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Sob a tutela da mídia

Rômulo Gomes

Eles falam sobre tudo. Sexo, homossexualidade, drogas, gravidez na adolescência, entre outros. São bonitos. Convencem bem. Alguns deles mandam desligar a TV e ir ler um livro, insistindo por até quinze minutos, várias vezes por dia. Mas desta vez não são os pais. São programas televisivos. Alguns deles até convencem. Revistas e outros veículos estão se tornando os "novos pais" da adolescência na era da informação. 

Uma pesquisa publicada em 17/4/2 no jornal O Estado de S.Paulo, demonstrou que crianças acima de sete anos não gostam mais de assistir filmes violentos. Outra divulgada em 2000 pelo Observatório da Imprensa, destaca que 53% dos pais não sabem controlar o que os filhos assistem. Quase 80% deles sentem-se constrangidos quando existe alguma criança perto deles em insinuações de sexo na televisão. Já os pais que não conseguem controlar atitudes, o modo de pensar e agir da criança somam 68% dos entrevistados.

Atualmente, a discussão sobre temas adolescentes polêmicos tem se tornado comum nas várias mídias. A edição de 4/5 da revista IstoÉ, sob o título "Como falar de sexo com eles" reflete um pouco a tendência do senso de paternidade que a mídia adquiriu nos últimos tempos. 

Em 27/3/2002, o mesmo site divulgou um dado afirmando que o volume de reportagens publicadas sobre a infância e a adolescência está crescendo desde 1996. "De lá para cá, o número de matérias sobre o universo infanto-juvenil cresceu 68%", segundo o site.

Vinícius Dantas, 15 anos, num debate promovido pela editora da revista Isto É para a produção da reportagem confirmou que "a mídia fala muito sobre isso [sexo] e não dá para ter dúvidas". Durante o debate, Felipe de Souza, de 17 anos, reafirmou a idéia de Dantas: "Informação a gente tem muita". Para eles, o que vai fazer a diferença é a prática sexual e o relacionamento duradouro.

Em 2001, foram publicados 75.797 textos sobre vários temas relacionados ao universo infanto-juvenil, de acordo com a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI). Vários veículos já têm se preocupado com o assunto. Os dados são só uma amostra da realidade que vem surgindo. As crianças estão mudando, os pais também.

Adolescência "mediada"

Ela tem cabelos longos, voz aguda, usa camisas com estampas de bandas de rock, um clássico tênis All Star azul, tem quinze anos, está no segundo ano do ensino médio. É uma típica garota que quer ser diferente das outras e mostrar o que pensa. Diz que o que mais gosta de assistir na televisão são filmes e programas voltados para a música. Em resumo, parece ser uma garota normal, com sonhos e desejos que todas as meninas têm. Mariana Vanucci, 15 anos, como poucas da sua idade sabem o que dizer sobre sua educação, seus pais e sobre o que a mídia tem feito em relação ao que ela lê, assiste e ouve.

Mariana tem um diferencial para falar sobre o assunto. Durante um bom tempo seus pais dirigiram programas televisivos, alguns deles voltados para o público infantil. Quem não ouviu falar do Balão Mágico, Plunct Plact Zoom, Vila Sésamo e Pirlimpimpim, sob a direção-geral de Augusto César Vanucci, e o último destes, pelo irmão de Mariana, Rafael Vanucci. 

Nestes programas, a temática era diferente, lembra Mariana. "Eu assisti todos os programas diversas vezes". Ela menciona que "antes um assunto polêmico para adolescentes era o esgoto". Num dos musicais especiais que ela participou chamado "A nave mágica", eram tratados temas simples como "o amor incondicional entre um robô e outro, um grupinho de amigos que se juntava para liderar as forças do bem contra o mal", relembra. "Esse era o assunto polêmico para quem tinha 15 anos na época", destaca.

Hoje em dia o que chama a atenção dela são programas musicais, mas mesmo assim há um problema. "Eu gosto de assistir clipes, só que até isso está vulgar", afirma. 

Para ela a absorção dos adolescentes pela mídia fica bem explícita. "Senão não haveria tantos livros sobre 'tudo o que uma garota precisa saber'", comenta Mariana sobre a literatura adolescente. Neste caso, entram livros e revistas como Capricho, Atrevida e outras.

