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175
anos de conspiração
Rômulo
Gomes
Há 175 anos, um idealista atuante deixava o Brasil mais pobre. Um homem preocupado em sanar problemas que transcendiam limites
continentais ou patrióticos. Um médico italiano preocupado com a situação política e social numa terra que nem lhe pertencia, e que achou no jornalismo a forma de lutar pela reconstrução deste quadro. Giovanni Baptista Líbero
Badaró foi uma personalidade marcante para os brasileiros, e nem mesmo pertencia a este povo.
Após o Brasil se tornar independente de Portugal, a centralização do poder político foi muito contundente, de extrema direita, quase absolutista. Algumas pessoas não concordavam muito com esta postura. Era a época dos liberais. Profissionais, jornalistas ou não, que lutavam por um governo mais democrático e acessível. Líbero Badaró dedicou sua vida - e a sua morte - para esta causa. Seu ideário jornalístico, quase apaixonante, revelava o compromisso com o povo que ele havia adotado e que jamais abandonou durante sua atuação profissional e social. Mesmo depois que foi assassinado, em 20 de novembro de 1830, por ordem de dom Pedro I, imperador do Brasil.
Os feitos de Líbero Badaró são quase esquecidos por boa parte dos profissionais da imprensa, e praticamente desconhecidos pelo público em geral. Mas eles vêm à tona quando se discute o compromisso do jornalismo com o público e a sua responsabilidade social.
Badaró se envolveu com o jornalismo no Brasil inicialmente no Rio de Janeiro, mas só viu uma idéia nascer. Ele começou a promover discussões liberalistas durante o período em que comandou o
Observador Constitucional, o segundo jornal criado no Estado de São Paulo - na época, província. Badaró recebeu o convite de José da Costa Carvalho, que era o diretor do primeiro jornal instituído no estado o
Farol Paulistano, criado em 7 de fevereiro de 1827.
Durante o período em que esteve dirigindo o Observador, Badaró fez profundas modificações na consciência social. O historiador Nelson Werneck Sodré afirma no livro
A História da Imprensa no Brasil (1999, 4.ª edição), que o trabalho de Badaró estava "revolucionando a cidade, hostilizando o bispo, o ouvidor o presidente e entrando na luta pela imprensa".
Tanto o seu lado profissional como humanista foram determinantes para a sua glória e martírio. A junta governativa do período imperial era como o DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda, de Getúlio Vargas. A fiscalização e repressão já era grande naquela época. Mesmo os jornais manuscritos eram fiscalizados por um governo que caminhava para uma extrema direita política. A função social do jornalismo e a busca por mudanças sociais criou o que Werneck Sodré chamou de "um jornalista que as lutas do tempo celebrariam e sacrificariam: Líbero Badaró".
Para a estudante Letícia da Silva, em artigo publicado no Monitor de Mídia, a "imprensa tem a função de fiscalizar o poder e estabelecer-se como instituição de cidadania". Era o que Badaró pretendia com o
Observador. Letícia lembra ainda que o profissional deve manter a ética zelando pela neutralidade, já que a imparcialidade é impossível de ser atingida. "Outro compromisso com o público é a objetividade, a neutralidade. No entanto, antes do profissional, existe o cidadão jornalista. Este tem princípios, valores e ideologias próprias", afirma Letícia.
Todo tipo de serviço é voltado a um público. Os valores dos jornalistas estão talvez ainda mais ligados nesta intenção. Para Letícia "atender ao interesse público é a meta jornalística. Qual o interesse público? Qual o limite entre interesse público e interesse do público? Eis outro dilema ético". Esta é uma grande preocupação.
Concorrência "social"
Infelizmente, a história glorifica somente Badaró e se esquece de outras circunstâncias que também comprometem a identidade profissional do jornalista. Os jornais da época - no caso os pasquins - se preocupavam com o resultado social de suas publicações, não com os financeiros. Este foi um dos anseios de José da Costa Carvalho, que após fundar o primeiro jornal de São Paulo, chamou o concorrente que fundaria o segundo, Badaró.
Esta iniciativa de incentivar a concorrência é determinante para transparência de um jornal como vendável ou responsável socialmente. Atualmente, o monopólio da mídia gerou um descrédito nos jornalistas que preocupa os profissionais. É o que averiguaram os jornalistas norte-americanos Bill Kovach e Tom Rosenstiel. Segundo pesquisa relatada no livro
Os Elementos dos Jornalismo (2003) cerca de 21% dos americanos acreditavam que a imprensa estava preocupada com as pessoas em 1999. Catorze anos antes, este número era quase o dobro. A pesquisa vai além destes dados.
