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Auto-investigação

A princípio, a notícia parecia mais estarrecedora que o assassinato de Tim Lopes. Um jornalista piauiense fora vítima das denúncias de corrupção contra políticos. O resultado das contundentes críticas do repórter terminou em um atentado, quando "capangas dos acusados" crucificaram-no.

O caso ocorreu em uma zona rural de Joaquim Pires, Piauí, em 4 de outubro de 2002. Moradores da região encontraram o jornalista Antônio Felipe Santolia Rodrigues baleado e crucificado, envolto em arames-farpados. Segundo Rodrigues, a cena receberia contornos dantescos se os populares não o libertassem. Seus algozes pretendiam retornar ao local e atear fogo ao corpo ferido.

Após a selvageria repercutir pelo mundo afora, inclusive com citação e protestos no site Repórteres Sem-Fronteiras como mais um exemplo de intolerância contra a imprensa brasileira, Rodrigues se transformou em réu. O tiro, ou melhor, a crucifixão, saiu pela culatra.

Ocorre que o delegado encarregado de investigar o crime descobriu que a história não passava de armação do repórter com o objetivo de se tornar famoso perante os políticos de oposição. Sua irresponsabilidade, somada à falsa comunicação, o conduziu ao Gólgota da Justiça. Carregará para sempre a cruz do ridículo e inconseqüente ato.

Tal qual Rodrigues, há milhares de jornalistas dispostos a virarem estrelas da noite para o dia, sem medir as conseqüências. Até poderão ser estrelas, mas não de primeira grandeza. Estrelas anãs, cujo brilho se apaga lentamente. 

As estrelas anãs são frias. Jornalistas dessa estirpe permanecem no ostracismo da fama. Neles inexiste vigor, calor, ética, moral. Semelhantes a Rodrigues, armam seu próprio cadafalso.

Aquele que pretende se embrenhar na arte do jornalismo investigativo tem por obrigação primordial analisar seus códigos de conduta individuais. Sem isso, a cruz da má formação profissional ficará cada vez mais pesada.

dargan_holdorf@hotmail.com



criação: lisandro staut