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Papa
na língua da mídia
Dayse
Bezerra
Na vida e na morte, o papa João Paulo II entrou para
a História como o "homem da mídia". Em suas aparições públicas, viagens, missas e encontros, além da companhia de seus fiéis, o papa sempre esteve acompanhado pela imprensa mundial. Uma mídia com olhos bem-abertos, por meio de lentes fotográficas e câmeras filmadoras. Incluindo a língua comprida dos jornais, revistas e livros publicados da biografia do líder religioso. A imprensa fez de tudo para registrar cada palavra, gesto e ação do pontífice mais fotografado, filmado e comentado do mundo.
O polonês Karol Wojtyla, falava do benefício que os meios de comunicação podem exercer na divulgação da religião: "A televisão é um instrumento a serviço do bem comum. Não pode servir somente a interesses comerciais ou tornar-se um instrumento de poder para alguns grupos econômicos ou
políticos."
Mesmo obtendo benefícios da imprensa, em 2005 o papa fez uma alerta aos meios de comunicação. Em sua última carta apostólica, a
45.ª de seu papado, pede aos meios midiáticos que promovam justiça e solidariedade. O documento intitulado "O Rápido Desenvolvimento" declara a televisão como sendo um "instrumento para agressões pessoais, um lugar para denegrir os outros e fórum para conflitos vulgares e de mau gosto".
Verdadeiramente João Paulo II se tornou um ícone popular, aliado às influências religiosas e políticas, ao discurso pela paz entre os povos e religiões e
às demonstrações de carisma e determinação. A revista
Veja, em edição "Histórica Especial" (13/4), fez uma retratação de toda sua vida, popularidade, momentos antes da sua morte, após sua morte, o ritual fúnebre e o futuro da Igreja Católica com a eleição do novo papa no Vaticano. Na reportagem, "A morte de um forte", mostra "uma imagem eletrônica onipresente nos quatro cantos da
Terra". E quem fazia o intermédio desta "onipresença"? A imprensa.
A era tecnológica dos computadores alcançou o Vaticano desde o início de 1990. A modernidade dos meios de comunicação
recebeu força principalmente em 2001, com o surgimento da internet no papado de João Paulo II.
Nos últimos anos, a imprensa particular do Vaticano era a TV italiana, responsável de cobrir as cerimônias protagonizadas pelo papa, filmando e gravando os discursos que
receberam espaço na mídia local e mundial. Com o declínio físico que o
mal Parkinson lhe afetara, a hipótese de renúncia do pontífice surgira no noticiário em 1996. A notícia ganhou repercussão após João Paulo II declarar em público que "seria bom que o papa pudesse assistir
à eleição de seu sucessor".
O que poderia ser considerado uma invasão de privacidade explorada pela mídia, com o papa João Paulo II foi diferente, pois não fugia e nem se escondia da imprensa. Sua popularidade foi confirmada numa pesquisa realizada em meados dos anos
1990, revelando que o papa João Paulo II era o homem mais conhecido do mundo.
Em sua última aparição em público, em 6 de abril, mesmo com estado de saúde crítico, o momento se transformou numa poderosa mensagem de dor e agonia, quando tentou fazer uma
bênção a multidão que clamava por seu nome, na Praça de São Pedro.
Certamente, não foi somente a multidão que gritava pelo nome de João Paulo II. A imprensa esperava em prontidão por uma pequena aparição - talvez a última, como assim aconteceu -,
suficiente para captar as palavras e gestos da fragilidade do papa.
A Veja estampou como imagem de capa (6/4) a cena de dor de João Paulo II do fotógrafo
italiano Pier Paolo. Uma foto elogiada, mas também muito criticada pelos leitores. E como forma de explicação da foto publicada, na seção Cartas de 13/4, a
Veja se defendeu ao dizer que não foi uma foto fortuita do pontífice, sendo que ele próprio decidiu expor seu estado terminal: "Manifestamente o papa quis que aquele momento de dor se tornasse
público." Graças à mídia, isso aconteceu fielmente.
Unindo povos e poderes
Depois de confirmada a morte do papa que durou vinte seis anos de pontificado, a imprensa acompanhou cada passo da cerimônia
fúnebre até o enterro. Uma cobertura jamais vista em outra ocasião fúnebre. Para o professor de
Fotojornalismo do Unasp, Rogério Sorvillo, a imagem que mais lhe chamou atenção foi
a foto de Bill Clinton, o presidente George W. Bush e seu pai, George Bush,
ajoelhando-se durante o velório em frente ao esquife. Sorvillo declara que a imagem marcou devido à crença religiosa destes representantes americanos: "Ver eles ajoelhados perante o caixão demonstrou o poder superior do Vaticano sobre o mundo, capaz de unir povos e
religiões."
