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Correndo riscos

Analisar o desempenho da mídia é uma tarefa suave. Por outro lado, criticar a atuação da imprensa brasileira pode se transformar num fardo após prováveis contra-ataques virulentos. E o exemplo mais recente teve como vítima todos os que ousaram opinar no caso Larry Rohter versus Lula.

Exercer a função de ombudsman na grande imprensa recebe o respaldo de uma possível credibilidade construída durante décadas. Tal afirmativa não se coaduna com os sítios críticos que monitoram o papel da mídia, na visão dos tradicionalistas e antiacadêmicos. Dois movimentos afloram nessa questão: os que vivem apontando o dedo em riste contra as universidades e os contrários ao diploma, cujo ego e estrelismo não permite a estudantes, professores e pesquisadores qualquer crítica.

Os que defenderam a expulsão do correspondente do Times sofreram até mesmo ameaças de descredenciamento profissional, de irem parar na lista de predadores do sítio dos Repórteres Sem Fronteiras e de serem expurgados das redações. Aqueles que abraçaram a causa da liberdade de expressão receberam o rótulo de antipatriotas, ianques enrustidos, defensores da causa judaica do Times e outras besteiras.

Nas duas vertentes faltou posicionamento ético e uma análise mais séria de questões jornalísticas. Por exemplo: por que Rohter não ouviu o outro lado, a versão do presidente. Afinal, Rohter tinha tanto o dever de fazer corretamente a lição de casa quanto o presidente o direito de se defender das insinuações.

Na semana passada, o comentarista Arnaldo Jabor teceu ácidos comentários ao posicionamento da governadora Rosinha Matheus em promover o ensino do criacionismo nas escolas públicas do Rio. Suas farpas se dirigiram contra os criacionistas, quando os rotulou de medievais. Aproveitando o tema, a revista Época gastou papel discorrendo sobre o polêmico assunto. 

Ambos perderam o espaço e o tempo de denunciar e expor à sociedade o verdadeiro problema gerado pela governadora. Não cabe à mídia determinar e concluir se o evolucionismo ou o criacionismo tem razão. A questão primordial se refere ao fato de o Estado legislar leis de interesse religioso. Aí se encontra o grande risco. Primeiro abriram as porteiras das medidas provisórias para os feriados. Começou com o Natal, depois veio a Páscoa, em seguida o da padroeira e finalmente o de um tal de Corpus Christi. O que virá depois disso? O fim da liberdade de consciência?

Que não se enganem esses jornalistas irresponsáveis, endeusados pela comprometida imprensa nacional. Se permitirem mais esse descalabro contra o laicismo do Brasil, em breve eles contemplarão ao vivo e em cores a derrocada da liberdade de imprensa. 

dargan_holdorf@hotmail.com



criação: lisandro staut