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Império de um visionário

Andréia Moura

Do profundo anonimato ao topo do mundo. O império editorial criado por Victor Civita impressiona não pelo poder e alcance de hoje, mas pela insignificância sobre a qual fundou seu firme alicerce. Victor Civita, italiano de descendência e novaiorquino pelo acaso, era realmente um homem de visão. Do tipo que fazia a galinha colocar ovos de ouro sem perceber. Filho de um grande empreendedor, dinheiro nunca foi um problema para ele. Mas, mesmo assim, Civita não se acomodava com as facilidades decorrentes de um legado.

Desde muito cedo seguiu os passos empreendedores do pai. Alistou-se na força aérea e viajou por toda a América. Em 1935, casou-se com Sylvana Alcorso, filha de comerciantes, também de berço nobre. Os Alcorso e os Civita eram de origem judaica e com a Segunda Guerra Mundial e as ameaças do governo de Mussolini, a família se espalhou pela América em busca de refúgio. Victor Civita, Sylvana e o filho Roberto foram para os EUA onde ficaram por dez anos. Lá nasceu Richard. 

Civita engajou-se no ramo de plásticos onde foi extremamente bem sucedido, mas ainda esperava mais de sua vida. Tinha a visão focada em algo melhor, grandioso. Com o fim da guerra, a família voltou à Itália para uma visita de férias. Lá, Civita encontrou seu irmão que, se estabelecendo na Argentina, havia montado uma pequena editora e publicava as aventuras do Pato Donald. O irmão explicou que a América Latina era um mercado em expansão na área editorial. Para um visionário como Victor, o Brasil parecia o lugar ideal para construir um império de comunicação. E é exatamente aí, com Pato Donald, Brasil e o pioneirismo dos Civita, que a história começou a ser escrita.

O dono da história

O clima era provinciano nas três salas do centro de São Paulo onde se estabeleceu a primeira sede da editora Abril. Em 1950, metade da população brasileira era analfabeta e uma editora era um empreendimento que não trazia crédito algum. Isso não foi empecilho para Civita, que sempre acreditou no mercado potencial de leitores. Nada do que dissessem conseguia dissuadi-lo de uma idéia em que acreditava.

A revista O Pato Donald contava com uma equipe de meia dúzia de funcionários num trabalho totalmente artesanal. Quem assistisse o fechamento da revista em 1950 não poderia supor que aquela mesma editora se transformaria num reinado de comunicação. Nem que ela contribuiria grandemente para o jornalismo. Os quadrinhos do Pato Donald eram adaptados para a realidade brasileira, os diálogos eram raspados manualmente e o texto traduzido do espanhol para o português.

Mas, esse foi apenas o começo. Com o passar dos anos, novos segmentos foram sendo desenvolvidos pela Abril e o setor infanto-juvenil cresceu bastante. A família Disney também cresceu e o setor se solidificou como marca registrada da editora. Desde lá, outras séries vieram e foram, sem nunca deixar de cumprir o objetivo estipulado por Civita. Esse tipo de publicação tinha que educar e divertir ao mesmo tempo. 

Atualmente, a Abril Jovem vende mais de 25 milhões de exemplares por ano. Publicações que trazem desde quadrinhos da Disney, histórias de super-heróis e entretenimento, até games e contos de fada. Civita sempre soube como alcançar o público-alvo. Sempre teve claro em sua mente os objetivos que pretendia alcançar com suas publicações.

Na mira do público alvo

No fim de 1950, a empresa, que crescia a olhos vistos, ainda era vista com certas reservas pelos anunciantes e pelo próprio povo. Neste tempo, a Abril se empenhava numa grande escalada de qualidade. Para por fim as desconfianças da população, Civita convidou os anunciantes mais importantes da época para assistirem a um fechamento da revista Capricho, publicada desde 1952. Quando os convidados viram as montanhas de revistas saindo para as bancas puseram fim as reservas e passaram a anunciar na Abril. 

A revista Capricho, primeira publicação feminina da Abril, trazia fotonovelas importadas da Itália, sem cenas de sexo, assassinatos ou qualquer coisa que manchasse a moral e os princípios. Hoje, a editora conta com um material rico em detalhes e na abordagem, a fim de atender a esse público. A cada dia, a Abril fala melhor com as mulheres. Essa tendência vem exatamente da visão sempre aguçada de Civita. Ele sabia o que as mulheres da época queriam ver e seu legado parece entender essas necessidades também. 

Em 1959 foi lançada a primeira revista de moda do País, Manequim. Já em 1961, Abril lançou Cláudia que pretendia impor um novo padrão de qualidade para imprensa feminina do Brasil. Sempre com espírito pioneiro, a revista se focava no mundo doméstico. Com a evolução da mulher e seu espaço, a revista também evoluiu passando a tratar de assuntos como profissão e realização sexual. O tempo também trouxe publicações do gênero como Nova, Carícia e outras que visavam, e ainda visam, entender a mulher e lhe oferecer material que atenda aos seus anseios.

