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Quando o império contra-ataca

Victor Drummond

Na segunda metade do século XVIII, o governo britânico saiu vitorioso da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), mas foi premiado por dificuldades financeiras. Precisando muito de dinheiro, as autoridades inglesas resolveram criar certos impostos que os colonos norte-americanos seriam obrigados a pagar. Uma onda de indignação tão forte espalhou-se pelas colônias que a metrópole viu-se obrigada a retirar as contribuições exigidas. Com exceção de uma, o Imposto do Selo, uma taxa cobrada sobre o chá, o vidro e o papel, mercadorias monopolizadas e vindas da Inglaterra. Demonstrando descontentamento, vários moços de Boston se fantasiaram de índios peles-vermelhas e atiraram ao mar todo o carregamento de chá de um navio inglês atracado no porto desta cidade. Os norte-americanos mais exaltados resolveram formar bandos militarizados, instalando em diversos lugares depósitos de armas e munições. 

Um exército rebelde, sob o comando dos generais Robert Lee e George Washington rapidamente apoderou-se da cidade de Boston. Essa e outras vitórias fizeram com que os representantes das colônias revoltadas se reunissem num congresso em Filadélfia no dia 4 de julho de 1776 para proclamar a sua independência, em um documento intitulado a "Declaração dos Direitos". Estavam fundados os Estados Unidos da América do Norte.

O professor Lucas Kerr de Oliveira escreveu no site da revista Caros Amigos (www.carosamigos.com.br) que "os Estados Unidos da América, desde sua fundação, têm defendido a liberdade e a democracia, defendido esse sistema político no seu país e no mundo, principalmente quando se coloca como o maior exemplo de democracia do mundo. Mas, na prática, têm um currículo invejável de atrocidades, guerras, conquistas, intervenções e ocupações militares e, ainda, a manutenção de governos ditatoriais 'fantoches' no mundo todo, financiando ou armando grupos políticos que representem seus interesses no país em questão". 

Kerr de Oliveira relata que o Haiti foi ocupado por tropas norte-americanas em 1914 e esse domínio continuou até 1936, passando posteriormente por governos fantoches que incluíram ditaduras em diversos períodos. Em 1991, os Estados Unidos voltaram a intervir no país e, em 1994, o Haiti foi novamente invadido por tropas estadunidenses, que colocaram um novo governo no poder. Na Guatemala, os Estados Unidos apoiaram governos fantoches de 1906 até 1944. Tropas norte-americanas invadiram a Nicarágua em 1909 e novamente em 1912. A potência norte-americana entregou o governo do país para a família Somoza, que governou o país com uma forte e opressora ditadura de 1936 a 1979, sempre representando os interesses estadunidenses no país. A pedido do embaixador norte-americano, Augusto Cesar Sandino, líder da oposição, foi assassinado durante o que deveria ser uma reunião para negociações de paz em Manágua.

O professor lembra em seu artigo que "hoje os Estados Unidos comandam praticamente toda a economia mexicana, em especial os recursos naturais, como minerais metálicos e o petróleo, sendo que 95% das exportações de petróleo mexicano, hoje, vão para os Estados Unidos". Isso sem falar no golpe militar de 1964 no Brasil, também com participação e supervisão da CIA, do Departamento de Informação do Pentágono (Cel. Vermon Walters), da Embaixada dos Estados Unidos (embaixador Lincoln Gordon) e de apoio militar estratégico dos Estados Unidos. "A repressão e perseguição política, o fim da liberdade de expressão, a censura, além de prisões arbitrárias, desaparecimento de opositores, espancamentos e assassinatos foram comuns em todas as ditaduras militares implantadas com apoio dos Estados Unidos na América Latina", escreve Oliveira. A imprensa mundial em nenhum momento criticou essa atuação tão caridosa do tio Sam.

Coleção de orelhas

"A violência dos soldados estadunidenses é até hoje camuflada pelo governo dos Estados Unidos, existindo relatos dos próprios soldados de que eram comuns a tortura, espancamentos, estupros, a mutilação e decapitação de prisioneiros, além do massacre de vilas inteiras, incluindo mulheres, crianças e velhos. Dentre os relatos mais estarrecedores, estão os dos soldados norte-americanos que colecionavam orelhas de vietcongs, quando o soldado que tivesse mais orelhas bebia toda cerveja e uísque que conseguisse beber no acampamento, sendo considerado 'o número 1' do batalhão", afirma o professor Oliveira. E a imprensa, nada revelou sobre essa coleção sanguinolenta.

