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Mídia inquisidora

Desde 1517, quando Lutero pregou as 95 teses na porta da Catedral de Vitembergue contra os desmandos da Igreja Católica, os ânimos se acirraram entre protestantes e romanistas. A nascente imprensa libertária do século XIX, apoiada pelos ideais iluministas, socialistas e positivistas, entrou na briga quando Pio IX escreveu em sua encíclica de 1854 que "as doutrinas ou extravagâncias absurdas e errôneas em defesa da liberdade de consciência, são erros dos mais perniciosos - uma peste que, dentre todas as outras, mais deve ser temida no Estado". 


Mais adiante, em 1864, o papa resolveu excomungar "os que defendem a liberdade de consciência e de culto", bem como "todos os que afirmam que a Igreja não pode empregar a força", decisão que abala até hoje o relacionamento entre os que apóiam a condição laica do Estado e os adeptos do vínculo religioso.

O Vaticano jamais retificou essas infelizes e falíveis declarações do pontífice, tampouco os protestantes mais conservadores baixaram a guarda ou perdoaram as ofensas. Em tempos modernos, deixando a brutalidade medieval de lado, a imprensa passou a ser o palco de trocas de acusações, calúnias, difamações, injúrias e perjúrios de ambas as partes, conforme os interesses em jogo. Analisando sob o prisma da imparcialidade, melhor assim, apesar de, em diversos momentos, o jornalismo irresponsável, instigado por religiosos indignos do nome, incitar e apoiar perseguições contra minorias.

Caso interessante se dá no The New York Times, pertencente a judeus, cujas matérias são apuradas por protestantes e editadas por católicos. Uma parceria e tanto. Nos grandes veículos dos Estados Unidos e Europa, muçulmano não tem crédito. Já no Brasil, as minorias protestantes ou evangélicas recebem o descarte preconceituoso da mídia. Mesmo que a mídia se autoproclame laica, ateísta, agnóstica, isenta, a tendência é sempre o atrelamento com a religião majoritária no País.

Às minorias e aos evangélicos resta o reles espaço nas suas mídias, cujas reportagens ou artigos só alçam vôo na grande imprensa quando criticam o catolicismo. Entenda-se como "alçar vôo" o contra-ataque do cardinalato nacional. Exceção de grande mídia seja feita à Rede Record, apesar da qualidade duvidosa de sua ordinária programação.

Em vez de se preocupar com o papel social, o olhar da mídia se volta à avidez comercial. Afinal, muitos anunciantes abandonam as agências que inserem a veiculação de publicidade em jornais, tevês e rádios suspeitos de intolerância. No Brasil não há medicamento que cure ou pelo menos amenize esse mal. A mídia local continua se arrogando o direito de julgar quem não se alinha ao pensamento da maioria.


dargan_holdorf@hotmail.com



criação: lisandro staut