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Mídia vira a casaca

Wendel Lima


É frustrante e utópico sonhar com uma mídia imparcial. Porém, é importante salientar que a ética jornalística compromete o profissional a desvencilhar-se ao máximo de suas relações pessoais e profissionais a fim de zelar pelo interesse público. Como no mundo pós-moderno os absolutos são questionáveis, cai-se num relativismo ético, ditado, sobretudo, pela lógica capitalista, pelo poder.

A análise da cobertura do primeiro ano de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva comprova a subserviência da imprensa ao poder vigente. Quando se compara o que se falou dele nos tempos de sindicalista ou candidato radical com o que é dito hoje, nota-se um contra-senso.

Como se já não bastassem os políticos, com suas alianças no mínimo questionáveis, a mídia também "virou a casaca", pelo menos os anti-Lula, sim. Parece que o império da Globo vestiu a camisa vermelha, e até mesmo a assaz Veja tem mordido menos o PT. Para falar a verdade, Lula ainda está em lua-de-mel com a imprensa.

Tome-se como exemplo a revista Época. Em edição anterior às eleições (8/7/02), o periódico publicou uma biografia do então candidato petista, apresentando-o como um sindicalista carismático, porém sem cultura alguma. A declaração mais sugestiva, no entanto, fica por conta da capa. A chamada diz que, segundo o relatório do Dops, "Lula é fraco e manipulável".

Desmemoriada, em 7/4/03 Época muda seu discurso e faz elogios ao governo Lula. A revista publicou matéria comentando os primeiros cem dias de governo, com três analistas a favor e apenas um contra.

Uma semana depois, a manchete é "Governo está em alta". Mesmo quando critica a ala radical do PT, procura não associá-la ao presidente, "Lula não queria radicais no ministério". Já na matéria de 23/6, o Lula "fraco e manipulável" é substituído pelo construtor e empreendedor.

Depois de manter oposição a Lula nas eleições, Veja mostra-se mais amena em seu discurso. A revista não é petista de carteirinha, mas poupa algumas críticas. Primeiro, porque o governo nem sempre é capa, segundo, porque quando ataca o Planalto o faz pelas bordas. Ora denegrindo o MST e o vinculando à "esquerda delirante", ora desacreditando o poder brasileiro de negociação na Alca, questionando: "coragem ou estupidez" (15/10/03). Não atira direto em Lula.

Festa e euforia

Quanto ao resto dos semanários impressos é só festa. A IstoÉ mostra otimismo em relação à gestão petista e confere um ar de seleção aos ministros de Lula, chamando-os de "Constelação ministerial" (30/10/02).

A Carta Capital, que foi favorável a Lula desde o ano passado, mantém o apoio, quer mostrando o outro lado da reforma agrária, quer não economizando elogios ao presidente em Davos, na Suíça. É tão puxa-saco que se torna chata.

Ao que tudo indica, a imprensa ainda está no clima de euforia do povo, afinal Lula mantém a sua popularidade. Logo, falar bem de quem é benquisto é um bom negócio. É verdade que pouca coisa o governo fez ou pelo menos teve tempo de fazer, mas o que parece é que a mídia não dorme sem pedir benção ao papai Lula. As matérias estão com um "ar" de propaganda governamental, de oficialismo. Tal fato é lamentável, haja vista a dificuldade de se fazer política num País com uma recente história política.

A imprensa tem a missão de fiscalizar quem detêm o poder. É o quarto poder vigiando os outros três. Na comunicação em que marketing impera, o compromisso jornalístico não pode ser olvidado. Lutou-se muito pela liberdade de expressão; agora que ela está aí, a mídia não pode censurar o povo com um oficialismo mascarado. Paira no ar o clima de "se hay govierno, soy a favor".

                                        

criação: lisandro staut