A pesquisa de Lucas aponta o apoio dos Estados Unidos para que Saddam Hussein chegasse ao poder em 1979 e para jogar o Iraque contra o Irã numa guerra de oito anos (1980-88), a Guerra Irã-Iraque, quando as armas norte-americanas transformaram o Iraque numa potência local. "Mas como toda guerra é um grande negócio, os Estados Unidos vendiam armas secretamente ao Irã, de onde conseguiam dinheiro sujo para financiar os 'contras' na Nicarágua. Após oito anos de conflitos sangrentos, o resultado foi mais de 600 mil mortos e um milhão de feridos." A mídia em momento algum apresentou os Estados Unidos como oportunistas.

O professor Lucas não deixa de fora o fato de que o aliado Saddam Hussein invadiu em 1990 o Kuwait, um dos maiores fornecedores de petróleo dos Estados Unidos. A partir daí, Saddam deixa de ser um aliado e "se torna um inimigo 'perigoso', sendo rapidamente demonizado pela mídia estadunidense. O Iraque foi atacado por uma coalizão de aliados dos Estados Unidos (1991) autorizados pela ONU, quando morreram cerca de 200 mil iraquianos, sendo cerca de metade deles civis (os chamados 'efeitos colaterais' das armas de 'precisão cirúrgica')". A imprensa cobriu o atroz evento, mas sem muita ênfase nas atrocidades norte-americanas.

Paulo Cézar Tiellet e Paulo Denisar Fraga, professores do Departamento de Filosofia e Psicologia da Unijuí, no Rio Grande do Sul, se posicionam no artigo "Terrorismo e Imperialismo" publicado na Revista Espaço Acadêmico (n.º 5): "Mas a mídia internacional que, por exemplo, apresentou como show o bombardeio a Bagdá, em 1991, não tem sensibilidade para considerar que a vida de um iraquiano merece a mesma comoção que a de um norte-americano. Não se deve esquecer, aliás, de que os Estados Unidos financiaram e armaram muitos dos que hoje praticam o terrorismo. O terrorismo internacional é, contemporaneamente, o filho bastardo do imperialismo. Parece ser a única forma que determinados grupos dissidentes do poder quase absoluto dos Estados Unidos encontram para enfrentá-lo no plano material, já que não têm condições de fazê-lo nem no plano político-diplomático."

O repórter da Rede Globo, Carlos Dorneles, que cobriu esta guerra, escreveu em seu livro "Deus É Inocente, a Imprensa Não", que "para quem comanda exércitos, quanto menos a imprensa mostrar, melhor. Mas nunca tinha se chegado a tal estágio de controle de informações como na guerra dos Estados Unidos contra o Iraque. As imagens que ficaram registradas na memória são as das luzinhas esverdeadas caindo sobre Bagdá. Sem sangue, sem horror. Até hoje não se conhece o número de vítimas".

Oliveira ainda revela em seu artigo que "durante a Guerra do Afeganistão (1979-1989), os Estados Unidos financiaram, armaram e treinaram grupos guerrilheiros islâmicos anti-soviéticos, os mujahidin (de onde saíram grupos como o talebã) ou grupos terroristas (como a Maktab al Khidmat, que se tornaria a rede Al Qaeda), mergulhando o Afeganistão numa guerra civil que devastou o país".

Compensando o passado

Perceba que a história se repete. Agora, porém, a metrópole imperialista não é a mesma do início da reportagem. Quem sabe pelo sentimento de humilhação de ter sido uma colônia e na necessidade de desforrar isso em algum país, hoje os Estados Unidos exercem o papel de metrópole. Eles têm a ânsia exagerada de construir o seu império a todo custo, colonizando através das ideologias, de suas multinacionais e de suas guerras bárbaras. E para isso, eles contam com um aliado extremamente poderoso. Engana-se quem pensou na Inglaterra. Referimo-nos a perspicaz mídia. Ora publicando ufanismos e demagogias, ora simplesmente permitindo-se calar. O problema se agrava porque a imprensa e as agências de notícias norte-americanas exercem um poder de influência muito grande sobre a imprensa mundial. Esta focaliza muitos de seus planos de pauta e editoriais em cima do que grandes jornais norte-americanos publicam. No Brasil, por exemplo, grandes jornais como Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, publicam as mesmas matérias do jornal mais influente do mundo, o New York Times, em suas editorias sobre acontecimentos internacionais.