E os homens? A empresa também procurou atender o público masculino. Sexo e futebol. Foram essas as armas escolhidas pela Abril para alcançar esse público. Playboy, que primeiro levava o nome de Homem, quebrou recordes de venda apesar do conservadorismo brasileiro na época. Placar, veiculada desde 1970, Veja, Realidade e Quatro Rodas fecharam o cerco e a população masculina se rendeu as encantos da Abril. Mais tarde, a área econômica também teve seu quinhão. Hoje são publicadas Exame, Info e Você S/A

Compromisso com a cultura

Victor Civita teve uma preocupação central todo o tempo. Levar cultura ao povo. Seu filho e sucessor Roberto Civita, afirma que o pai nunca esteve interessado com o jornalismo propriamente dito. Seu interesse sempre foi publicar cultura. A tendência jornalística veio depois, com Roberto. Umas das coisas interessantes que comprovam essa tendência de Victor são os fascículos que ele lançou e que até hoje fazem parte da tradição da Abril. O fenômeno leva conhecimento para a casa de milhões de brasileiros hoje em dia.

Victor acreditava na democratização do conhecimento. Foi assim que, em 1960 lançou a primeira coleção de fascículos, A Bíblia Mais Bela do Mundo. Foram mais de 150 mil exemplares vendidos. Mais tarde foram publicadas enciclopédias, coleções musicais, clássicos da literatura, enfim, era a cultura da elite que por meio da Abril chegava às mãos do povão.

Em 1982, a parte cultural já havia se desenvolvido tanto que uma nova editora foi criada só para isso. A Nova Cultural vendeu mais de 50 milhões fascículos. Inclusive, foi o dinheiro proveniente destes fascículos que sustentou a Veja durante seu início turbulento e sua quase falência.

VEJA

A revista Veja é a menina dos olhos da Abril. Mas nem sempre foi assim. Em seus primeiros anos, a revista exibia um perfil novo e totalmente diferente do que a Abril estava acostumada a publicar. As coisas pareciam não caminhar. A intenção da editora era proporcionar um material diferente. Algo reflexivo que explicasse as grandes convulsões e mudanças na política brasileira. Aprofundamento e síntese para um povo que, com a velocidade dos acontecimentos, já não conseguia reter a informação na totalidade. Foi criado um banco de dados especificamente para Veja. Mas, Mino Carta, primeiro editor da revista, lembra que nada disso fez com que Veja fosse um sucesso nas bancas. 

Com o passar do tempo a revista foi chegando a receita certa. O público foi se afinando com o estilo e se interessando mais por política. Ainda assim, a ascensão da revista seria lenta e a Abril não teria condições de bancar seu desenvolvimento. Foi então que Roberto Civita, defensor ferrenho da revista, teve a idéia de implantar um sistema de assinaturas. A partir daí, Veja se tornou um ícone. Demorou para chegar ao ponto certo, mas hoje é a maior revista do País. Prova de que os Civita sempre foram verdadeiros visionários.

O tamanho da Abril

A Abril é mais que uma editora. Ela é um império de números. Sua participação na política brasileira é incontestável. São 219 títulos publicados, duas editorias de livros didáticos, centenas de sites, sistemas de assinaturas, mais de 40 mil páginas de anúncios entre outras. Mas não é só isso que faz o tamanho da Abril, mas o peso de sua participação na política e na organização da sociedade também a tornam um ícone.

Civita costumava sair pedindo empréstimos para todos sem medo de arriscar. Ele conseguiu mudar a política do BNDES ao expor argumentos que mostravam a importância do mercado editorial na economia de um País. Suas revistas publicaram matérias onde mostrava os horrores da torturas na época da ditadura. Durante as "Diretas Já", a editora assumiu posição consciente e, de certo modo, imparcial, mostrando a realidade e podridão do sistema.

Civita também não tinha medo de enfrentar ameaças. Em 1963, quando o País enfrentava ameaça de revolução e guerra civil ele esperava aumentar seu parque gráfico. Queria investir milhões, enquanto muitos pensavam em vender seus negócios e sair do País. Ele visava sempre o sucesso de suas empreitadas. 

Os visionários do futuro

Roberto Civita é o homem do momento. Seu desejo de dar continuidade ao trabalho de seu pai é notório. A veia visionária está no sangue. A missão é contribuir para o eterno desenvolvimento da sociedade e para a livre expressão do pensamento. A meta é garantir, a cada dia, o direitos do povo. Mas pra quem começou publicando revistas em quadrinhos e fotonovelas e cresceu a ponto de sustentar um impeachment e a dominar cada canto e assunto do País, os próximos 50 anos não serão mais que conseqüências de um investimento "friamente calculado".

Segundo Roberto Civita, o objetivo será sempre o mesmo. Produzir conteúdo útil, inteligente e confiável. O diferencial deste império do papel é algo que podemos chamar de visão. Monumentos como esse, são empreitadas que só podem ser sustentadas por visionário convictos.