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Duas décadas de incertezas

Cléia Kattwinkel

"Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer." (Geraldo Vandré).

O que você pensaria se encontrasse hoje, neste espaço, uma receita de bolo ou, quem sabe, um enorme espaço em branco? E se precisasse calcular formas camufladas para expressar o que pensa, ou ter uma canção censurada como foi o caso de Para não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré? E se você, ao denunciar a sujeira política, corresse o risco de ser exilado como foram Cláudio Abramo, Elio Gaspari, Paulo Francis, entre outros? Ou, quem sabe, ser torturado e perder a própria vida como aconteceu com Vladimir Herzog em outubro de 1975? Qual a diferença entre o jornalismo de hoje e o de vinte ou trinta anos atrás? O que será que nossos pais e avós pensavam quando encontravam receitas de bolo misturadas com notícias de política, economia ou esporte?

Hoje, editor algum nem pensa em permitir que algum espaço seja deixado em branco no jornal, simplesmente porque em qualquer mídia espaço significa dinheiro, e não existem órgãos governamentais ditando o que pode ser publicado ou não - ao menos na teoria. Por isso, é que se tem a nítida sensação de uma época de liberdade de expressão assegurada pela democracia.

Mas que tipo de liberdade é essa? Liberdade de expressão para quem ou para quantos? Quem tem a real possibilidade de expressar o que gostaria que outros soubessem em âmbito nacional, estadual ou mesmo municipal? O que a minoria usuária da mídia comunica é realmente a expressão das diversas correntes de pensamento que circulam entre a sociedade? É do conhecimento da população que a grande mídia serve aos mais diversos interesses econômicos e políticos, menos aos interesses da classe marginalizada da sociedade. A maioria dos políticos é proprietária de veículos de comunicação ou tem algum tipo de ligação com eles, o que compromete a integridade da democracia pela qual se lutou tanto.

Riscos e guerras

Durante a ditadura, o jornalismo era muito mais decidido, tinha uma causa definida pela qual lutar e conseguia meios de transmitir seu recado sem dar importância às conseqüências, nem que, para isso, fosse necessário ficar em silêncio. Silêncio este, muito bem-entendido e traduzido em espaços em branco ou em receitas de bolo, atitude que demonstrava a resistência a um regime perverso e a luta para a redemocratização da nação. O jornalista ia contra sua própria empresa jornalística se isso significasse manter seus ideais. Foi o que aconteceu com Mino Carta, na revista Veja, e outros que foram despedidos porque se mantiveram firmes enquanto os patrões cediam às pressões da censura.

Luís Nassif, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de S. Paulo, faz uma análise que resume as mudanças pelas quais os perfis social e jornalístico passaram nas últimas décadas do século XX. Nassif define o jornalismo de 1970 como sendo uma parte de adesão e outra de resistência quando o jornalista escrevia para a grande imprensa e fazia denúncias para a imprensa nanica. O ano de 1979 foi o ano recorde em greves dando um vislumbre de abertura política. Já 1980 é descrito como uma época de reação em que o jornalismo por meio de denúncia ajudou a implantar as diretas e apressar o fim da ditadura.

A sociedade também se movimentou. As pessoas passaram a lutar pelos seus direitos como consumidores, contribuintes e cidadãos e a opinião pública moderna conquistou definitivamente seu espaço. Nassif define o jornalismo desta década como "jornalismo de risco e de guerra onde a notícia estava a serviço do proselitismo político, não do rigor jornalístico".

Então vieram os anos 1990, e o jornalismo, depois de tantas conquistas, já se sentia seguro o suficiente para dizer o que bem entendesse. Esse período é descrito por Nassif como o "jornalismo da onipotência e da impunidade". Ele afirma que durante a campanha do impeachment, jornalista que estivesse incumbido de fazer a cobertura e não tivesse notícia, inventava. 

