|
|
|
editorial |
especial
| debate | imprensa
em foco
mídia eletrônica |
cultura | perfil |
nostalgia
olho vivo | canal
do leitor
| e-mail | expediente
anteriores
| próximas edições |
inicial
Mergulho
higiênico
Diogo Cavalcanti
Um misto de impasse, choque e constrangimento surpreendem, quando era possível afirmar a saturação de tanta violência. É o que acontece quando vemos a crueldade nos filmes
Carandiru (2003) e Cidade de Deus (2002).
Revelando uma dimensão desconhecida para a maioria - a da favela - não eufemizada em
Cidade de Deus, não há censura para cenas mais abjetas. Sexo animalesco, linguagem podre, assassinato e criminalização de crianças são meros elementos de um contexto sugerido, transferindo para quem assiste uma sensação palpitante de se encontrar perdido no lugar errado e sem colete à prova de balas.
Carandiru não deixa por menos.
A filmagem in loco, elenco de integrantes de favelas contratados, com fotografia digna de Oscar, quase nos fazem sentir o gosto da pólvora misturada com o sangue fresco. Mas tal descrição não é a pior.
Diferente de Carandiru, Cidade de Deus, busca certa neutralidade diante dos fatos, numa intenção apenas de refletir a vida que retrata - refletir e não interpretar. Além da realidade dos tiros, aprofunda-se na degradação que atingiu a mente humana. No filme, cachorros, gatos e até galinhas são menos animalescos do que as pessoas.
Mas tal "mergulho higiênico" é impossível. As cenas viscerais afetam a mentalidade de quem as assiste. Cauterizam o resto de sensibilidade que sobrou nas pessoas. Isso se percebe prestando atenção à interpretação das crianças nessas cenas. Para muitas, ver uma cabeça decepada chega a ser corriqueiro. Não há sustos.
Tal impacto desvirtua o senso de valor da vida e a própria razão da existência. Permite uma visão darwinista ao extremo. Em outras palavras, alimentar a mente com violência em altas e constantes doses gera violência em maior ou menor grau, com algumas exceções. Algo que já está sendo sentido na criminalidade das últimas décadas, inclusive em países desenvolvidos.
Se o único motivo que faz sucesso no exterior é o fracasso de uma nação, por que nos orgulharmos disso? Onde está o mérito? Direção, montagem, fotografia e roteiro reúnem apenas técnica. Os elogios, no caso, cabem aos responsáveis e a forma em si. Entretanto, a banalização mental da violência também é uma forma de violência que não merece elogios.
Outro dia estava passando pela marginal Tietê em São Paulo quando vi alguns outdoors de propaganda de certa cachaça. Surpreendi-me com as frases: "Paixão Nacional", "Orgulho Nacional", "Alma Nacional". Surgiu a pergunta: O Brasil teria uma alma de cachaça ou de cachaceiro? Que tipo de país seria este? Nos dois casos, existem mais razões de lamentação do que orgulho.
Em contrapartida, pode surgir o apelo sociológico da denúncia. Porém, neste caso, os fins não justificam os meios. Elogiar como "normal" a abordagem crua da violência seria o mesmo que apoiar guerras
"em nome da paz", como Bush defende. O tiro sai pela culatra. Não se pode condenar a violência, expondo as pessoas a maior violência.
Pode-se questionar também se o filme não deixaria a mesma mensagem sem expor tanta violência. Caso a resposta seja "não", a regra também valeria para filmes românticos. Para deixar claro que aconteceu uma relação sexual deveriam descrever em todos os detalhes e ângulos o sexo em nome do realismo. Neste ponto muitos defensores da exposição à violência discordariam. Pois argumentariam que não é preciso mostrar exatamente tudo para deixar claro que houve uma relação sexual. Uma contradição.
A violência espetacularizada é como entregar ao público um coração recém-arrancado de uma criança numa embalagem plástica de luxo. Pode-se até sentir o calor do horrendo "presente" em suas mãos, até que se perceba que um pequeno furo no plástico fez cair o sangue em suas próprias mãos.
criação: lisandro staut |
|