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Os párias da mídia

Elmer Guzman

O preconceito na mídia possui caráter gasoso. Apesar de não ser visível, torna-se perceptível quando os meios de comunicação aumentam o calor e a pressão. Todos sabem que o preconceito está lá, engrenado no maquinário que faz a mídia funcionar. Mesmo maquiado e polido, o preconceito continua presente na mídia brasileira.

Jesse Jackson, numa conferência no Senado Federal, em Brasília, em 1996, fez alguns comentários bem contundentes sobre o preconceito relativo aos negros. Ele mencionou que "os negros no Brasil e nos Estados Unidos são projetados todos os dias pela mídia de seis modos mortais". Jackson continua: "Somos projetados como menos inteligentes do que somos, menos trabalhadores do que somos, menos patriotas do que somos, menos universais do que somos, menos dignos do que somos e mais violentos do que somos."

Quando se fala em preconceito, a primeira palavra que vem à mente é racismo. Geralmente, é a de oposição entre brancos e negros. Mas também no guarda-chuva dos atacados estão os judeus, palestinos, asiáticos e, muitas vezes, a própria mulher.

Impressões erradas

É o caso do preconceito contra os palestinos difundido pelo viés norte-americano nos recentes conflitos bélicos. Carlos Dorneles, repórter especial do Jornal Nacional que cobriu a guerra do Iraque, esteve no Unasp em março deste ano falando sobre o assunto. Ele afirmou que "um dos primeiros procedimentos em uma guerra é desumanizar o adversário". Ou seja, torná-lo atípico aos padrões ocidentais. "Quem são essas pessoas que se suicidam em prol de uma missão? Usando roupas diferentes em prol de uma religião radical?" 

O estranho torna-se errado, não apenas diferente. A mídia freqüentemente faz uso da informação parcial para camuflar preconceitos. Quebra-se assim, uma das regras áureas do jornalismo: ouvir sempre os dois lados da história. Neste caso, o preconceito é utilizado como estratégia de guerra. 

Ora como estratégia, outrora como atos falhos. A janela da discriminação racial continua levando pedradas de comentários infelizes. Em 23 de março deste ano, podia-se ouvir manifestantes do Movimento Negro gritando em frente à Rede TV: "Clodovil seu cabeça oca, o peixe morre pela boca." O apresentador Clodovil insultou ao vivo a vereadora paulistana Claudete Alves (PT) de "macaca de tailleur". Ao ser entrevistado pelo jornal Folha de S. Paulo (18/03/04), Clodovil afirmou que não se incomodava em ser processado por uma "macaca de tailleur idiota".

Arte desmassificada

A arte também deveria pagar penitência pelos pecados em favor do racismo. O colorido do DNA africano deveria ser exaltado e não evidenciado pela novela Da cor do pecado (2004). E em nome da arte, o preconceito é disseminado "goela-abaixo" da grande massa que absorve, a grandes sorvos, as idéias e conceitos das novelas. 

Tratando-se de racismo e o papel do negro em teledramaturgia, Aguinaldo Silva, roteirista de novelas da Globo pergunta se "não seria a realidade que devia mudar primeiro em vez da dramaturgia?" Mas partindo desta pergunta, até que ponto a ficção influencia a realidade, ou a realidade à ficção? A simbiose existente entre a binômia arte-realidade é definida por Pablo Picasso: "A arte não é a verdade, mas faz-nos entender a verdade."

A mídia é indiscutivelmente preconceituosa. Portanto, a realidade e a ética ficam nos dois extremos de uma gangorra, mas, desequilibrando-se constantemente. Gay Talese, no livro Reino e o Poder - Uma História do NY Times, mostra que mesmo o Times, um jornal judeu, encarava a instituição de uma maneira neutra. Relaciona-o como sendo "um jornal judeu, editado por católicos, vendido para protestantes". No entanto, nos bastidores da redação, as preponderâncias da mão-de-obra eram judias.

No Brasil, a prevalência de judeus na mídia é um fenômeno parecido. Onde será que estão os negros, índios e asiáticos na mídia? Como afirmou Martin Luther King Jr: " Eu tenho um sonho..."

                   

criação: lisandro staut