No lugar de disfarces com peles-vermelhas, o verde camuflado dos militares norte-americanos agora invade países, dizima populações e lança ao mar todas as tradições sem pedir licença. E a mídia, cúmplice, aponta para diversas direções, menos para a verdade plena. 

Em entrevista ao telejornal Semana em Foco, do canal fechado Novo Tempo (na capital bandeirante, no canal 56 UHF), Carlos Dorneles conta que durante a guerra no Iraque e após os atentados do 11 de setembro, houve um patriotismo muito grande na imprensa americana e que a imprensa mundial, por tabela, acompanhou esse patriotismo. Isso acontece, segundo ele, porque quase todas as agências internacionais de notícia são dominadas por um poder econômico (no caso, dos Estados Unidos), gerando informações muito parecidas. Em seu livro, Dorneles diz que a mídia colaborou intimamente para que Bush implantasse rapidamente seu projeto político - de conquistas através de guerras - após os atentados em Nova York. "A imprensa pediu guerra e foi atendida. Ignorou massacres, desrespeitou aos direitos humanos e às liberdades individuais, a destruição de um país miserável pela maior potência do planeta e deu vazão ao patriotismo como senha para obediência ao poder. Numa guerra em que os americanos jamais combateram em solo, a mídia descreveu um conflito diferente, muito mais limpo e heróico", conta o repórter.

"Deus É Inocente" revela que a cobertura da imprensa pós-11 de setembro se transformou no caso mais censurado, mais autocensurado e distorcido de que se tem notícia na história da imprensa em tempos de guerra, e que, em 24 de setembro, o governo americano proibiu que a Voz da América, a agência de rádio do próprio governo, divulgasse uma entrevista de Osama Bin Laden. O imperialismo em relação à mídia não pára por aí. No dia 20 de outubro, "a organização Repórteres Sem Fronteiras acusou o Pentágono de censurar imagens via satélite do Afeganistão ao firmar contrato de exclusividade com a Space Imaging, que administra o satélite civil Ikonos. O acordo proíbe a empresa de vender e distribuir imagens a qualquer outra entidade desde o dia 7 de outubro. Saiu em uma notinha de doze linhas em O Estado de S. Paulo. O assunto era uma novidade para o leitor brasileiro.

Um dia depois, segundo o livro de Dorneles, houve uma reunião reveladora no Pentágono entre o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e os chefes das sucursais em Washington de todos os jornais e emissoras de televisão. Nesse encontro, o secretário informou à imprensa que ela teria que trabalhar sob censura ao cobrir a guerra contra o Afeganistão. O autor escreve: "Após alguns dias, aos poucos, foi sendo revelado o que ficou acertado entre as partes: o acesso a porta-aviões, com rotatividade entre os jornalistas permitidos a bordo. Cada um deles poderia permanecer por um período de duas a cinco noites. Não teriam acesso a nenhuma região próxima de combates. Esse seria o estranho trabalho jornalístico reservado à imprensa americana." 

Mais adiante Dorneles conta em seu livro que "o New York Times publicou reportagem revelando que o Pentágono 'cogita' a divulgação de informações falsas para influenciar a opinião pública internacional. Entre as propostas estaria a de 'plantar' informações falsas nas agências de notícias estrangeiras por meio de pessoas que não tenham laços óbvios com o Pentágono. Outra proposta envolvia o envio de e-mails para jornalistas, líderes civis e estrangeiros para promover a visão americana ou ataques a governos inimigos".

O imperialismo norte-americano que antes se refletia apenas em invasões territoriais e atrocidades humanas se estende de forma declarada à mídia. O jornalista norte-americano Bill Hinchberger, editor e proprietário da BrazilMax, empresa de comunicação que divulga informações sobre o Brasil no exterior e que é membro da Academia Americana de Jornalistas e Autores (Asja) e ex-presidente do São Paulo Foreign Club (clube dos correspondentes internacionais de São Paulo), além de ter atuado como correspondente internacional de importantes revistas como The Financial Times e Science, afirmou em entrevista exclusiva ao Canal não concordar com a expressão "imperialismo", ao se falar da relação norte-americana com a imprensa. "É muito mais complexo do que isso. Toda entidade seja empresa, seja governo, Pentágono, vai tentar pintar a história, empurrar a linha deles, o que querem que seja colocado na imprensa (...) Toda empresa, partido, querem defender a sua linha. Cada um tenta usar as ferramentas que consegue e colocar o que pensa." Segundo ele, a expressão imperialismo tem que ser revista. "É a mesma coisa de sair chamando todo mundo de fascista. Essa palavra não tem mais sentido. Maluf não é fascista. Ele é um político conservador, corrupto, enfim. A influência que tem de fato o New York Times, CNN, Washington Post e outros jornais da Europa sobre outros países não encaixa no meu ponto de vista dentro da definição da palavra imperialismo", argumenta.

