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Antologia do cinema brasileiro

Rômulo Gomes

O Cangaceiro, de Lima Barreto
Além dos anéis, Frodo e seus amigos são também os senhores do Oscar, conseguindo premiações em todas as categorias concorridas. E, mais uma vez, os cineastas brasileiros voltam para casa sem a estatueta. Porém o cinema brasileiro nunca mais será o mesmo depois de Cidade de Deus (2002). O verbete "ascensão" nunca fez tanto sentido quanto agora na cinegrafia nacional. Portanto, espera-se muito mais do cinema tupiniquim nos anos que se seguem.

Muita coisa mudou desde a primeira sessão pública de cinema descrita pelo Jornal do Commercio, em 8 de julho de 1896. As primeiras filmagens tratavam de mostrar paisagens e acontecimentos sociais. As imagens tinham prioridade e o enredo ficava em segundo plano.

Os primeiros filmes realizados no Brasil foram caracterizados pelo gênero policial. Os crimes verídicos eram reportados e transformados em filmes de sucesso. A primeira grande película de repercussão foi Os Estranguladores, dirigida pelo italiano Francisco Marzullo, em 1906. Este filme foi a primeira obra de ficção brasileira e reivindica o título de primeiro longa-metragem do mundo, para o formato da época. Vale lembrar que todos os filmes do período eram mudos.

É impressionante como o Brasil se envolveu na vanguarda do cinema mundial. Seis meses após a primeira sessão de cinema na França, feita pelos irmãos Lumière, ocorreu a brasileira. Os Lumière só não vieram ao Brasil para promover o cinema porque, segundo eles, as condições sanitárias do País não eram as melhores - como se eles não fossem franceses. Mas, infelizmente, os brasileiros não permaneceram atualizados por muito tempo.

As décadas de 10 e 20 não propiciaram uma extensa produção cinematográfica, seguida pelos anos 30, que contaram com o advento do som. Mas a baixa qualidade técnica e o uso inadequado dos equipamentos comprometeram muito o resultado final destes filmes. Os problemas de áudio foram superados somente muito tempo depois. 

O primeiro filme completamente sonorizado foi Acabaram-se os Otários (1929), do americano Wallace Downey. Durante este período, o eixo Rio-São Paulo era quase preponderante no País em relação a produção de filmes. A década registrou 70 filmes de longa-metragem. Os gêneros eram dramas, musicais, comédias, filmes históricos e esportivos, estes últimos não muito divulgados.

Chanchadas e dramas

Cerca de 40 anos depois da primeira sessão cinematográfica no Brasil percebe-se uma nova inferência nos padrões de cinema da época. Saem os filmes policiais e surge a tão famosa chanchada, gênero que consolida o cinema nacional e permanece até o seu ápice em 50. Ela une os gêneros e temas da década anterior como, comédias, comédias musicais e os dramas. É basicamente uma "comédia de apelo popular", segundo Sérgio Augusto em seu livro Este Mundo é um Pandeiro - A Chanchada de Getúlio a JK. Pode ser ainda musical, carnavalesca ou não, ao gosto do cineasta.

Carlos Manga, citado no livro Cem Anos de Cinema Brasileiro, de Guido Brilharini, define a chanchada como a história de um mocinho e uma mocinha que se metem em apuros, um cômico que protege os dois, o vilão leva a vantagem, até que o vilão perde a vantagem e é vencido. Tudo recheado de muita música.

O apogeu das chanchadas ocorre nos anos 50. Brilharini diz que a chanchada foi "gestada nos anos 30, nascida nos 40, e alcança pleno desenvolvimento nos primeiros anos da década de 60". Rudolf Piper, em Filmusical Brasileiro e Chanchada, caracteriza o gênero pela sátira, crítica, farsa, burlesco e paródia. Sérgio Augusto complementa com a troca freqüente de identidades e objetos, aliados ao tom parodísticos.

Mas é também nos idos anos 50 que ocorre uma bipolarização entre estética e ideologia. Enquanto na década precedente não são produzidos muitos dramas, nos anos 50 ocorre o ápice da produção cinematográfica das chanchadas e dos bons dramas. 

Neste quadro dramático estão avultados os filmes Rio, 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos, e O Grande Momento (1958), de Roberto Santos. A oposição à estética fluente na época aparece com Estranho Encontro (1957), Fronteiras do Inferno (1958) e Na Garganta do Diabo (1959), todos estes dirigidos por Walter Hugo Khouri. O próprio título transmite bem o conteúdo formal e ideológico, oposto aos citados inicialmente.

Inserção no mapa mundial

Neste período, o Brasil ensaia seus primeiros anseios de obter relevância internacional. O filme da Vera Cruz, O Cangaceiro (1953), dirigido por Vitor de Lima Barreto, destacou-se em Cannes conseguindo uma premiação na categoria "Aventura". Foi o primeiro prêmio internacional de um filme brasileiro.

Nos anos 60, surge o Cinema Novo, sob a égide "uma idéia na cabeça e uma câmera na mão". Seria algo como a maturação de precedentes como Rio, 40 Graus e O Grande Momento. O Cinema Novo se caracterizava pelo estudo, a exploração, a interpretação e a recriação da realidade social do Brasil. E ainda pretendiam revolucionar o contexto social. Glauber Rocha é o grande cineasta do movimento.

