisão e irrelevância


Existem, porém, aqueles veículos de comunicação que não sabem ao certo que posição devem assumir quanto ao novo governo. Depois de muitas críticas a Lula em anos anteriores, a Rede Globo adotou, de 2002 para cá, uma postura diferente com relação ao petista e a seu partido.

Como se fosse para reatar as pazes, o Jornal Nacional, em 28 de outubro de 2002 inaugura uma relação de amizade entre o novo presidente e a Globo. Uma hora e 15 minutos de Lula no ar. Um espaço em que o presidente se sentiu uma estrela. A entrevista com William Bonner foi recheada de homenagens ao "homem do povo", se encerrando com a frase "A esperança venceu o medo".

Atualmente, o Jornal Nacional continua a fazer o marketing do presidente. Cita em suas reportagens, ações fúteis do mesmo. Em 18/11, a notícia a respeito de Lula era: "O presidente Lula se encontrou, nesta terça-feira à noite, com a turma do Casseta e Planeta. Eles vão assistir juntos ao filme do grupo - A Taça do Mundo é Nossa. O presidente apareceu com o pé esquerdo imobilizado. Ele torceu o pé de manhã, no Palácio da Alvorada. Os médicos fizeram uma radiografia e não encontraram nenhuma fratura. Indicaram o uso de gelo e prescreveram antiinflamatórios".

Mesmo antes, já havia outras notícias irrelevantes. "Lula está cotado para ganhar o Prêmio Nobel da Paz deste ano. O diretor do Instituto de Pesquisas da Paz de Oslo disse hoje que o presidente Lula e o papa João Paulo II estão entre os mais cotados para receber o Prêmio Nobel da Paz este ano." (Jornal Nacional, 27/9). E as decisões políticas...

A Folha de S. Paulo, por sua vez, também não conseguiu definir sua posição, nem sobre o governo nem sobre Lula. Desde a posse, um dia se derrete em elogios; noutro, um erro, por mais insignificante que pareça, vira uma tempestade. Matérias como "Lula já ganhou mais de 50 bonés desde a posse" (26/10); "Em Davos, Lula propõe fundo internacional contra a fome" (26/1); "Dieta adotada por Lula faz mal à saúde, afirma médica" (15/9); "Má tradução e atraso de Lula criam mal-estar no Egito" (8/12); "Lula é o presidente com maior aprovação" (29/9) mostram tamanha indefinição. 

Por fim, o povo não sabe ao certo que posição tomar. Quando não se encontra diante de informações oportunamente omitidas ou destacadas, depara-se com a irrelevância e a futilidade das ações pessoais do presidente. Conclui-se que a mídia está trabalhando para mudar as opiniões que não condizem com seus respectivos interesses. 

A IstoÉ, a Carta Capital, a Veja, a TV Globo, o Jornal do Brasil, a Folha e praticamente toda a imprensa estão aí para confundir o cidadão brasileiro. Logo, nada se sabe sobre política. E a história do Brasil vai passando desapercebida. A esperança venceu o medo? A mídia ainda não chegou a um consenso.

                   

criação: lisandro staut