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Pensando pouco, falando demais
As justificativas estapafúrdias do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Maurício Corrêa, defendendo o direito a 60 dias de férias para os magistrados, revelam a distância entre os detentores do poder e a plebe. O distinto ministro advoga a necessidade de descanso se fundamentando em recomendação médica.
O receituário médico deles aconselha dois meses de regalias físicas devido
ao constante uso da massa encefálica. Ao tentar demonstrar as razões desse estranho procedimento, o ministro escancara a existência, segundo eles acreditam e desejam impor, de uma casta superior na sociedade brasileira. Maurício Corrêa separa aqueles que "pensam muito" daqueles que "pouco ou nada pensam". Incluem-se aqui, na visão rabular do STF, os estagiários desta revista. Quanto ao professor responsável e diretor de redação, precisa pensar mais, senão continuará a receber menos de 30 dias de merecido repouso.
Desmotivados pelo insuficiente número de dias de descanso, os articulistas do
Canal produziram pouco. Por não usarem o raciocínio com mais freqüência, a revista ficou limitada a 35 artigos, equivalente a 70 páginas de um semanário. Se prosseguirem nesse ritmo, a revista tende a estagnar, seja por carência de articulação mental ou por privação de dias de descanso.
Se o ministro Corrêa procura proteger seus dias de opulência sob o respaldo da medicina, então que se troque o geriátrico e jurássico corpo de supermagistrados do STF por juízes mais novos, robustos, em pleno vigor da
vida, tal qual os futuros profissionais de imprensa desta redação. Se os jornalistas suportam as agruras da pressão nas redações, o fechamento avançando madrugadas adentro, cobertura de férias emergenciais e baixos soldos, por que esses magistrados não podem tolerar e se contentar com míseros 30 dias de férias? Se o volume de processos acumulados na Justiça reduzisse, eles exigiriam seis meses de férias pelo gasto
da massa cinzenta?
Em vez de arrotar por aí suas qualidades e vantagens intelectuais, o ministro deveria controlar seus impulsos. Se a imagem do Judiciário não é das melhores, quanto mais se argumenta em favor de uma causa abusiva, mais cresce a aversão
popular e a descrença na Justiça brasileira. Nesse ínterim, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva é que se mostrou inteligente. Passou duas décadas de sua vida pensando, pensando, imaginando como tirar quatro anos de férias conhecendo o mundo.
dargan_holdorf@hotmail.com

criação: lisandro staut |
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