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Cultura
pirata
Wendel Lima
Desde que o mundo é mundo, ela existe. É tema de acirrada discussão. Seu conceito, importância e identidade estão sempre em pauta. Porém, o critério da produção e comercialização tem esquentado os meios acadêmicos e o mercado midiático.
Neste embate ideológico, existem dois grupos bem distintos, os teóricos e os práticos. Esses por sua vez, divergem quanto à análise da produção cultural. Os de base marxista meneiam a cabeça diante do quadro atual. Criticam ferozmente o sistema capitalista. O contra ponto se encontra nos que possuem filosofia capitalista. Cada vez mais pragmáticos vêem com bons olhos a massificação da cultura, consideram-na como a democratização do conhecimento.
No meio do tiroteio, um jornalismo que tem ganhado fôlego. Assim como as editorias de política e esportes, a cultura também tem o seu espaço na mídia, sobretudo na impressa. Desde os suplementos ou cadernos fixos dos diários, até revistas mensais especializadas, cultura e jornalismo tem representado um nicho cada vez mais promissor. Que além de informar, confere certo
status aos jornalistas e leitores da área.
Por estar inserido num sistema capitalista e por ser uma ferramenta indispensável para o mesmo, a produção jornalística é influenciada pelo mercado, pela demanda. Olhando por este aspecto, se deduziria que as pessoas estão mais cultas, o que seria muito bom. Porém, ao que tudo indica, se depender do jornalismo cultural de massa, a cultura continuará restrita a poucos.
Pseudocultura
A oposição sempre é necessária. O que seria da análise, da compreensão do capitalismo, se não fosse a crítica marxista? E vice-versa? Idéias opostas, dialéticas, levam o indivíduo a refletir sobre um fenômeno. No caso da mídia não é diferente. Como uma empresa que é, tem de concorrer, manter-se no mercado, ainda que muitas vezes resulte na quebra da ética profissional.
A evolução tecnológica possibilitou uma popularização da cultura. O problema é que em muitos casos, a mídia dá apenas um analgésico, um lenitivo ao público que consome um produto de qualidade questionável, chamado cultura. A pintura, a escultura ou mesmo a literatura que estava confinada aos redutos da elite, vê-se agora produzida em série. Saindo quentinha do forno.
A Monalisa agora não está mais presa à moldura de um quadro, mas impressa nas capas de cadernos escolares. A melodia clássica saiu das partituras dos grandes concertos, para o sistema de som de um caminhão de gás. Com isso, segundo os críticos, a obra perde a sua singularidade, seu valor intrínseco, sua "aura". A farsa é retratada quando a Indústria Cultural procura qualificar um produto vendável como artístico. Nivelar por baixo.
Um nivelamento que promove a cantor, um palhaço que não tem nenhuma formação e talento musical. Que aplaude um belo corpo excitante aos olhos do público, mas que subestima a capacidade intelectual do mesmo. Que torna um best-seller sinônimo de uma grande obra literária. Enfim, o valor artístico, inerente é suplantado pelo valor estético, pela embalagem.
A Indústria Cultural funciona com uma sinergia invejável. O desconhecido que ganha o
reality show vira garoto propaganda. A beldade após sair da frente das câmeras indiscretas do "grande irmão", pousa sem roupa para lentes nada recatadas. Quem sabe, devido ao seu carisma - ou a suas curvas - ela não seja promovida cantora, apresentadora ou âncora de telejornal. Tudo depende da procura do mercado. Um produto é lançado, mantido ou tirado, conforme a estratégia de marketing.
A cultura individualista
O filósofo Olavo de Carvalho coloca muito bem os dois prismas do jornalismo cultural. Quanto atividade comercial e técnica precisa cumprir prazos, tamanhos e formatos. Porém, quanto editoria tem de fazer juz, tratar com especificidade o assunto. No entanto, o primeiro aspecto deve ser submisso ao segundo. Portanto, a técnica e os interesses econômicos devem ser submissos à contribuição cultural.
Todavia, muitos fatores conspiram contra a autonomia na análise da produção cultural. O jornalista José Geraldo Couto aponta no mínimo três. Primeiro a obsessão pelo furo. Na busca do inusitado, de sair na frente, o articulista faz uma análise superficial. O veículo concorrente, que perdeu o furo, finge ignorar a pauta e não publica nada para não ficar por baixo. Resultado: público duplamente prejudicado.
Outro jogo de interesses ocorre entre redações e assessorias de imprensa. Por vezes, assessores e produtores de determinado artista barganham com os jornalistas. Viagem paga em troca de fulano na capa. Despesas pagas para o veículo cobrir determinado evento, que diante de tanta "cortesia", é publicado. Tal prática só reforça um mercado descomprometido socialmente.
No exterior, o repórter que cobre uma pauta cultural, não é o mesmo que escreve a matéria. Isto contribui de certa forma, para diminuir a tendenciosidade e tornar mais transparente e amigável a relação do jornalista e a sua fonte. Aqui é diferente, o mesmo repórter que se encanta na entrevista com o artista, é o que joga confete na hora de o analisar. O mesmo que "descasca" o beltrano, é o que vai entrevistá-lo depois. Tais circunstâncias geram mal estar de ambos os lados.
Omissão social
A ideologia subserviente ao capital se reflete na prática. O jornalismo cultural tem por função, muito mais do que informar uma agenda de eventos, analisar a produção cultural. Quando o jornalismo se omite neste aspecto, acaba se tornando uma propaganda sutil, uma extensão da publicidade da obra em pauta.
Além do mais, por vezes, sob a bandeira da editoria de cultura, a escória midiática ocupa um espaço que não deveria lhe pertencer. Quando se abordam filmes, por exemplo, gasta-se metade dos toques com a intimidade do ator ou atriz. Os casos amorosos do artista são destaque. A película que bate recordes de bilheteria é pauta, sendo que a sua relevância cultural é pouca. Para não dizer nula.
Certamente que fazer jornalismo sem abordar o imaginário coletivo é utópico. Portanto, colocar os produtos da Indústria Cultural em pauta é mais do que razoável. O duro é ser conivente com eles, ser acrítico. A imprensa cultural está aí para popularizar o que é de bom gosto e crucificar o que é lixo. Tão importante quanto estar em pauta é o que diz a pauta.
O jornalismo autêntico é um serviço social. Zela pelo público. Tem a função de educar, enobrecer. Ainda mais num País com tantas desigualdades sociais e grandes deficiências educacionais, a imprensa cultural não tem, e não pode, salvar a pátria. Entretanto, deve fazer a diferença. O caminho não é fácil, mas o desafio está lançado. Unir forma e conteúdo. Abordar a cultura pirata. Mas criticá-la, desenvolvendo assim a consciência dos leitores. Abordar de maneira comunicável, acessível, a cultura ainda elitizada, a fim de refinar o gosto do público.
criação: lisandro staut |
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