|
|
|
editorial | especial | debate | imprensa em foco| links |
mídia eletrônica | cultura | perfil |
olho vivo | canal do leitor | e-mail | expediente | nostalgia |
anteriores | próximas edições | inicial
Campo minado da corrupção
Dayse
Bezerra
Corrupção, denúncias, fraudes, CPI's, Correios, mensalão, governo, Lula, até Impeachment. Mais de cem dias ouvindo, assistindo e lendo sobre a maior crise política brasileira que o governo já passou. A cada dia, novas "bombas-surpresas" são detonadas revelando os roubos e os desvios de verbas que só aumentam as cifras dos milhões de reais roubados do povo. Os estilhaços dos explosivos atingem nomes importantes que perdem a credibilidade e confiança por uma simples câmera escondida, uma gravação telefônica, ou até mesmo a assinatura rubricada em um papel. Torrentes de informações são despejadas ao público pelos veículos de comunicação. Ora comprovadas ou exclusivas, ora hipotéticas ou até inventadas. Todas de grande repercussão e suficientes para mudar o cenário do país, gerando incertezas "do que há de vir" e "do que será" da política brasileira.
Professor do curso de Comunicação Social do Unasp, Sérgio Fernandes leciona a disciplina Problemas Políticos e Socioeconômicos Brasileiros. Ele analisa a crise da seguinte maneira: "Se não fosse a mídia, muita coisa ficaria encoberta". a avalanche de corrupção começou com a matéria publicada pela
Veja (14/05), "O vídeo da corrupção em Brasília". Um vídeo gravado secretamente mostra o chefe do departamento de contratação e administração de material dos Correios, Maurício Marinho.
As imagens revelam que Marinho embolsava um pacote de três mil reais, dado por um corrupto envolvido no esquema de propina para fraudar licitações e cargos políticos. Entre os organizadores estava o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson, e o diretor de administração dos Correios, Antônio Ozório Batista. No dia seguinte à publicação, Marinho foi afastado do cargo por motivos de saúde. Ele afirma ser vítima de "armação". Depôs à Polícia Federal e foi indiciado por crime de corrupção passiva e fraude em licitação.
Mas os escândalos estavam apenas começando. Após o nome de Roberto Jefferson surgir na cena, outros nomes começaram a ser derrubados e entregues pelo deputado. Na semana de seu aniversário, Jefferson chamou a atenção do país para os depoimentos às Comissões de Sindicância e Ética da Câmara dos deputados.
Todos os acusados por ele negaram qualquer conhecimento do esquema de propina nos Correios. O primeiro a negar foi o Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu. Em entrevista ao programa
Roda Viva (16/05), ele disse uma frase que depois caiu em descrédito: "Este é um governo que não rouba, não deixa roubar e combate à corrupção".
E tome CPI
Os partidos de oposição pedem a criação de uma CPI. E o esquema dos Correios é desvendado pelos técnicos da Controladoria-Geral da União. O diagnóstico aponta "indícios de irregularidades generalizadas". Entre elas, outra licitação milionária que favorecia a empresa Novadata e envolvia o senador Fernando Bezerra (PTB-RN), conhecido do presidente Lula.
A situação piora para Roberto Jefferson. Vendo que seu nome já estava sujo na corrupção, resolveu abrir o jogo e levar consigo todos os "grandes" envolvidos na máfia. Encontrou sua oportunidade no dia 06 de junho, em entrevista para a
Folha de S. Paulo. Na ocasião ele revela que existe outro esquema de corrupção, além dos Correios: o famigerado Mensalão. Isto é, uma mesada de 30 mil reais paga a parlamentares que integravam os partidos da base aliada, principalmente o Partido Progressista (PP) e o Partido Liberal (PL). Tudo sob o comando de Delúbio Soares, ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores (PT). No mesmo dia, o presidente Lula é avisado da existência do suposto Mensalão. Todos os líderes do PP e PL negam qualquer conhecimento do caso.
Cabeças começam a rolar. Roberto Salmeron, o "homem chave" do esquema de arrecadação, citado na fita de Maurício Marinho, sai da presidência da Eletronorte. Em seguida, Vasconcelos Ferreira é demitido do cargo de assessor da Eletronuclear. Então, após muitos pedidos da oposição, é instalada a CPI dos Correios.
A história ganha mais personagens. Desta vez quem entre em cena é o publicitário mineiro Marcos Valério. Em entrevista à Folha de São Paulo (12/6), Jefferson acusa Valério de ser o operador do Mensalão e de liderar as negociações no gabinete do Ministro-Chefe da Casa Civil, José Dirceu. Segundo Jefferson, o publicitário levava o dinheiro das estatais e das empresas privadas para o gabinete do ministro Dirceu em uma mala.