Barravento, de Glauber Rocha A partir de então, o Brasil passa a circular definitivamente no mapa mundial do cinema. Brilharini afirma que sem o Cinema Novo, "não teria sido possível nem viável" a inserção do Brasil neste contexto. Vários são os títulos importantes desta época como Mandacaru Vermelho (1960), de Nelson pereira dos Santos, Barravento (1961), de Glauber Rocha, e O Pagador de Promessas (1962) de Anselmo Duarte. Este filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes/1962. 

A década de 70 traz uma marginalização do cinema brasileiro. Todos querem dirigir algum filme e na década seguinte, por amadurecimento ou não, são poucos os filmes produzidos, mas com uma qualidade que se consolida. Entretanto é nesse período que a pornochanchada se estabelece, trazendo para o Brasil a era de filmes volúveis e mal produzidos. O sexo barato é o principal ingrediente dessa receita, vulgarizando o conceito de cinema brasileiro até os dias de hoje. Seu valor diante do mundo minou até os anos 90.

Retomada

Carlota Joaquina, de Carla Camurati Na era do governo de Fernando Collor, o cinema nacional realmente estaca. Devido a uma série de problemas de ordem orçamentária, a produção cinematográfica praticamente deixa de existir. Só em 1994, o filme Carlota Joaquina - A Princesa do Brasil, de Carla Camurati reascende a popularidade do cinema brasileiro. Era o início da retomada.

A produção precária vai sendo aos poucos substituída pela boa qualidade de alguns filmes, que se estruturam de acordo com o cenário europeu. Títulos como O Que é Isso, Companheiro? (1997), de Bruno Barreto, Central do Brasil (1999), de Walter Salles, e Carandiru (2003), de Hector Babenco, retratam a sociedade brasileira como as pessoas não estão acostumadas a ver. Nesse ínterim, o sucesso do cinema no Brasil e no exterior é fruto de duas situações distintas: os temas propostos e o marketing dirigido a esse setor.

O cinema só conseguiu se estabelecer no nestes últimos anos por a causa do aumento da assiduidade dos brasileiros ao cinema. Na edição de 7 de maio de 2003 da revista Carta Capital, foi demonstrado que o sucesso de Carandiru foi muito maior nos shoppings mais pobres da cidade do que nas áreas mais nobres. Isso porque boa parte do público estava interessada em se contextualizar com os acontecimentos, de se encaixar de alguma forma nos moldes produzidos. É como se a história de toda uma nação se convergisse no próprio público individualmente.

O mesmo ocorreu com Central do Brasil. O filme foi projetado em vários lugares e reportado em todo o Brasil. Isso fez com que além de promover o filme as pessoas envolvidas tomassem conhecimento de sua amplitude.

Deus é Brasileiro (2003), por sua vez, não conseguiu ter uma abrangência tão popular quanto à de Carandiru. O filme de Cacá Diegues era voltado a uma fatia mais nobre e culta da sociedade, incomparavelmente menor. Tal fato, não permite a inserção da grande massa no cinema. É um raciocínio bem simples.

Em contrapartida, por que os filmes estrangeiros fazem tanto sucesso no Brasil? A publicidade tem um papel fundamental nesse processo. No caso dos americanos, há uma gama de pessoas especializadas na parte de divulgação e promoção dos filmes. A patota que hoje toma conta do cinema nacional - Walter Salles, Fernando Meirelles, Bruno Barreto, entre outros - também tem um envolvimento muito grande com a publicidade. Não só eles, mas toda a equipe correspondente, a direção de fotografia, de som e produção. Tudo isso é muito estudado para causar efeito.

Função social

A função social desempenhada por este tipo de filme, como Carandiru, Central do Brasil, Cidade de Deus e outros do gênero incide sobre a forma de demonstrar como as pessoas devem reagir a determinados assuntos. Assim como os movimentos literários transmitiam certos sentimentos, o cinema tem a mesma tendência.

No Romantismo, por exemplo, o senso lúdico era mais valorizado. Já no Naturalismo, havia destaque para a condição física dos seres, enquanto no Realismo a constituição mental fidedigna das pessoas com seus defeitos e qualidades era aplaudida pelos críticos visionários. No Modernismo isso mudava novamente.

O cinema brasileiro também está num processo de transição para os moldes em voga atualmente. Se vai ser essa brutalidade que vai vender ainda não se sabe, mas tem dado certo. Outra alternativa é o "televisionamento" do cinema, com filmes do tipo A Taça do Mundo é Nossa (2003), de Lula Buarque de Hollanda, e Sexo, Amor e Traição (2004), de Jorge Fernando. Em suma, nada mais que episódios especiais da Rede Globo.

Atualmente, o cinema nacional vive uma fase de euforia, antevendo situações cada vez melhores. Entretanto, a forma como isto está sendo feito merece ser discutida e estudada. Como o conteúdo está sendo trabalhado para que o público possa estar pronto a compreender e não se entusiasmar demais com os fatos?

A sociedade pode mesmo estar sendo apenas estimulada pela emoção sem compromisso com a atitude e a razão. Afinal, vive-se numa "sociedade do espetáculo", valendo-se aqui da máxima da obra de Guy Debord. Por ora, o cinema brasileiro ainda não compreendeu que chocar é fácil; o difícil é se fazer compreender.

                   

criação: lisandro staut