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Os
dois gumes da violência
Katianne Jouguet
A violência, parte integrante da realidade, é quase sempre utilizada na reprodução do ambiente social pela cultura cinematográfica. O fato, porém, está na maneira que a mesma é retratada nos filmes e no seu poder de influência sobre as pessoas. Ou o telespectador é induzido para um senso crítico ou é levado pelo momento a cometer determinados atos ilícitos presentes na obra cinematográfica. No geral, isso ocorre tanto nos ilustres filmes hollywoodianos, como nos filmes brasileiros de destaque.
Recentemente, o cinema brasileiro está na fase de expressar o lado cruel do País. Logo, a violência se faz presente e é aplaudida. É um segmento que está no auge e que a própria elite está aceitando.
"Nos anos 60, o professor Jean-Claude Bernadet percebeu com clareza que a elite brasileira rejeitava o cinema nacional por não suportar a própria imagem, o reflexo de si mesma nas telas. Hoje, curiosamente, quer o reflexo, pois a inexistência de um cinema nacional seria a manifestação pública de nosso subdesenvolvimento". (16/02/2000,
Folha de S. Paulo).
Talvez essa razão, de uma aceitação geral, é resultado de uma tentativa de se igualar ao cinema americano. Nota-se fragilidade de conhecimento da cultura nacional. Apesar de produzirmos menor quantidade de filmes (10% do mercado cinematográfico), os mesmos não devem ser subestimados. Atualmente, a qualidade da produção brasileira e seu conteúdo têm se igualado a muitos filmes estrangeiros.
Os longas-metragens brasileiros não costumam fantasiar a realidade. Buscam por meio da arte apresentar o cotidiano nacional. E a arte se faz presente até mesmo no quesito violência, que ao ser exposta, choca. E foi isso que aconteceu quando o público assistiu aos filmes
Carandiru (2002), Cidade de Deus (2002), entre outros.
Carandiru, por exemplo, foi visto por 2,5 milhões de espectadores em quatro semanas. E segundo o autor do livro que inspirou a criação do filme,
Estação Carandiru, de Drauzio Varella, "os corpos cobertos de sangue [se mostram] iluminados com beleza extrema para nos lembrar que não estamos diante da realidade, mas de um obra de arte."
Logo, não há como incorporar padrões errados da realidade brasileira transmitidos no filme. Existe, no entanto, o despertar da consciência aos problemas sociais em que vivemos. De certa forma, a violência nunca é totalmente boa para expressar a nossa realidade. A maneira que esta é apresentada nos filmes deve ser repensada em algumas ocasiões.
"Filmes brasileiros da nova geração de cineastas, como Cidade de
Deus, apesar de demonstrar algum cuidado em não fazer violência explícita, deixa passar cenas que terminam induzindo a platéia a torcer ou até mesmo 'vibrar' com o poder do narcotráfico. A banalização do crime, o descaso quanto à vida, o desprezo aos valores como solidariedade, respeito ao próximo, enredo em que falta de lei - a 'desobediência é a lei', 'tudo vale', 'tudo pode', todos esses elementos quando estetizados na tela, em vez de causar reflexão e reorganização moral nos telespectadores poderiam causar reações de gozo sádico ou a sensação total de impotência e alternativa existencial e social." ( "Alerta aos videogames e filmes violentos" - por Raymundo de Lima psicanalista, e doutorando na Faculdade de Educação - USP).
Como sempre, a crítica se mantém dividida na análise das produções visuais. É lógico que existe violência nas criações cinematográficas do Brasil, Estados Unidos e da Europa. E nunca vai deixar de existir. Ela faz parte do nosso cotidiano e atrai a massa. A tentativa de mostrar a realidade nos filmes brasileiros de cunho violento, ora pode
estilizar a violência ora pode conscientizar a sociedade. Mas sempre vai ser arte.
criação: lisandro staut |
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