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 De
vilã a mocinha
Diogo
Cavalcanti
"Eu nunca deixaria meus filhos assisti-la", diz um pai indignado contra a programação da TV. Na verdade é. Não seria uma frase curiosa se o dono dela fosse Vladmir Zworykin, um dos inventores do televisor moderno. Detalhe: Zworykin nasceu no século XIX. Para o desgosto daqueles que investiram neurônios para criar aparelhos como rádio, televisor e computador, o uso dessas inovações não é compatível com os sonhos acariciados por eles.
Lousa e giz lembram mais alergia do que aprendizado para a maioria de jovens estudantes. A marca do conhecimento deixou de ser a sua veracidade, ou não. Fala-se em velocidade. Com isto, é comum ver o professor de Geografia falar de um país, quando a geografia local já é outra. Para pessoas com menos de trinta anos, isso parece assustador. Principalmente quando nem se imagina o que é um "portal da web".
Novidades na educação
A mídia pontua o antes e o depois da educação. O conhecimento está acessível como jamais se pensou. Programas educativos populares oferecem cursos. Só os telecursos já formaram centenas de milhares de pessoas que não tinham tempo nem meios para freqüentar uma sala de aula.
Seria cruel omitir a utilidade da mídia na oferta de conhecimento. Na ponta de lança estão os canais educativos por assinatura. Com destaque ao
Discovery Channel, National Geographic e outros, surgidos há dez anos, a emoção da busca pelo conhecimento se torna evidente em textos do tipo: "Você vai ver agora o que uma cobra é capaz de fazer". A mesma intenção está na plástica da imagem, nos efeitos desconcertantes de computador. Algo além de um "documentário temperado".
A internet fornece recursos praticamente ilimitados de conhecimentos em todos os campos, com a vantagem da interatividade. Logo, é possível aprender línguas, consultar dicionários, conhecer países movendo câmeras em tempo real quase sem taxas de adesão, pedágios ou demais formas conhecidas de tirar reais do bolso. Parece que o professor deixou o status de fonte de conhecimento para assumir o lugar de coordenador da busca.
Rádio e tevê, por sua vez, tiveram seu papel na democratização do ensino cobrindo áreas e alcançando números inatingíveis de pessoas no modelo convencional. Surgem as emissoras estatais, como a TV Escola, possibilitando moradores das palafitas no Norte do Brasil assistirem aulas de Português - já que a primeira escola está há mais de duzentos quilômetros de rios e estradas barrentas. Neste aspecto, a mídia funciona como um megafone do conhecimento.
O outro lado
Apesar dos avanços, deve-se evitar o triunfalismo. No contrato das vantagens, a mídia trouxe também as linhas minúsculas das perplexidades que fizeram a educação moderna rodopiar. A quantidade e a facilidade de acesso aos conhecimentos tornaram as pessoas menos preocupadas em aprender. Afinal, a calculadora é mais atraente do que lápis e papel. Para a maioria, é mais cômodo adotar a posição do colunista do que formar a sua própria opinião lendo livros. Os livros enfrentam a concorrência desleal contra as luzes e sons das mídias eletrônicas. E os professores quase precisam virar palhaços para ensinar a fórmula de Báskara.
O aprendizado também sofre. Na verdade, a maior parte do conhecimento está mais fora da cabeça enquanto se multiplicam os CDs gravados, os arquivos e as revistas nas caixas empoeiradas do quarto da bagunça. Mais se tem, menos se sabe. Logo, muita gente se torna especialista em generalidades - leia-se inutilidades. O que se percebe é uma grande massa sentada em cima de uma pilha de conhecimentos sem aprendizado.
Por outro lado, os idosos se surpreendem como uma criança de sete anos possa aprender coisas que eles descobriram apenas aos dezoito. Apesar desta vantagem, o contato delas com o "virtual" e o abandono do "real" pode ameaçar o seu preparo para encarar a turbulência da vida moderna.
Não é à toa que a depressão está se caracterizando como a doença do século XXI. Em contato com a tecnologia, as pessoas estão perdendo a habilidade de se relacionar. Neste ponto, o idoso tem suas vantagens, pois participou de um processo mais humano de aprendizagem.
O perigo da deseducação
Entretanto, a deseducação é o fator mais danoso do advento da mídia. Ao passo que a língua portuguesa tem mais de 400 mil vocábulos, os jornais utilizam dois mil deles no máximo, sem falar nos programas de auditório e novelas.
O interesse comercial e o impacto das campanhas publicitárias treinam as pessoas para serem consumidoras, fazendo-as renunciar ao seu direito de refletir sobre seu papel social. Dessa forma, o que está na boca do povo não é o que precisam fazer para melhorar suas vidas, mas o que vai acontecer na novela das oito, ou a situação do Corinthians no Campeonato Brasileiro.
Os pais fazem o que podem. Eloísa Oliveira, mãe de dois filhos, um rapaz de 18 anos e uma moça de 20, diz que não pode fazer mais nada pelos filhos: "Eu não tenho mais controle sobre eles (...) nem faço questão de ter. Eles têm o direito de escolher o que vão assistir, e eu não vou escolher por eles."
Eloísa conta que procurou ensinar princípios para seus filhos desde pequenos. Hoje ela procura dialogar: "Eu sempre converso com eles sobre a vida, mostrando as conseqüências das atitudes deles." Para ela, as inovações são bem-vindas, mas podem trazer mais malefícios do que benefícios, por isso prefere a leitura de livros: "Estimulo a lerem livros. Não gosto de computador. Pago por folha lida, dez centavos por folha."
Ednice Burlandy, mestre em Educação e professora há quarenta anos, acredita que a mídia pode ser um instrumento fundamental na educação: "Na minha opinião, o professor deve trazer a tevê para a sala de aula e assistir programas que os alunos estão acostumados a ver. Precisa fazer uma análise crítica para o aluno não ser um telespectador passivo e aprender a enxergar nas entrelinhas."
Segundo Ednice, o computador e a internet são indispensáveis. Para ela, o maior problema é o professor não querer se envolver. "Um professor veio aqui na minha sala e pediu para digitar um texto. (…) Ele disse que não sabia usar o computador." Para a Ednice, é fundamental o professor saber usar a informática para estimular os alunos a fazerem pesquisas.
Quanto à deseducação, Ednice Burlandy ressalta o papel dos pais. Segundo a professora, a tevê. Segundo ela, além de selecionar o que as crianças devem assistir, os pais devem comentar o que os filhos assistem. Diante de uma cena de maus-tratos, por exemplo: "Viu como o filho tratou a mãe?"
Apesar dos problemas trazidos pela mídia à educação, existem muitos benefícios. O que se espera é que se aprenda a selecionar o seu conteúdo e aprender a extrair o que ela possui de melhor.
criação: lisandro staut
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