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Balança política equilibrada
Victor Drummond
Onze meses se passaram. A "lua-de-mel" acabou. Problemas já apareceram e bons resultados também. Neste artigo você lerá uma breve análise sobre como a imprensa se posicionou durante a nova fase política - que o Brasil começou a viver a partir de janeiro.
A fim de delimitar a pesquisa, imprensa aqui será sinônimo de veículo de comunicação impresso, mais precisamente as revistas Veja
e IstoÉ e os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S.
Paulo. A escolha desses veículos se deu pelo fato de ocuparem os primeiros lugares no ranking de número de leitores e da credibilidade em suas categorias de acordo com a revista
Mídia e Mercado do mês de setembro, uma edição especial da Meio &
Mensagem. Todos estão longe de serem veículos perfeitos e totalmente imparciais - o que é uma utopia para a imprensa -, mas são sinônimos de profissionalismo e seriedade ao publicarem fatos sobre a vida política brasileira.
Em 8/1, primeira edição da revista Veja depois da posse de Lula - a editoria Brasil ganhou 23 páginas sobre Lula e o PT - encontra-se na capa a seguinte manchete: "LuLa-de-Mel: a partir de agora, começa a cobrança". Dá-se a impressão de que a publicação se colocou no lugar da voz popular "votei em você, agora quero ver os resultados". Ela tomou para si a posição de que estará à espera de feitorias do governo Lula.
Já o editorial desta mesma edição possui menos voz popular, com o título um tanto quanto a favor do presidente: "Um bom começo". Nele também pode ser encontrado um tom de alívio da linha editorial do veículo: "Com ajustes de tom mais harmonizados com o discurso petista, ficou evidente para os brasileiros que o governo de Lula será, felizmente, a extensão do que FHC vinha fazendo nas finanças públicas (...)". Como o próprio editor escreveu, houve nesta comparação uma pitada de ironia, visto que a política econômica de FHC foi combatida pelo PT durante os dois governos.
Na matéria intitulada "Um dia para a história", ficou claro um certo favoritismo em relação ao novo presidente. "É histórica a gigantesca e vibrante manifestação popular que saudou (...) na cerimônia de posse de Lula em Brasília. Antes, já era histórica a votação de Lula, eleito com quase 53 milhões de votos, ou 62% dos votos úteis, a mais significativa votação da era democrática brasileira e também uma das mais expressivas do mundo".
Repare como o uso da expressão "histórica" deu um ar fenomenal à vitória do presidente. A matéria assumiu tons mais realistas quando previu que o lado perigoso da popularidade de Lula é o fato de que ele terá que enfrentar o sentimento de decepção de certas camadas da sociedade. E acertou em cheio.
Tendenciosidade
Durante o segundo semestre, a população apresentou um alto grau de insatisfação em relação ao presidente. Tanto que na edição de 10/9,
Veja publicou: "Numa cena cada vez mais comum, os radicais do PT protestam contra Lula".
Apesar de muitas vezes ter se mostrado favorável ao governo petista, na edição de 10/9 não houve como
Veja fingir que não há problemas no partido do presidente Lula. Na capa, estampava-se a crítica: "BrasILHA da fantasia". A matéria "A praga do fisiologismo" não perdeu tempo em criticar a maneira como o PT tem conduzido as indicações políticas.
Nomeações petistas estão sendo feitas sem levar em conta qualquer exigência técnica ou competência dos escolhidos. E criticou mais: "Além dos 21 mil cargos de confiança, o PT pretende colocar os seus em outros 19 mil cargos remanejáveis. Naturalmente, isso não é mais uma mudança. É coronelismo partidário (...)".
A revista IstoÉ apresenta-se ainda um pouco mais tendenciosa a favor de Lula do que
Veja. A matéria de capa da edição 10/12 ganhou o título: "O brilho da estrela: diplomacia presidencial de Lula procura reposicionar o Brasil no mundo." Lula é citado como o primeiro líder brasileiro a visitar o Oriente Médio desde dom Pedro II.
Quais são os motivos para tantas viagens? A reportagem responde: "(...) o recado é claro e tem endereço certo. Primeiro, Lula mostra que o Brasil, candidato a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, quer ser independente em aspectos políticos e que não pretende ficar atrelado a nenhum bloco. Segundo, que o maior interesse do país é abrir mercados para seus produtos e buscar parcerias comerciais".