Jefferson não ficou quieto. Ele soltou o verbo e os nomes na sessão histórica do Conselho de Ética da Câmara (14/06). Revelou que recebeu quatro milhões no esquema de caixa dois do PT, numa negociação que somava 20 milhões. Citou os beneficiários do esquema: José Jannene (PP), Valdemar Costa Neto (PL), Pedro Corrêa (PP), Sandro Mabel (PL), Bispo Rodrigues (PL) e Pedro Henry (PP), tudo ao comando do ministro José Dirceu. Todos os acusados negaram e ameaçaram processar o deputado Jefferson. Mas a existência do suborno fora confirmada pelo secretário-geral do PP, Bendito Domingos, após um segundo pedido de mais uma CPI. Agora, a CPI do Mensalão.
Novas bombas
Jefferson não se cansa e detona outra bomba. Desta vez, um desvio de três milhões de reais da estatal Furnas Centrais Elétricas. Novamente na
Folha de S.Paulo, ele aponta o diretor de engenharia estatal, Dimas Toledo, como envolvido no esquema. Diz que o dinheiro seria dividido em um milhão para o PT nacional, outro milhão para o PT de Minas e o restante era rachado entre os associados de Furnas e alguns deputados.
Mais uma denúncia. A revista Veja (02/07) revela assinaturas em documentos, no quais Marcos Valério era avalista de um empréstimo para o PT no valor de 2,4 milhões de reais. A operação conta com o aval do tesoureiro do partido, Delúbio Soares, e de José Genoino, então presidente do partido. De imediato Genoino nega, mas tempos depois admite tudo, argumentando ter assinado "sem ler" o documento que autorizava o empréstimo.
O mês de julho começa com mais cabeças rolando. No dia 4, Silvio Pereira se torna o mais novo ex-dirigente nacional do PT, acusado por Roberto Jefferson de ser o "gerente" do Mensalão. Dia 05 é a vez de Delúbio Soares virar ex-tesoureiro do PT. A próxima vítima, ou réu, foi José Genoino, ex-presidente do partido, que abandonou o cargo dia 09.
Até uma peça íntima masculina foi envolvida nas corrupções. José Adalberto Vieira, apelidado como o "homem-cueca", assessor do irmão de Genoino, foi preso tentando voar de São Paulo a Fortaleza (08/07) carregando 100 mil dólares em sua cueca. E mais 200 mil reais em uma valise que tinha também uma agenda e atas de reuniões do PT. No dia seguinte ao episódio, Vieira foi demitido junto com Marcelo Sereno, ex-secretário de Comunicações do PT. O irmão de Genoino, José Guimarães, também perdeu o cargo. Depois admitiu participar do esquema com 250 mil reais, que segundo ele, era destinado para quitar dívidas de campanhas.
A mídia procurava investigar cada palavra dos depoimentos, inclusive entrevistas e frases ditas pelos políticos e empresários envolvidos na crise. Nem o presidente Lula escapou. Na CPI dos Correios, o ex-secretário-geral do PT, Sílvio Pereira, disse que nunca ouviu falar em Mensalão. O
Jornal Nacional mostrou que o seu carro Land Rover Defender foi comprado pela empreiteira GDK e registrado com sua assinatura. A GDK obtém contratos de 272 milhões de reais da Petrobras.
Outro publicitário a entrar no jogo da corrupção foi Duda Mendonça, o mesmo que fez a campanha do Presidente Lula. Sua sócia, Zilmar Fernades da Silveira, aparece como sacadora de 250 mil reais da conta da SMP&B (abril/2003). Mas, em notinha, explicou que recebeu meio milhão de reais do PT para pagar alguns serviços.
O ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), e mais outros cinco deputados, foram citados em documentos da CPI dos Correios. Os papéis revelavam valores de saques feitos pelos parlamentares e o destino do dinheiro nas agências do Banco Rural de Brasília e de Belo Horizonte. Até o relator da CPI do Mensalão aparece como beneficiário de dois depósitos não-contabilizados, num total de 150 mil reais.
Os tucanos, que pareciam ser os inocentes na história, também acabam envolvidos. O jornal
O Globo (26/07) revelou que, em 1998, Marcos Valério fez um empréstimo de 11,7 milhões de reais para financiar a campanha eleitoral do ex-governador do estado de Minas Gerais Eduardo Azeredo, atual senador e presidente nacional do PSDB. O presidente regional do PSDB (MG), Narcio Rodrigues, confirmou a existência do "esquema" da eleição estadual (1998).
A televisão apresentou um duelo: os depoimentos de Roberto Jefferson contra José Dirceu (02/08). Dirceu negou todas as acusações, mas Jefferson soltou outra bomba. Ele disse que o ex-ministro Dirceu articulou uma viagem de Valério e Emerson Palmieri, ex-tesoureiro do PTB, para Lisboa com o objetivo de "negociar" com a maior operadora de telecomunicações portuguesa, a Portugal Telecom. A idéia era obter recursos de pagamentos prometidos pelo PT ao PTB e que não foram realizados. Os 600 milhões seriam transferidos para o Banco Espírito Santo - acionista da Portugal Telecom - e repassados ao IRB.Os encontros entre José Dirceu, Valério e Ricardo Espírito Santo foram confirmados dias depois pela agenda da Casa Civil.