O baixo nível do jornalismo, que não sabia gozar com maturidade a recém-conquistada liberdade, não se conteve com a saída de Collor da Presidência. Seguiu seu trajeto procurando histórias espetaculares e fazendo vítimas como o Caso Escola Base, Alceni Guerra, entre tantos. Assim, na luta pela audiência ou vendagem, cedendo aos impulsos sensacionalistas e irresponsáveis, a mídia assume uma nova e ousada postura: a de julgar os casos polêmicos, função que caberia somente ao Judiciário. 

Ditadura interna

Ao analisar o jornalismo corrente é possível observar questões que vão além dos abusos praticados pela falta de ética - não desmerecendo a importância desta. Mas o que atualmente se vê na mídia é a simples repetição do que se fez durante a ditadura, com a diferença de que o sujeito repressor não é mais o governo, e sim o capital financeiro que decide o que a grande mídia deve dizer à massa. Embora ninguém seja exilado por sustentar idéias consideradas subversivas, jornalistas que não se adequam à "linha editorial" do veículo em que trabalham, perdem espaço. 

Como sempre aconteceu, a grande mídia está a serviço de quem está no poder. Mesmo que a proposta de ter uma mídia estatizada, como sugeriu Lênin em Informação de classe, não combine com a realidade brasileira, pois não vivemos o socialismo, devemos admitir que ele fez uma leitura no mínimo interessante sobre o que é o jornalismo à mercê do capitalismo. 

Segundo ele, o capitalismo transforma os jornais em empresas capitalistas, em instrumento do lucro, de informação e divulgação para os ricos, de engano e embrutecimento para as massas trabalhadoras. Apesar do conceito não introduzir nada diferente do que na teoria já nos acostumamos a ouvir, e na maioria das vezes concordar, ao analisarmos detidamente o que isto significa, temos a sensação de que todo nosso esforço de fazer um jornalismo justo e democrático é utópico.

No livro, Dependência ou morte, a jornalista Vera Lúcia Rodrigues questiona se seria possível haver liberdade de imprensa no Brasil sem liberdade social e econômica. Para ela, a questão da independência transcende ao sistema político no qual a imprensa se movimenta. O problema agora se concentra na mercantilização da informação, o que afasta ainda mais a possibilidade de participação democrática na mídia. 

Um sentido amplo

Na verdade, mesmo que se interessasse em servir unicamente aos cidadãos, a imprensa do sistema capitalista não têm muitas opções de sobrevivência, uma vez que o brasileiro não tem o hábito de ler, e mesmo que tivesse, o capital gerado com a venda não seria o suficiente para cobrir o custo da produção de um jornal diário. Em outras palavras, a imprensa depende quase que totalmente do capital arrecadado com publicidade, e todos sabem que quem paga é quem manda, embora esta relação não se estabeleça na superfície das relações entre jornalismo e publicidade. 

Como exemplo clássico podemos citar o que aconteceu com o Jornal da República, criado em 1979 por Mino Carta (ver entrevista), e mais alguns jornalistas que pretendiam aproveitar a lenta abertura política para fazerem um jornalismo independente. O resultado foi que o jornal não pode sobreviver por uma série de fatores, mas especialmente porque não tinha uma linha editorial definida e, portanto, não conquistou um perfil de anunciante definido. 

Qual seria então a possibilidade de democratização da informação? Para Vera Lúcia, libertar-se da forma capitalista de fazer jornal não significa fazer jornalismo objetivo e imparcial, o que também é algo utópico. Antes, significa valorizar de forma diferente e sob outros critérios a divulgação de notícias. Significa criar condições para que a notícia seja manipulada por diferentes linhas editoriais. Ou seja, proporcionar a produção de "veículos solidários" que permitam a representatividade de ideologias na mídia, e que o leitor, ao entrar em contato com estas diversas facetas da notícia, possa, por si próprio, chegar a uma conclusão do que isto significa para sua realidade. Só então poderemos comemorar a democracia em seu sentido mais amplo.