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Paradoxo cultural 

Isadora Schmitt 


Editoria de cultura. Talvez a mais lida e a menos entendida. Muitas pessoas se interessam pelo tema, mas poucas são aquelas que entendem sua essência. O jornalismo cultural, diferentemente dos outros segmentos da profissão, necessita mais do que o simples conhecimento do tema. O jornalista que entra no negócio é acima de tudo um crítico. E precisa ter uma boa bagagem cultural.

Existem veículos especializados que abordam assuntos como: cinema, literatura e música. Geralmente apresentam qualidade no que fazem, pelo fato de terem tempo e espaço suficiente para explorarem os assuntos em pauta. O que não acontece, por exemplo, com os jornais impressos. O caderno de cultura é considerado hoje na categoria, segundo alguns críticos da mídia, o patinho feio das editorias. Sempre são colocadas em segundo plano, ou seja, no final do jornal. 

Claro que existem críticos que não se vendem. Geralmente sãos aqueles que têm posições ideológicas fortes. Mesmo assim, muitos fazem análises de acordo com os interesses do veículo. O que é uma pena, pois a cultura - diferente dos outros assuntos - é uma das únicas formas de expressão que um povo pode exercer. Porque apesar de estarmos em uma democracia, e inseridos numa política de "liberdade de expressão", os interesses políticos e econômicos estão muito presentes nos grupos de comunicação. 

Um exemplo recente. A Bravo!, revista publicada pela editora D'ávila desde 1997, agora está sob a gestão do império Abril. Pelo fato de ter sido veiculado por tanto tempo por uma editora alternativa existe uma preocupação em relação à continuidade da linha editorial. Dizem os editores que nada vai mudar, pois a revista já tem um público bastante fiel, mas com certeza alguns assinantes ficarão insatisfeitos. Talvez seja a chance da revista Cult, sua principal concorrente, deslanchar no mercado do jornalismo cultural. 

Infelizmente, quanto mais influente e poderoso o veículo, menos liberdade o crítico tem de expor para expor o ponto de vista sobre qualquer assunto. Em relação à cultura, como se trata de um tema mais abrangente, e que na maioria das vezes não influencia tanto na política de opinião do veículo, as coisas são menos pesadas. Mesmo assim - como em qualquer ramo - sempre vai existir a política do toma lá da cá. Principalmente em se tratando de veiculação de críticas dentro da mídia. 

A editoria de cultura é opinativa por natureza, e conseqüentemente traz com ela responsabilidades que "inocentemente" não imaginamos. Uma crítica errada, um posicionamento tendencioso, pode - como em outras editorias - deturpar informações e criar estereótipos errados em relação ao que é publicado. A cultura é identidade de uma nação. E o que é dito sobre ela carrega uma responsabilidade social muito grande. Se o jornalista não transparecer a real opinião dos fatos que presencia, irresponsavelmente contribuirá para a bestialização cultural do seu público. Que paradoxo. 

                              

criação: lisandro staut