IstoÉ apresenta mais declarações a favor do presidente: "Lula não fala inglês, não tem títulos acadêmicos, comete gafes, mas é inquestionável que ele se tornou um requisitado astro da política internacional. (...) Na maior parte dos casos, o Brasil sairá lucrando, pois terá conseguido novos sócios com muito dinheiro para investir e comprar".
Contudo, a revista não é assim tão partidarista. Na mesma reportagem, ela apresenta pontos negativos dessa viagem de Lula: "Mas alguns analistas, no entanto, vêem riscos nessa ousada diplomacia lulista. 'A política externa de Fernando Henrique Cardoso tinha como foco principal as relações do Brasil na América do Sul, a partir da integração do Mercosul. (...) Já o governo Lula tem uma ambição muito maior, a de constituir uma articulação política ampla do movimento do Sul, do Terceiro Mundo'", disse à
IstoÉ o professor Demétrio Magnoli, doutor em geografia humana.
"Cautela de Lula sobre dívida prevalece em Buenos Aires". Este título, encontrado na
Folha de S. Paulo de 17/10, apresenta um presidente sensato e equilibrado que não age por impulso. Nesta matéria, o jornal mostrou que o Governo Lula afirmou que se preocupa com a dívida externa do brasileiro, mas que esta não pode limitar as possibilidades de crescimento econômico e social. Segundo a
Folha, "Lula está convencido de que o bem-estar dos povos constitui o objetivo prioritário (...)". Presidente bonzinho, não?
Em contrapartida, na editoria de Opinião da mesma edição, foi publicado um texto do senador Jorge Bornhausen criticando duramente a reforma tributária, que aumentará em 150%, no mínimo, o ICMS sobre os insumos agrícolas. "Caso persistam os absurdos contidos no projeto de emenda constitucional 41/03, (...) teremos neste país uma das mais violentas altas de preços de alimentos, o que ampliará a dificuldade de acesso dos mais pobres à alimentação básica (...)", foram as palavras do senador na
Folha.
De opinião formada
Estampada na capa de 31/10 de O Estado de S. Paulo: "Em discurso, Lula chama ex-presidentes de 'covardes'". Fazendo uma interpretação mais profunda, pode ser que o veículo esteja querendo apresentar um presidente insensato que não mede palavras. Muitos políticos dizem que a ética é nunca criticar um antecessor. E o presidente fez justamente o contrário.
O Estadão não perdeu tempo e tornou esta atitude assunto para uma página inteira, recheando-a com as declarações de Lula: "Cheguei à Presidência para fazer as coisas que precisavam ser feitas e que muitos presidentes antes de mim foram covardes e não tiveram coragem de fazer."
A repórter Tânia Monteiro, autora da matéria escreveu mais: "Em seguida, ao defender o Fome Zero, voltou a atacar os programas sociais de FHC". Duas semanas antes, na edição de 17/10, o jornal desfere algumas críticas não diretamente à Lula, mas à cúpula do PT.
A matéria enfocou o escândalo da ministra Benedita da Silva, que usou dinheiro público para bancar sua viagem à Argentina em setembro. Lá, ela participou de um encontro evangélico para fins pessoais. Queira ou não, matérias do tipo transmitem a imagem de que as pessoas ligadas à Presidência sempre desempenham atividades ilícitas.
Em algumas edições a imprensa procurou mostrar os bons feitos do presidente, a sua popularidade e vontade de mudar para melhor a estrutura econômica e social do País. Realmente, se coisas boas foram feitas, não há porque serem escondidas ou escamoteadas. Em contrapartida, quando manifestações surgiram, indicadores sócio-econômicos ruins despontaram e as críticas vieram de todas as direções, o veículo não hesitou e mostrou essa realidade ao leitor.
De uma maneira geral, a imprensa tem feito a cobertura de uma nova vida presidencial brasileira que é cercada de boas intenções, mas que, às vezes, tropeça no próprio nepotismo e na dificuldade em mudar uma nação afundada na corrupção da esfera política.
criação: lisandro staut |
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