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Quando
a imprensa se preocupa
com o próprio nariz
Gabriel Ferreira
Era óbvio que a chegada do primeiro presidente oficialmente de esquerda ao Palácio do Planalto traria observações da imprensa estrangeira. O inesperado era o cunho desses comentários. O prelo internacional só se preocupou em transformar a posse de Luiz Inácio Lula da Silva em mais uma notícia que preencheria um provável espaço em branco de seus veículos. Ou pior: revelou escancaradamente que se preocupava apenas com o destino de seu próprio nariz, digo, país.
No início do ano, os jornais espanhóis expressaram inquietação a respeito de seus investimentos no Brasil. Do outro lado da fronteira a imprensa portuguesa resolveu remeter às velhas ambigüidades do passado que une brasileiros e lusitanos. O inglês
Financial Times, por sua vez, preocupou-se com as viagens de Lula à Europa.
Já nos Estados Unidos, a imprensa não deu a menor importância à posse do novo presidente. No entanto, logo no dia seguinte, a dimensão das manifestações em Brasília levou o
The Miami Herald - jornal importante na comunidade latina da Flórida - a reconsiderar o evento sob um foco mais favorável. Julgando que a Casa Branca havia calculado mal a importância da posse, o
Herald afirmou: "Não é difícil concluir que Bush cometeu um erro por não mandar pelo menos o secretário de Estado Colin Powell, além de Zoellick", referindo-se ao representante oficial dos Estados Unidos na posse.
No mesmo dia, o Le Monde publicou um editorial do mesmo cunho, criticando gafe diplomática similar por parte da França. Para o jornal parisiense, Jacques Chirac deveria ter mandado o primeiro-ministro ou o ministro do Exterior francês a Brasília, a fim de "saudar a chegada à direção desse país-continente de um homem portador de uma imensa esperança para seu povo, mas também para todos os povos da América Latina e, além disso, para o Hemisfério Sul".
"Nuestros hermanos"
No Equador, o jornal Hoy saudou o Governo Lula como a solução para a América do Sul, pois a sua vitória seria "um argumento contra os ideólogos extremistas da luta armada ou do apoio aos golpes militares e inclusive de uma suposta 'quarta via' representada pela rebelião da sociedade civil".
A vizinha Colômbia já não viu a ascensão de Lula com tanto otimismo. A revista Cambio
deu capa com a manchete "Lios en el vecindário", ilustradas pelas bandeiras do Brasil, Venezuela e Equador. Para o periódico, a vitória de Lula, somada às estripulias de Hugo Chávez na Venezuela e o franco-favoritismo do general da reserva Lucio Gutiérrez no Equador traria problemas aos colombianos.
Como se viu, a imprensa estrangeira não se preocupou em relatar o estado real do Brasil, mas sim a má imagem que este tem no mundo. A expectativa é a mesma e a esperança que o Brasil se torne um melhor parte só de quem mora no próprio. Desde que os seus países estejam bem, a imprensa internacional pouco se importa noticiar os progressos e a ordem que o governo Lula tem tentado fazer.
Na palestra de abertura de um evento organizado pela revista Exame no último mês de outubro, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan declarou que "investir no exterior significa garantir os empregos, agregar valor, criar marca e mudar a imagem do Brasil". Continua dizendo ainda que quer "ajudar a mostrar que o Brasil não é só samba, café e Pelé". De fato o mundo precisa ver de perto que o Brasil não é composto por estes três ícones, e que é mais colorido do que o vermelho, verde e o azul interligado de uma televisão.
criação: lisandro staut |
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