A professora de Comunicação da Universidade de São Paulo (USP), Dulcília Bultoni, destacou num documento anual da ANDI que "a busca de orientação e o desejo de falar de amor sempre foram campo fértil para o consultório sentimental". Ela destaca que o primeiro periódico feminino da história, o inglês Lady's Mercury, de 1693, já tratava do assunto. A temática ia desde o "medo de perder a honra, ao orgasmo: as cartas sempre mantiveram essa característica de confidenciar segredos", afirma a professora.

A revista Capricho, da editora Abril, foi criada em 1952 e tinha o público adulto como o preferido. No final da década de 60 começou a migrar para um eixo mais jovem. O mesmo aconteceu com a revista Cláudia, que nasceu em 1961, já com uma postura mais intimidadora e questionadora. Nesta revista surgiu o trabalho da jornalista Carmen da Silva que a professora Dulcília destaca como "divulgadora e defensora da construção da identidade feminina (...) a jornalista de influência mais efetiva no universo das revistas de grande circulação". 

Adolescência "transviada"

Mas, tratando-se de adolescentes, algumas mães não sabem o que fazer para falar sobre o lesbianismo. "Teve mãe que achou um absurdo e teve mãe que falou 'graças a Deus que a novela está falando para a minha filha coisas que eu não consigo falar'", comenta Mariana sobre o enredo da novela Mulheres Apaixonadas.

Mariana diz que não resolveu o problema, mas serviu para alertar as mães de que conversar sobre isso "não era tão assustador como elas pensavam que era". Para ela, isso pode parecer banalização do assunto pela mídia, mas deve ser mostrado. "Por mais que isso seja banalizado, é melhor do que não comentar". Se a família não discute o problema pode gerar ilusões sobre temas polêmicos. Para ela, é "melhor pensar e colocar as idéias em ordem do que uma garota imaginar: 'Ah! Não! Eu quero beijar aquela menina lá, mas mamãe não deixa e ela vai me matar'". 

"A mídia não é um pai, mas vários tipos de pais com várias opiniões diferentes", confirma a estudante. Ela acredita que se você não gosta do seu pai, pode-se procurar um que seja do seu gosto por meio da mídia.

A responsabilidade midiática deve ser cultivada, segundo o psicólogo e doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise Paulo Roberto Ceccarelli. Ele acredita que a "mídia tem uma responsabilidade ética com aquilo que exibe e não pode ignorar a sua participação na construção social, na formação de mentalidades e no desenvolvimento psicossocial da criança e do adolescente". 

Adolescência conturbada

E para este caso Mariana lembra que a mídia ajuda, mas está meio "contraditória". Ela justifica dizendo que algumas emissoras dizem que "na Globo fala assim: 'não transe com quem você não ama, por que isso vai te prejudicar'", enquanto na MTV é transmitido algo como: "Transe com quem você quiser. Usando a camisinha está bom." A dúvida, segundo ela, é sobre o que deve ou não ser feito. "O que é pra eu fazer? É pra transar ou não?", questiona.

O publicitário Wagner Bezerra polemiza a produção de programas sem responsabilidade social num artigo publicado no site do Multirio, do governo estadual do Rio de Janeiro. Ele questiona: "Quem decide o que será produzido na TV aberta comercial levando-se em conta o que diz a Constituição no artigo 221, '...preferência à finalidades educativas...'?

"A TV paga é pautada pela qualidade, ética e respeito ao telespectador. Sexo para quem quer sexo, violência para quem quer violência, música para quem quer música, notícia para quem quer notícia e educação para todos", afirma Bezerra achando que todos têm o direito de escolher o que assistir.

Se a mídia compete para diversificar sua produção, deve fazê-lo com zelo e não sem se preocupar com os efeitos psicológicos nas crianças. Os adolescentes têm muita disposição para questionar e transformar o seu meio. Entretanto, eles têm problemas sérios durante esse período. Gerar "controvérsias" nesse sentido pode criar muita confusão naqueles que serão os próximos produtores da mídia.