Os canais de televisão brasileiros pararam em razão - e sobre - da morte do papa. Quem se destacou foi a
Globo que, antes mesmo do veredicto final, já tinha preparado suas reportagens especiais sobre o assunto. No
Jornal Nacional do sábado (2/4) em que o papa morreu, o jornal
durou uma hora e vinte e cinco minutos, somente com reportagens e notícias do falecimento de João Paulo II. O que para muitos telespectadores foi uma cobertura inédita, para outros foi um tremendo exagero.
O jornalista e professor de Telejornalismo do Unasp, Laerte Lanza, destaca um pouco dos exageros e do teor de parcialidade na cobertura da mídia brasileira. Principalmente no sentido de deixar de lado o contexto nacional político, econômico e social, para noticiar apenas notícias a respeito da morte do papa. "Não que o assunto devesse ficar de fora,
mas houve uma superexposição da mídia que deixou de lado os assuntos internos do País", salienta Lanza.
As rádios não deixaram de noticiar a morte do papa, sempre acompanhada de críticas sobre o assunto. Os impressos abordaram o assunto de
modo informativo, nada imparcial.
No entanto, não anularam outros assuntos relacionados ao cenário brasileiro. Exemplo disso foi o jornal
O Estado de S.Paulo (5/4) que fez suas homenagens na Editoria
Internacional: "O adeus ao papa". Não deixou de ser pauta por mais de duas semanas.
Dos quatro cantos do mundo
Além dos peregrinos, nas ruas de Roma estavam mais de quatro mil jornalistas vindos de todas as partes, desde a gigante emissora de TV americana ABC, até os árabes do canal
Al-Jazeera. Cada veículo de comunicação noticiou o acontecimento, alguns com mais ênfase,
outros simplesmente noticiou sem muitos destaques.
Em Portugal, um país quase cem por cento católico, a morte de João Paulo II
causou grande abalo nacional. A maior emissora televisiva SIC fez a cobertura completa do enterro. Em 10/4, a SIC publicou "Sinal do poder
divino em João Paulo II", descrevendo que o secretário pessoal do papa, o arcebispo Stanislau Dziwi, garantiu ao jornal italiano
La Stampa que testemunhou um milagre em João Paulo II.
Em Portugal, a imprensa apresentou matérias que evocavam o pontífice em sua religiosidade católica. A mídia portuguesa revelou que todo o país
se mobilizou e promoveu uma celebração com todos os representantes religiosos de Portugal. Na matéria de 8/4,
o jornal publicou que todas (???) as crenças religiosas homenagearam João Paulo II com missas e orações especiais em homenagens ao papa.
O Japão, um país budista, cobriu o evento, mas sem muitos alardes. O
jornal japonês Asahi Shinbum não se prendeu somente ao assunto do papa.
Em 9/4, um repórter japonês noticiou, ao vivo, a cerimônia fúnebre de João Paulo II mencionando a presença inédita de George Bush e outros representantes religiosos do mundo oriental.
No Oriente Médio, a morte do sumo pontífice não teve tanto impacto quanto no mundo ocidental. Isto se deve ao fato que, nesta parte do mundo, a religião católica não tem muita
expressividade e os problemas políticos e de segurança são mais relevantes. O pesquisador e
médico israelense, Yehoshua Maor, acompanhou a cobertura oriental, comentando as diferenças entre as coberturas: "A mídia ocidental viu as coisas sob a ótica religiosa e política. Diferente da mídia oriental, que vê mais como
política as relações internacionais."
Em Israel, houve no dia do enterro uma cobertura considerável por parte da imprensa, mas depois
disso os jornais israelenses ficaram totalmente calados no que se refere ao fato. "Talvez, devido ao fato do próprio Vaticano haver declarado a lei do silêncio",
indaga Maor. Um dos principais sites de Israel, o
Walla, noticiou o velório do papa na página três, pelo fato da delegação americana ter ido ao Vaticano. Já o
site
Jpost, em inglês, o assunto foi o plano de desligamento de Israel dos territórios palestinos.
A uma pequena manchete lembrava que o grande rabino de Roma fazia bons comentários sobre o papa João Paulo II, que foi o primeiro papa a entrar em uma sinagoga judaica.
O site
Ynet não noticiou o velório do papa. A gigante Al-Jazeera, do
Catar, trouxe apenas uma pequena notícia sobre o papa na sessão internacional.
Já no site turco, Turkishpress, havia um destaque maior para o papa. Isto se deve a duas causas: a proximidade da Turquia com a Itália e o interesse da mesma em ser parte da
Comunidade Européia. Além do fato de que o homem que fez o atentado contra a vida do papa no início de 1980 ser um turco e estar preso na Turquia.
O mundo acompanhou cada momento do maior enterro da história moderna. A imprensa mundial teve literalmente o "papa na língua".
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