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Dever
de casa cumprido
Surprendeu-me o perfil geral da edição especial sobre o papa e a imprensa na última edição do
Canal. Por causa do assunto, duplamente polêmico pela natureza do curso e dos alunos, esperava encontrar textos arrogantes, preconceituosos, enfim, depreciativos. Enganei-me. A equipe fez o dever de casa de maneira exemplar. Não que os ânimos exaltados não sejam vistos aqui e acolá, mas o todo reflete a formação de jornalistas responsáveis, que, descrentes da imparcialidade, praticam a transparência e o equilíbrio. A edição, ousada no que diz respeito ao fator "tempo" e "temática", merece sinceros aplausos.
Destaco positivamente os textos "'Chutando' a imagem de novo", de Caroline Ferraz, e a Identidade de João Paulo II, feita por Paulo Mondego. O primeiro artigo, direto ao ponto, estabeleceu com distinção a dicotomia entre a overdose religiosa de algumas emissoras e a irrelevância por parte da Record. A meu ver, destoa apenas a nota da redação, já que refere-se a um conceito completamente distinto do explanado pela articulista. Já Mondego conseguiu atingir a famosa isenção jornalística, retratanto o papa com o respeito que ele merece (independente de credo, João Paulo II era um líder religioso e político como nenhum outro no mundo), sem cair nos extremos do proselitismo ou do preconceito. Parabéns a ambos.
Ponto negativo para a conclusão da resenha do filme Amém, quando a articulista Cléia Kattwinkel escreve que a película é "um retrato fidedigno sobre a indiferença da Igreja Católica para com seus fiéis". Generalizar é um perigo (bem, isso não deixa de ser uma generalização). Expandir o conceito de líderes isolados a toda uma instituição não deixa de ser um erro interpretativo, pois, de acordo com esse raciocínio, a instituição personifica indivíduos. Entender a política interna da Igreja Católica é bem mais complicado e de maneira alguma pode ser resumida nesta frase, precipitada e preconceituosa.
Deixo por fim, uma rápida consideração sobre a cobertura da imprensa na morte do Papa. Como bem lembra o pensador aristocrata francês Alexis de Tocqueville, o cristianismo foi a primeira religião do mundo a utilizar o proselitismo, extrapolando os limites da região em que foi fundado e ganhando mundo.
Não foi à toa, portanto, o que se viu na mídia durante a semana anterior. Ouso afirmar que um dos principais objetivos ali não foi o de informar, mas sim catequizar, expandir o número de fiéis e simpatizantes - em português claro, política. No outro extremo, houve mídias preconceituosas, que relegaram a notícia para cantos secundários. Estas, as "infiéis", também não cumpriram com seu papel democrático, fazendo, isso sim, uma contra-política.
Ambas estão equivocadas. Almeja-se uma imprensa secular capaz de entender a complexidade do mundo em que vivemos. Competente o suficiente para ir além do conceito maniqueísta de bem e mal. Ética o suficiente para guardar para si a crença de que o Espírito Santo move as vestes do papa ou de que o próprio é a encarnação da besta do Apocalipse. As massas, vale lembrar, não têm nada a ver com esses dogmas.
Fernando Torres, é jornalista e mestrando em História.
Bom por completo
Nesse site, todas as matérias são ótimas. "De cabo a rabo".
Adinael Silva
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