Mais demissão
Manoel Severino dos Santos perde o cargo de presidente da Casa da Moeda. Provas confirmam encontros com Marcos Valério e saques de 2,7 milhões de reais em suas contas. Em entrevista para o Estado de S. Paulo, Valério afirma que muitas surpresas sujas virão pela frente. "Vou contar tudo o que sei, mas não de uma vez. Vou contar devagarzinho e vou fazer um estrago".
Na sexta-feira, 19, surge Rogério Buratti. Preso por crime de lavagem de dinheiro, o ex-assessor do Ministro da Fazenda, Antônio Palocci, afirmou a promotores do Ministério Público do Estado de São Paulo que na época em que era prefeito de Ribeirão Preto, o ministro recebia 50 mil mensais da empresa de coleta de lixo da cidade em troca de favorecimento em licitação. Palocci reagiu convocando uma entrevista coletiva para responder as denúncias.
Ao se referir às denúncias na política atual, ele falou que "as intituições são permanentes, o governo não". Lula elogiou a postura do ministro.
O reitor da Unisa, Sidney Storch Dutra, explica o que esta crise pode lhe ensinar. "Não podemos mais acreditar em partidos, pois sabemos que dentro deles existem bons e maus políticos. O eleitor agora vai escolher com mais critério o candidato, e não a legenda". Dutra acredita que a reforma política pode ser a saída para a crise, mas alerta: "Depende que tipo de reforma, não adianta mudar apenas o 'sabor da pizza', é preciso acabar com o 'forno' que a prepara!".
Crise e mídia
A onda do denuncismo se espalhou não apenas pelo Congresso, mas nos lares brasileiros através dos meios de comunicação. As coberturas são completas. Desde as primeiras denúncias e ameaças, passando pelas renúncias e depoimentos transmitidos na íntegra em canais fechados e abertos.
Em pesquisa do Portal Imprensa/MaxPress/Aberje, publicada na Folha-online (22/08), o destaque vai para os canais de TVs fechada, Câmara e Senado, com 76% da preferência dos jornalistas brasileiros que estão acompanhando os depoimentos sobre as denúncias de corrupção. O Ibope revela que o depoimento de maior audiência foi o de Renilda Santiago, mulher do empresário Marcos Valério Fernandes. Em seguida, o de Roberto Jefferson, que fez com que a TV Senado ultrapassasse a Globonews em índices de audiência.
A confusão aumentou com as interpretações que os veículos faziam da crise. Lula seguiu cumprindo sua agenda de viagens. Em seus discursos, sempre procurou não falar dos escândalos, mas muitas de suas frases ficaram registradas. "Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu para fazer o que precisa ser feito" foi uma delas. Muitas mídias fazem críticas sobre a postura do presidente Lula e algumas já até mencionaram a possibilidade de se repetir o cenário do fim da Era Collor, com um possível
Impeachment.
Em meio à crise, a mídia sorri pra não chorar. Motivo para programas humorísticos e de reality shows satirizar os escândalos políticos com piadas e charges em programas televisivos, jornais, revistas e principalmente os on-line's não faltam. Se não sorrir, outro recurso é cantar composições em tons de revolta.
Destaque para um trecho da música de Tom Zé e Ana Carolina, a Unimultiplicidade:
"Neste país de manda-chuvas/ cheio de mãos e luvas/ tem sempre alguém se dando bem/ de São Paulo a Belém" e Vossas Excelências. Os Titãs,
"Sorrindo para a câmera/ Sem saber que estamos vendo/ Chorando que dá pena/ Quando sabem que estão em cena/ Sorrindo para as câmeras/ Sem saber que são filmados/ O sol um dia ainda vai nascer quadrado".
A crise virou manchete em capas de revistas e jornais do mundo. Os americanos noticiaram o escândalo, enfatizando o modo
como o presidente Lula estava encarando a crise. Na capa da Newsweek (08/08), Lula está passando pela prova de fogo, e a revista deixa uma pergunta no ar: Lula vai avante ou não com as reformas em meio à crise do Governo? Já o jornal
Times (17/08) abordou como os partidos de oposição estavam tentando capitalizar os escândalos para derrotar o presidente Lula.
O professor de Radiojornalismo Amarildo Augusto acompanha as coberturas pelas grandes rádios e declara: "Já é uma tradição as grandes rádios cobrirem estes acontecimentos graças à mobilidade que têm". A
CBN e a Jovem Pan têm cortado muito de suas programações para transmitir na íntegra os depoimentos das CPIs.
Crises na política sempre vão existir, mas o que não pode acontecer é que um país "democrático" como o Brasil, perca o sentido real da palavra "Ordem e Progresso". Quanto ao amanhã, ninguém sabe. O melhor é já estar preparado para bombas-surpresas que a imprensa pode explodir a qualquer momento.
|
|