Por outro lado, Hinchberger critica a maneira superficial e cinematográfica como a imprensa abordou a guerra no Iraque. "A atual guerra no Iraque foi mostrada mais como um filme de ação, cheia de tiros como num filme de Stallone ou Schwarzenegger, ao invés de se explicar o que está acontecendo no nível político, diplomático, até cultural e os conflitos humanos que existem os problemas que têm que ser solucionados", critica. Para ele, a cobertura da guerra tem sido como uma junk food, uma comida sem nutriente algum, como fritas e hambúrguer, enquanto o público na verdade precisaria de uma boa salada nutritiva e um prato bem nutritivo.

NY Times sem culpa

"Tenho uma bronca quando dizem que o New York Times influencia todo o resto do mundo. Por quê? Porque todo mundo presta atenção. No dia que deixarem de prestar atenção, a Folha e o Estadão pararem de dar a notícia do que o New York Times falou ontem, isso vai acabar. São esses veículos que fazem isso. É uma coisa da política interna deles. Não tem ninguém ligando para o Estadão dizendo o que ele tem que colocar." Para Hinchberger, no dia em que os jornalistas resolverem não se basear nestas mídias, o controle vai deixar de acontecer. Se pararem de fazer isso, a maioria dos brasileiros não vai nem saber o que o NY Times fala.

Mesmo não considerando os Estados Unidos um país imperialista, Hinchberger conta que na época em que trabalhava na América Central, o governo de Ronald Reagan fez muita pressão sobre o New York Times para tirar o correspondente Raymond Bonner de El Salvador porque ele fazia um tipo de cobertura que o governo dos Estados Unidos não gostava. "Mas para fingir que não estava fazendo pressão, deixou-o lá por mais uns três ou quatro meses", lembra.

Hinchberger também revela a dificuldade que os jornalistas norte-americanos têm para ter acesso às informações norte-americanas nos Estados Unidos ou trabalhando como correspondente em outro país. "A Embaixada dos Estados Unidos aqui no Brasil é muito fechada. Existe nos Estados Unidos uma lei chamada Freedom of Information Act, onde qualquer cidadão, e muito utilizada pelos jornalistas, pode solicitar acesso aos documentos relativos a algum fato (como guerras, atentados, enfim), desde que este não seja classificado como segurança nacional. Mas o governo enrola muito para não soltar esses documentos e muita gente acaba tendo problema por não ter acesso aos materiais apesar de haver uma política oficial que disponibiliza esse documento. E essa é uma luta constante dos jornalistas dos Estados Unidos para que se cumpra a lei."

Bush e Fidel

Hinchberger apresenta seu ponto de vista em relação ao engano do atual presidente norte-americano ao afirmar que existiam armamentos bélicos poderosos no Iraque. "Bush ficou falando de coisas como as armas no Iraque de destruição em massa e que depois ficamos sabendo que não era verdade. Mas o dano já tinha sido feito. Essa administração de agora é muito fechada e não confia no povo. Fidel Castro também não confia em seu povo. Bush e Fidel são parecidos no sentido de que querem a informação só para eles e não as liberam para o povo. Isso é notório na administração Bush", declara o jornalista.

A Folha de S. Paulo chegou a publicar como manchete (27/5/04): "Anistia compara ação dos EUA à dos grupos terroristas". O relatório anual da Anistia Internacional diz que a tortura de iraquianos resulta da política norte-americana de se excluir de leis internacionais. Isso mostra que a imprensa tenta a passos lentos e, de vez em quando, esquivar-se do imperialismo dos Estados Unidos. Mas este país não dá o braço a torcer. Na própria reportagem eles rejeitaram as acusações e afirmaram liderar a proteção aos direitos humanos. E assim, escamoteando informações, tentando driblar a realidade e manipulando a imprensa implícita ou explicitamente, a "terra do nunca" - "nunca fizemos nada de errado" - vai infiltrando pelo mundo os seus ideais. A custo de muitas famílias, nações e se valendo de poderosos jornais.

                     

criação: lisandro staut