Também em 1999, apenas 85% das pessoas respeitam o papel de vigilância da imprensa. Já em 1985, esse número era de 67%. Menos da metade da população, 45 por cento, acreditava que a imprensa protegia a democracia e esse número era dez pontos percentuais mais alto em 1985.
O contraste com a situação do Observador Constitucional, de Badaró e o
Farol Paulistano, de Costa Carvalho com a realidade da concorrência atual é gritante. O crédito destes, e de outros veículos, era tão grande que segundo Werneck Sodré o cerceamento da liberdade na corte e em províncias que não tinham imprensa aconteciam com mais facilidade. Ele relata que "particularmente, naquelas
(províncias, estados) em que havia imprensa, a luta foi prolongada".
Outra comparação semelhante ao fato de Líbero Badaró ter sido chamado para trabalhar em São Paulo pelo dono de um outro jornal é a concorrência. É provável que Costa Carvalho não estivesse dirigindo mais o Farol quando depois de dois anos do surgimento do primeiro, chamou Badaró para São Paulo. Não há registros, mas estes jornais duravam pouco tempo por causa dos custos e repressão política. Mas, se os dois veículos fossem contemporâneos seria uma façanha. Hoje, a teoria econômica chamaria isso de incentivo à concorrência. O que dificilmente acontece hoje.
No editorial do programa Observatório da Imprensa na TV, de 16 de outubro de 2001, o jornalista e apresentador Alberto Dines comentou a necessidade de concorrência. "É o leitor que nos interessa". Para ele, "diminuindo a concorrência num setor estratégico como a imprensa, estamos fechando os horizontes da opinião pública". Com isso acaba-se com importância social do jornalismo.
Comprovando essa preocupação, o editorial de O Estado de S. Paulo de
13/1/03 mostrou interesse na discussão quando comentou a concentração de propriedades de rádios no Estados Unidos. No editorial, foi mencionado que "hoje
(em 2003), em quase metade dos maiores mercados norte-americanos, as três maiores empresas controlam nada menos que 80% dos ouvintes de rádio". O editorial afirma ainda que as duas maiores companhias do setor aumentaram em mais de mil
por cento o número de emissoras em seis anos.
Isso provocou grande turbulência no meio jornalístico. Por um lado, sem se desenvolver plenamente os veículos atrofiam e somem. Por outro, se não crescerem correm o risco de se tornarem somente "homens de
negócio", alarma Rosenstiel e Kovach.
No prefácio da edição em português do livro de Rosenstiel e Kovach, o jornalista da
Folha de S. Paulo Fernando Rodrigues afirma que no Brasil "não é diferente. Editores e diretores de redação gastam grande parte do tempo cortando orçamentos de viagens, custos de coberturas e pensando em como produzir mais com menos jornalistas". Para ele, o quadro é irreversível dentro dos meios de comunicação.
Impasse moral
Mesmo que não haja meios de medir como um jornal realiza sua função social, ela pode ser percebida pela realidade em que se insere. Quando não há muitas revoluções, provocações e inconformismos a situação é preocupante. Pois o conformismo sugere uma paz e exclusão de problemas que fariam o jornalismo e outras instituições sumirem. Se existir em excesso, pode parecer apologia a anarquia.
Mas o interessante na vida de Líbero Badaró era que ele acreditava que podia mudar o seu País, que a partir de então, era dele mesmo. Seus intuitos em informar com responsabilidade e buscar transformar a realidade, transformou-se na égide que mantém a sua lembrança. Dizer que os jornalistas devam ser semelhantes seria ufanismo demais. Se fosse assim, só haveria mártires memoráveis e não obras concretas.
O movimento do "Sete de Abril", quando o imperador dom Pedro abdicou do trono, foi realizado. Segundo Werneck Sodré, foi graças ao "papel principal" realizado pela imprensa. Mas algumas perdas não foram comemoradas. Devem ser discutidas e repensadas para não serem esquecidas.
Por ocasião do assassinato de Badaró, o Oficial da Guarda Imperial, João Hilário, que admirava muito o imperador, pediu demissão pessoalmente ao imperador. O jornalista e escritor Carlos Sussekind em
Salvador de Mendonça: democrata do Império e da República (1960) conta como foi a reação dele ao saber que o representante dos brasileiros no mundo mandou assassinar Líbero Badaró. João Hilário tomou a voz dos cidadãos e disse que "amara o
príncipe que fizera a independência de sua terra, mas não podia amar o imperador que perseguia patriotas cujo único crime era serem brasileiros".
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